Vitor Fontes/Estadão
Vitor Fontes/Estadão

Em vez do check-up, faça um check-in

‘Quem procura, acha. E você se tornará um eterno refém do fato de existir e ter vida’

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2018 | 15h15

Nosso correspondente britânico diz que está bronzeado como um marinheiro siciliano e feliz como um monge tibetano depois de semanas no Mar Mediterrâneo. De lá, ele envia a correspondência da semana.

Mr. Miles, com certeza alguém já lhe perguntou, mas não me recordo de ter lido a respeito. Qual é o segredo de sua imensa longevidade? Leonardo Sugihara, por e-mail

Well, my friend, sua pergunta é ótima, embora eu não me sinta tão velho quanto ela faz supor. Tenho uma saúde de ferro. Não me canso, não me deprimo, não tenho dores, pouco me resfrio. Sou, desde os anos 30 do século passado, portador de uma malária que adquiri no Congo e que, raramente, apresenta recidivas. A enfermidade é tão longínqua que sequer me lembro dela, a não ser quando questionado como agora. Também tenho um pequeno problema no joelho. Trata-se de uma dor suportável que, fortunately, só costuma aparecer quando caminho mais de 50 quilômetros – e só acima dos 4 mil metros de altitude.

In fact, my friend, não vou a um médico desde os anos 60, quando minha falecida tia Harriet obrigou-me a fazer uma avaliação, usando da mais baixa chantagem (que era obrigar-me, sempre, a comer sua péssima kidney pie). Nada foi constatado, of course.

Por motivos óbvios, costumo relacionar minha boa saúde ao fato de viver viajando pelo mundo, recebendo novas energias e renovando minhas emoções. Sequer o fato de provar pratos muito exóticos e beber com frequência e fartura compromete qualquer de minhas atividades, articulações, órgãos ou glândulas. Tudo em mim continua funcionando perfeitamente bem – exceto, sometimes, minha crença na inteligência e nas boas intenções de meus semelhantes.

Meu velho amigo Joseph Milani – um dos mais entusiasmados hipocondríacos que jamais conheci – passa parte substancial de sua vida nas salas de espera de consultórios e laboratórios diversos. O resultado é que está sempre doente; gasta seu dinheiro com remédios e tratamentos, jamais está seguro de nada e teme viajar para, my God, não ter contato com vírus de outras nacionalidades. Can you believe me

Sempre que o vejo, sugiro que esqueça do corpo e da alma, porque somos e seremos sempre finitos – e não há melhor motivo para viver intensamente. Milani, however, já chegou a me dizer que fica preocupado até quando não está sentindo qualquer sintoma. “Acho que não sentir nada deve ser motivo de muita cautela, Miles”, disse-me ele certa vez.

Sou da opinião de que quem procura, acha. E não há como não achar nada com a tecnologia de exames cada dia mais sofisticada, com uma multidão de médicos ( forgive me, docs!) que vivem das fraquezas de seus pacientes e laboratórios que prosperam com a venda de seus medicamentos, cada vez mais abrangentes e com mais efeitos colaterais. “Meu Deus, você tem uma Síndrome Trimethylaminuria (cheira a peixe!)”, anuncia o doutor com ar sério. Ou ameaça com qualquer outra doença mais conhecida (dessas que, no Google, antecipam sua morte em várias décadas e pronto). 

Sua existência, therefore, ganha limites; seus prazeres são sempre inadequados; seus hábitos têm de mudar radicalmente. In other words: sua vida vai virar de cabeça para baixo, você vai levar anos para adaptar-se a uma nova dieta insípida (e pode até ter prazer com isso) e será um eterno refém do fato de existir e ter vida.

That’s awful, my friends

Com a humilde experiência de ter uma idade deveras provecta, uma atividade intensa, diversas paixões recorrentes e grande ânsia de conhecer, recomendo aos prezados leitores que troquem, com urgência, qualquer tipo de check-up por qualquer tipo de check-in. Quem faz check-up, I can assure, diminui muito suas chances de ir ao check-in. E quem faz check-in sequer costuma precisar do check-up. Don’t you agree?

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