Em Paris, com estilo

Eu passava sem pressa pelas mercearias asiáticas e açougues halal do bairro de Belleville, em Paris, quando uma monumental obra de arte urbana na lateral de um edifício surgiu à frente. "Il faut se mefier des mots" ("É preciso desconfiar das palavras"), dizia o letreiro. Sem dúvida, pensei, encarando aquilo como advertência. Meu destino, um albergue inaugurado um ano antes, alguns metros adiante naquele mesmo quarteirão, tinha um nome particularmente arrogante: Loft.

O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h12

Enquanto saía à procura do meu quarto por um corredor de paredes revestidas com estampa de couro de vaca de gosto duvidoso, corri os olhos pelo efusivo folheto de apresentação do lugar: "o novo e extraordinário albergue de luxo Loft é a referência para os melhores albergues de alta classe de Paris".

Meu quartinho coletivo (diária de 29,90 ou R$ 84; theloft-paris.com) tinha o estilo clean e sofisticado de um apê de jovem solteiro: assoalho de taco escuro, cadeiras pretas de plástico trançado, papel de parede criando a ilusão de um revestimento almofadado. Uma porta de cor fúcsia dava para um banheiro todo em preto e branco. Só

uma coisa destoava e cortava o clima: em vez de uma cama, dois beliches.

O apê de solteiro recebeu os solteiros que faltavam com a chegada de três universitários australianos, meus barulhentos companheiros de quarto: Simon, atarracado e boa gente; Dushan, magro, forte e sarcástico; e Kai, um cara meio reservado, com traços asiáticos e um par de headphones na cabeça. De repente, eu, aos 43 anos, me sentia de volta aos tempos da faculdade. Não demorou para que os três começassem a contar histórias escabrosas sobre os albergues em que já haviam se hospedado.

Mais tarde, no café do lobby, em estilo industrial dos anos 1920, jovens hóspedes curtiam o fim de tarde bebendo cerveja e conversando em vários idiomas, tentando se fazer ouvir apesar do speed metal da trilha sonora. Atravessei a rua em busca de um prato de comida tailandesa no Krung Thep, e, à meia-noite, subia no meu beliche. O travesseiro tinha uma cor amarelada e no cobertor havia uma profusão de fios de cabelo preto.

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