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Em Nuremberg, cervejarias conectam passado e presente

"Isso será fácil de ver", disse Annelise, nossa guia, apagando as luzes na fria adega de cerveja com paredes de arenito que fora convertida em abrigo antiaéreo durante a 2.ª Guerra Mundial. Uma pequena placa na parede brilhou com a fosforescência da cal: ela indicava a saída de emergência para os 50 mil civis que haviam se refugiado - dois por metro quadrado - nesse misto de adega e bunker durante os bombardeios dos Aliados.

Russ Juskalian / Nuremberg - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2013 | 02h08

A placa era um lembrete pequeno, mas pungente, de como centenas de anos de fabricação de cerveja em Nuremberg - uma cidade que foi 90% destruída durante o conflito - conectavam passado e presente.

A pouco mais de uma hora de trem de Munique, Nuremberg tem uma população de 510 mil pessoas e é a segunda cidade da Baviera - embora seja desprezada. Os moradores locais dizem, é claro, que a Baviera tem pouco a ver com o lugar; a lealdade maior é com o distrito administrativo menor da Francônia Central, que tem seu dialeto, história e culinária próprios. Para não mencionar a cerveja.

Muitos visitantes só pensam em Nuremberg associando a cidade ao seu significado na 2.ª Guerra Mundial. Foi ali que Hitler discursou em comícios imensos ao longo dos anos 1930 e onde foram instaurados os tribunais militares que julgaram os nazistas depois do encerramento dos combates.

Mas a cidade tem muito mais a oferecer do que uma história sombria: há um magnífico castelo da era do Sacro Império Romano; uma rica tradição cervejeira; talvez o melhor biscoito de gengibre do mundo; e, em dezembro, o mais célebre mercado de Natal da Alemanha.

Um bom lugar para começar é subterrâneo. Há mais de 700 anos, as cervejarias locais precisaram manter adegas extensas para preparar as lagers de fermentação lenta em baixa temperatura, preferidas na região, e aquelas caves abarcam hoje mais de 2,5 hectares serpenteando por baixo de boa parte do centro da cidade velha.

Foi assim que o hábito de beber começou a prosperar em Nuremberg. Até os anos 1600, "todos bebiam cerveja, até criancinhas", nos contou Annelise durante o tour de uma hora.

Com a adoção da refrigeração, no fim do século 19, as cervejarias já não precisavam das adegas frescas de arenito, que foram assumidas pela indústria de conservas. Aí veio a 2.ª Guerra, e as adegas, algumas a até 24 metros de profundidade, foram interligadas por túneis estreitos a uma rede de esconderijos com sistemas de ventilação, rotas de fuga ocultas e entradas fortificadas. Objetos de arte e as janelas com vitrais de igrejas vizinhas também sobreviveram nesses bunkers improvisados.

Legado. Nuremberg abriga a esplanada de comícios do Terceiro Reich, projetada por Albert Speer, para onde centenas de milhares de nazistas acorriam para ouvir Hitler discursar. O local fica a uma curta viagem de ônibus do centro da cidade e permite ver lembretes poderosos de um tempo terrível: as ruínas do Zeppelinfeld, um espaço aberto com arquibancadas, e o Kongresshalle, o Congresso nazista estilo Coliseu.

Hoje, o Kongresshalle está em péssimo estado de conservação, exceto pelos edifícios frontais que abrigam a Sinfônica de Nuremberg e o Centro de Documentação do Partido Nazista, um museu onde está exposta toda a propaganda que facilitou a ascensão de Hitler.

Quando visitei o local, foi inquietante caminhar pelos espaços quase vazios. Mas as linhas do museu, em vidro e metal, estabelecem um contraponto absoluto à arquitetura de blocos do Terceiro Reich. Mesmo assim, fiquei contente de sair dali para experiências mais amenas.

Após o tour, fui direto para a Hausbrauerei Altstadthof, para provar comidas e bebidas em um bar clássico, incluindo algumas variedades da cerveja vermelha maltada que era sinônimo de Nuremberg - e hoje não se encontra em nenhum outro lugar. Também vale pedir um uísque puro malte ou um bierbrand (um destilado de cerveja) envelhecido nas adegas que você acabou de visitar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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