Em Erice, um doce ar de mistério

Faz frio. Já é metade da manhã e um vento gelado sopra no alto do morro de 750 metros de altura. Há umidade nas paredes de pedras. Lá embaixo, no mar que banha Trapani, na Sicília, faz calor e as ruas estão cheias de gente. São 15 quilômetros de distância, apenas. O suficiente para separar dois mundos distintos. Ali, no topo do monte Eryx, também conhecido como San Giuliano, há um tilintar de frio. Ou seria um arrepio de medo? Erice, a cidade medieval que ainda acorda, está envolvida em brumas. Há mistério no ar. E orvalho.

ERICE, O Estado de S.Paulo

20 Março 2012 | 03h09

Na imensidão branca, uma torre gótica se revela aos poucos: é parte da Chiesa Madre, a catedral do século 124. Parece austera, mas seu interior luminoso diz muito sobre o local: por trás da rudeza das pedras, há uma simpática cidade a ser descoberta a pé. Há muitas janelas fechadas. Abertas, só as portas das lojas de doces, vinhos e souvenirs, dos quais as encantadoras louças e objetos de cerâmica são os mais tradicionais. Não há mais ninguém.

Erice acorda lentamente. É invadida por turistas que se entendem como podem com os lojistas - a maioria não fala inglês. A guia diz que ali vivem de 100 a 150 pessoas e dá para acreditar, mas a informação oficial é de que toda a cidade tem quase 30 mil habitantes. O sol expulsa a neblina aos poucos e revela caminhos estreitos, muralhas e palácios.

Conta-se que Erice foi formada pela mistura de foragidos da Guerra de Troia. Fato é que foram os élimos que ergueram a cidade, que recebeu ainda influências de fenícios, gregos, romanos, árabes e normandos.

Originalmente, Erice era local de culto à deusa da fertilidade, Vênus (Venere Ericina, daí seu nome). Em 831 d.C., com o domínio árabe, seu nome foi mudado para Gebel-Hamed (Monte de Hamed). A denominação não resistiu à invasão normanda, mas (ainda bem) os doces introduzidos pelos árabes permaneceram, especialmente os marzipãs, e fazem da cidade uma referência no assunto em toda a Sicília. A loja mais famosa é a Pasticceria Maria Grammatico, de uma ex-freira que trouxe do convento os segredos dos deliciosos doces. Prove os cannolis, outra especialidade local. O canudo de massa doce frita, recheado com creme de ricota, não tem meias medidas: provoca amor ou ódio.

É da época normanda o Castelo de Pepoli, hoje um hotel. Sorte é que a cidade pouco mudou desde a Idade Média, dentro dos limites de suas muralhas. Estão lá suas três portas de entrada e pelo menos 15 igrejas. Entre elas, visite as de San Giovanni Battista (século 13) e San Cataldo (século 14). Vá acompanhado: mesmo com sol a pino, se perder sozinho pelos caminhos de Erice dá arrepio. Dá a impressão de que seus portões se fecham quando o último turista vai embora. Mas, provavelmente, você vai querer ficar preso na cidade das brumas. /A.C.

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