Diego Zanchetta/AE
Diego Zanchetta/AE

Em Galápagos, a casa é dos animais

Não basta visitar - o contato com a natureza em estado selvagem pede disposição para aprender

Diego Zanchetta,

18 Outubro 2011 | 00h00

BALTRA - Galápagos parece outro planeta. E não são apenas os mergulhos ao lado de tubarões-martelo e as caminhadas em praias vulcânicas perdidas no meio do Pacífico que elevam a visita às ilhas, a 1.300 quilômetros da costa do Equador, ao status de algo maior que uma viagem de férias comum. Tudo por ali fascina e aguça o imaginário, da criança ao mais experimentado viajante: o cacto amarelo que brota no cume coberto de lava, as aves de patas azuis, o silêncio, as tartarugas pré-históricas, o brilho amarelado das estrelas durante a noite.

 

A vida explode no meio de um ambiente árido e opaco - e é isso o mais incrível do arquipélago. Mas, ao contrário do programa com controle remoto e pipoca na frente da televisão, não é hora de colocar o cérebro no copo d’água. Além de ver animais selvagens e se deslumbrar com formações rochosas milenares, você precisa aprender sobre eles. É a condição para estar no Parque Nacional de Galápagos, patrimônio tombado pela Unesco.

 

Pode parecer meio incômodo no começo o excesso de explicações e de regras passadas pelos guias. Mas você logo percebe a necessidade de entender um ambiente de praia tão diferente. O mar é azul-turquesa e as rochas carregam o negro de erupções vulcânicas ocorridas 300 anos antes do descobrimento do Brasil. A impressão que se tem, entretanto, é de que a lava do vulcão passou por lá na semana anterior, tão nítidas são as marcas nos bichos e nas plantas.

 

Os enormes lagartos têm pele preta, bem grossa. Eles estão por toda a parte, rastejando sobre um solo seco e com pedregulhos negros. Mas o mar em volta tem uma transparência azul quase infinita. Ao fundo, vulcões marrons que emergiram do fundo do oceano há 3 milhões de anos. São contrastes que deixam boquiaberto qualquer visitante. E se você já for um adepto das viagens com viés ecológico, aí a sensação será a de estar no mais idílico dos passeios.

 

Passeios únicos. Para chegar às ilhas mais distantes e com maior número de espécies é preciso alugar um barco. Ou fazer um cruzeiro em um dos iates autorizados pelo Parque Nacional. Todos os guias das embarcações são naturalistas com curso superior e falam inglês e espanhol - a opção pela língua fica por conta do grupo que sai para cada uma das trilhas, sempre formados por, no máximo, 15 integrantes.

 

As regras que você deve observar à risca durante cada uma das visitas não são poucas e, por vezes, surpreendem. É comum, por exemplo, um guia pedir para você lavar os pés antes de subir no bote que o levará de volta ao iate. "É para não levar a areia da praia embora, senão acaba", justifica com absoluta seriedade um dos naturalistas que acompanham o Iate La Pinta, a mais luxuosa embarcação que faz cruzeiros de sete dias pelo arquipélago.

 

 

As atividades programadas durante estes dias no mar chegam a lembrar expedições científicas dignas de roteiros fictícios de Hollywood. Por isso mesmo, a pontualidade exigida é militar - por meio de alto-falantes instalados nos quartos, o comandante do navio acorda todos os passageiros antes das 7 horas.

 

Uma hora depois começam as saídas dos primeiros botes com destino à ilha prevista para ser ser visitada no dia. Uma sequência de passeios únicos, cada um mais incrível que o outro.

 

De manhã, mergulho para conhecer as arraias gigantes do Pacífico. De brinde, pode ser que você tenha a chance de observar também um bando de golfinhos que parecem perdidos.

 

No intervalo, o almoço é servido no deque do iate, diante de um visual deslumbrante. Menos de duas horas depois, nova expedição, dessa vez uma trilha de 5 quilômetros para observar bem de perto aves como o albatroz e o piquero de patas azuis.

 

Uma das características mais marcantes em Galápagos é a tranquilidade dos animais. Nenhum deles demonstra ter medo dos visitantes. Até os pardais permanecem indiferentes à presença dos forasteiros pela redondeza. Durante um mergulho, uma turista norte-americana, espantada com a hospitalidade dos tubarões, recebeu a seguinte resposta do guia: "Aqui eles têm saborosos lobos-marinhos de sobra. Não vão querer você para o almoço".

 

 

Cenário

Dias de balanço e o ‘mal da cabeça de algodão’

 

Não basta ser aventureiro e estar em forma para desfrutar o mundo selvagem de Galápagos e, depois de sete dias dentro de um barco, ainda reunir fôlego para percorrer trilhas de vulcões na altitude de 2.800 metros de Quito. A transição do Oceano Pacífico para a Cordilheira dos Andes traz complicações, como a sensação que os equatorianos definem bem como o "mal da cabeça de algodão".

 

Barcos grandes são proibidos em Galápagos. Você fica hospedado em iates com no máximo 40 cabines. Navega noites e noites em um mar revolto - eu até caí da cama com o balanço.

 

Logo que embarquei no La Pinta, cheguei a acreditar que teria de desistir da viagem. No começo, a sensação de enjoo beira o insuportável. Nos dias seguintes ela também volta a aparecer, em doses menos cavalares. Tanto que, logo na entrada do iate, são oferecidas pastilhas, uma versão do Dramin um pouco mais fraca. Tomava duas todos os dias.

 

E quando você começa a entrar em sintonia com o balanço do agitado Pacífico, é hora de voltar à terra firme. Mas quem disse que é firme? Você sai do barco, mas o balanço do barco não sai do corpo. E, a ele, somam-se tonturas e a falta de ar provocada pela altitude.

 

A sequência de voos pelos Andes (são seis em toda a viagem) também contribui para deixar o turista literalmente fora de órbita. Na volta ao Brasil, fiquei três dias com labirintite. Deitava na cama e tudo continuava se mexendo. Nada que afete, no entanto, minha vontade de voltar a Galápagos para encontrar o tubarão-baleia que faltou em nossos mergulhos.

 

 

O que levar

 

Para vestir

Roupas leves (bermuda, camiseta, trajes de banho e chinelos), nada muito novo

Proteção

Filtro solar, protetor labial, boné ou chapéu e óculos de sol, para todas as horas

Nos passeios

Remédio contra enjoos. Ao menos três pares de tênis - o calçado fica inutilizável após caminhada pelos vulcões. Mochila para trilha

Documentos

Passaporte (o RG não é aceito) e carteira de vacinação internacional com atestado da vacina contra febre amarela, que deve ser tomada, dez dias antes do embarque

 

O que trazer

 

Típico

O chapéu panamenho tem nome do país vizinho, mas os originais, de palha, são fabricados no Equador. E duram pelo menos dez anos, dizem os lojistas

Artesanato

Peças de cerâmica preservam a cultura inca que resiste no país

Conforto

Meias de lã de carneiro. São as mais confortáveis que você já usou na vida

Lembranças

Fotos, muitas fotos. Especialmente a do piquero de patas azuis, para provar que você realmente viu animais que só existem lá

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