Thiago Lasco/Estadão
Thiago Lasco/Estadão

Embarcamos no primeiro voo com sistema de reconhecimento facial. Veja como é

Fomos conhecer o projeto que a Gol começou a testar hoje no Galeão (RJ). Ele promete deixar o embarque mais rápido, mas não dispensa o passageiro de apresentar documento

Thiago Lasco, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 15h36

O “Viagem” embarcou hoje cedo para o Rio de Janeiro para conhecer em primeira mão uma nova tecnologia que a Gol está começando a testar. É um sistema de biometria facial que “lê” o rosto dos passageiros. Com isso, eles podem entrar no avião sem o cartão de embarque. E a operação de embarque fica um pouquinho mais rápida para todo mundo.

Bem, pelo menos essa é a intenção da Gol. Mas o sistema ainda está em testes, sujeito a falhas e só vai ser implementado de vez se os resultados forem dentro do que a companhia espera.

Eu, por exemplo, não dei muita sorte. Fiz o cadastro do meu rosto conforme as instruções da funcionária e, na hora de entrar, o sistema não me reconheceu. Depois de quatro tentativas frustradas, tive que usar o cartão de embarque mesmo.

Por que ter um sistema de biometria facial

O recurso serve para a empresa conferir com mais rapidez se quem está embarcando é mesmo a pessoa certa. Com a novidade, o cliente não precisa mais ter em mãos o cartão de embarque em papel (ou na tela do smartphone) para entrar no avião.

Basta ele parar em frente a um totem que vai fazer a leitura do rosto dele e comparar esses dados com os que ele cadastrou na primeira vez que usou o sistema.

Esse primeiro cadastro o passageiro faz no próprio portão de embarque, em um tablet que é oferecido pelos funcionários da Gol. O procedimento é feito em separado, ou seja, não é uma providência que atravanca o andamento da fila, causa transtorno aos demais passageiros ou atrasa o embarque de todos.

Oba, então agora não preciso mais de documento para viajar, é isso?

Não, não é bem assim. Todos os passageiros, mesmo os que tiverem passado a usar o sistema de biometria facial, continuam sendo obrigados a portar e mostrar um documento de identidade. Essa é uma exigência da própria Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Mesmo que o check in tenha sido feito em casa ou pelo celular, o documento vai continuar sendo solicitado no acesso à área de embarque do aeroporto e também no portão. Nada disso vai mudar.

O que muda é que a conferência dos dados da viagem e do passageiro, que era feita pelo funcionário com o cartão de embarque, torna-se alguns segundos mais rápida, já que as informações do voo já estarão associadas ao perfil daquele cliente. Essa é a vantagem da novidade.

E como fica a privacidade dos passageiros?

Essa é uma preocupação comum com os recursos de biometria facial. Afinal, em tese, se uma empresa tem um sistema que armazena imagens dos rostos dos clientes, ela pode fazer algumas coisas não tão bacanas assim. Como repassar esse material a outras empresas, o que comprometeria a privacidade dos passageiros. Ou ainda, olhando a “cara” dos passageiros, dar a alguns deles tratamento diferente do dispensado aos demais.

Na tecnologia que está sendo testada pela Gol, porém, o rosto de cada passageiro não fica armazenado nos registros da companhia. Quando o cliente tem o rosto escaneado durante o cadastro, o sistema lê 1.024 pontos no rosto dele e gera um código a partir desses pontos.

No ato do embarque, quando o passageiro se posiciona em frente ao totem, é feito um segundo reconhecimento biométrico e o código nele gerado é comparado com o que foi cadastrado previamente. Deu match? Oba! Entrada liberada (assim que ele mostrar o documento ao funcionário, vale lembrar).

Por enquanto, é só em um único portão de um único aeroporto

Por enquanto, o projeto piloto está sendo executado em um único portão, o 34, da ala de voos domésticos do Aeroporto do Galeão/Tom Jobim, no Rio de Janeiro. Nos vôos a que o aeroporto atribuir esse portão, os passageiros estão sendo convidados a fazer o cadastro da biometria facial. Quem não quiser experimentar continua embarcando com os procedimentos de sempre.

O sistema tem suas imperfeições. No momento do cadastro, o próprio passageiro tem que segurar o tablet para a captação da imagem. Alguns tremem a mão ou não acertam a altura correta, o que retarda o processo.

Este repórter cadastrou a imagem com sucesso (o que foi confirmado por um anel verde na tela), mas na hora do embarque o totem não reconheceu a biometria. Uma, duas, três, quatro tentativas. Venceu o bom e velho cartão de embarque, que estava no bolso torcendo para não ser usado.

Pelo que eu e outros presentes testemunhamos, o reconhecimento tinha mais chances de dar certo de primeira em pessoas de estatura média. As demais precisavam dar um passinho para a frente ou para trás da marcação que estava no chão.

A fase de testes deve durar alguns meses, a depender dos resultados. Se for considerado bem sucedido, o sistema será expandido para outros aeroportos, inicialmente em vôos domésticos. O diretor de TI da Gol, Paulo Palaia, admitiu que existe sim a possibilidade de o sistema não vingar. Mas é claro que ninguém da Gol está contando com isso.

Sistema é novidade no Brasil, mas não em outros lugares

A Gol está sendo a primeira companhia aérea a usar o sistema de biometria facial no País. A Latam já usa o sistema desde o fim do ano passado no aeroporto de Montevidéu, no Uruguai. Ali, porém, o passageiro não precisa exibir nenhum documento no embarque (mas ainda tem que mostrar o passaporte no posto de imigração).

Nos Estados Unidos, a biometria facial é usada nos procedimentos de imigração desde 2016. Todos os visitantes que entram naquele país têm seus rostos analisados e os dados são cruzados com os de vários sistemas de segurança - que incluem listas de suspeitos de terrorismo, por exemplo.

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