Em Floripa, trilha vira lar de animais resgatados

FÁBIO VENDRAME, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2014 | 02h05

Passeio alternativo ao circuito pé na areia de Florianópolis, a Trilha Ecológica do Rio Vermelho demonstra potencial para se tornar modelo de outras iniciativas similares no Brasil. Em um trajeto gratuito de apenas um quilômetro, realizado em passarelas suspensas de madeira e totalmente acessíveis, os visitantes têm contato com um pedacinho preservado do meio ambiente da ilha e ainda conhecem a história dos novos moradores locais: animais silvestres vítimas de maus tratos que foram resgatados e ganharam ali um lar - afinal, caso fossem reintroduzidos na natureza, teriam chances remotas de sobreviver.

Aberto ao público há pouco mais de dois meses, o passeio funciona de terça-feira a domingo, das 10 às 17 horas, e tem capacidade para receber até 30 pessoas por vez, sempre com o acompanhamento de um biólogo ou educador ambiental. Dura de 40 minutos a uma hora e, em razão da alta procura, é recomendado agendar a visita pelo telefone (48) 3665-4492 ou pelo e-mail trilha@fatma.sc.gov.br.

A área em que a Trilha Ecológica está inserida faz parte do Parque Estadual do Rio Vermelho, que ocupa cerca de 1,5 mil hectares - equivalente a aproximadamente 1,5 mil campos de futebol - e reúne Mata Atlântica, restinga e um vasto trecho alterado pelo plantio, no passado, de eucaliptos e pinheiros.

"No trajeto os visitantes aprendem o que é o quê, ou seja, como a região era originalmente e como foi transformada com a intervenção do homem", diz Márcio Luiz Alves, diretor de Proteção dos Ecossistemas da Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma; fatma.sc.gov.br).

Seria apenas mais um passeio ecologicamente correto, ok, não fosse o fato de o percurso estar habitado por cerca de 160 animais de diferentes espécies, trazidos de vários cantos do Estado. Dentro do parque também funciona o Núcleo de Tratamento de Animais Silvestres (Nutras), cujo objetivo é recuperar os bichos resgatados e reintroduzi-los na natureza, o que ocorre com sucesso em 80% dos casos - desde o início do trabalho, em 1995, já foram recuperados mais de 3,5 mil bichinhos. Há, inclusive, um berçário para tratar dos filhotes.

E o que fazer com os 20% restantes? A resposta está nos 15 recintos adaptados para receber tudo quanto é tipo de bicho - o local abriga tamanduás, macacos, cágados, tartarugas, corujas, tucanos, papagaios, araras, gaviões... "Não é zoológico, hein! A proposta é bastante diferente disso", adverte Alves. Afinal, durante a visita, os turistas descobrem em que condições os animais que estão ali foram resgatados e por que não podem voltar à natureza.

A trilha termina na Lagoa da Conceição, onde está prevista a construção de um deque a partir do qual haverá passeios de barco para o público (ainda sem data definida). De acordo com Alves, até o início do ano que vem o local deve ganhar um museu sobre a fauna marinha da costa catarinense, famosa por receber a visita anual das baleias francas, entre julho e novembro.

Modelo inovador. Há cerca de 20 dias, o ministro do Turismo, Vinicius Lages, e o secretário nacional de Políticas de Turismo, Vinícius Lummertz, foram conhecer o projeto no Rio Vermelho - e se empolgaram com o que viram. "A iniciativa tem um comprometimento exemplar com o meio ambiente e mostra que é possível pôr em prática experiências de abordagem ao mesmo tempo turística, educativa e científica", disse Lummertz ao Estado. "Precisamos criar uma geração mais ligada à natureza e menos ao consumo."

Essa experiência, na visão de Lummertz, pode indicar o caminho para que leis sejam revistas, rediscutidas e deem origem a um novo modelo. "É preciso rever muitos pontos da legislação atual para que projetos como esse possam deslanchar", disse. "O Brasil é um país lento para fazer transições, muito conservador, e acaba perdendo muito tempo", criticou o secretário, em alusão aos entraves para o desenvolvimento de projetos turísticos em unidades de conservação, a exemplo do que ocorre nos Parques Nacionais e Estaduais.

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