Todd Heisler/The new York Times
Grupo de Conga ensaia para o carnaval nas ruas de Santiago de Cuba Todd Heisler/The new York Times

Embarque em uma viagem musical pelos ritmos de Cuba

Um giro de doze dias por várias regiões da ilha revela uma riqueza de novos gêneros formados pelo cruzamento de influências africanas com referências pescadas na internet

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 09h00

Alguns destinos podem ser visitados exclusivamente por causa da música. No Brasil, o Rio de Janeiro é “o” lugar para quem quer conhecer o samba. Salvador, por sua vez, é a terra do axé e outros ritmos africanos. Da mesma maneira, nos Estados Unidos, a cidade de New Orleans, na Louisiana, atrai milhares de fãs de jazz todos os anos, enquanto Memphis (Tennessee) é parada obrigatória para devotos do blues, do soul e do rock.

Cuba também está mergulhada em música. Os sons dos instrumentos vêm de todos os lugares, emanando de bares, das casas ou de cerimônias religiosas. Para muitas pessoas que visitam a ilha, a música cubana é definida pelos sons tradicionais do Buena Vista Social Club ou Celia Cruz. Mas a música cubana extrapola esses sons: suas raízes são africanas, haitianas, francesas e espanholas. Os gêneros se juntam e se separam, formando infinitamente novas formas e sons.

Num esforço para compreender melhor Cuba através da sua música, eu e o fotógrafo Todd Heisler viajamos de Havana até Santiago de Cuba, a sudeste do país. Durante 12 dias, passando por buracos e cidades de praia, rodando por colinas verdes, partimos em busca das raízes musicais de Cuba. Aguardamos o início de shows à meia-noite debaixo de chuva, fomos a praças centrais para ouvir orquestras locais e tentamos não ranger o assoalho durante sessões de gravação fechadas.

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Com tempo suficiente conseguimos incluir a salsa, o son cubano, o hip-hop e outros gêneros e paramos em outros locais famosos pela música, como Pinar del Río e o Baracoa.

Aprendemos a tocar instrumentos estranhos e tentamos compreender as letras das músicas que falam de sanções econômicas até santería. E acabamos parando num local caindo aos pedaços e úmido no centro da ilha para ouvir uma cantora e sua guitarra. Sob o sol abrasador dançamos ao som de uma parada de rua liderada por crianças descalças.

Não foi uma viagem fácil. As coisas com frequência não foram simples em Cuba: os táxis deixam você atordoado com seus escapamentos abertos; as acomodações que anunciam Wi-Fi e ar-condicionado com frequência não têm; as prateleiras dos supermercados estão quase vazias; e o calor do verão cubano, quando estivemos lá, não deve ser subestimado. Mas a ilha tem uma cura perfeita e onipresente para qualquer problema de um viajante: música ao vivo, autêntica e irresistível.

Momento mágico em Gibara

“O show começa às 10”, disse-nos Carlos na noite em que chegamos a Gibara, uma remota cidade de praia a nordeste de Cuba. No meu relógio, eram 2h11 da manhã quando finalmente a banda que estávamos aguardando subiu ao palco. Em questão de segundos, nos vimos envolvidos pelo som de bongôs, reco-recos, chocalhos, trompetes, saxofones e o falsete do cantor chamado Cimafunk.

Os nove músicos da banda não só estavam tocando naquela noite, mas também comemorando o aniversário de Cimafunk, cujo nome real é Erik Iglesias Rodríguez, com seu cabelo com corte militar, uma atitude tipo Bruno Mars e uma camisa com estampa de leopardo, saia havaiana aberta que balançava como a brisa, e era o centro das atenções. Fascinada, a multidão de centenas de pessoas dançou até a madrugada com os braços levantados no ar. Elas conheciam a maior parte das letras das músicas.

Foi um momento mágico. Mas difícil de classificar. A banda de Cimafunk faz algo parecido com uma mistura de jazz e funk, e é esse o desafio da música cubana. Ela costuma ser descrita como uma árvore com várias raízes primárias e muitas ramificações. Dividir a música da ilha em gêneros distintos, no entanto, é uma tarefa fracassada por natureza. Ela se entrelaça e se cruza. E ficou ainda mais complexa nos últimos anos: os estilos mudam a uma velocidade cada vez maior, à medida que os cubanos mergulham em todas as possibilidades oferecidas pela internet.

Por toda a ilha, encontramos músicos usando sons tradicionais e lhes dando nova forma, encontrando novas maneiras de chegar ao público. A música cubana está em modo turbo. “Desejo-lhe sorte em tentar descrever a música cubana com palavras”, disse-me um morador na noite em que fomos a Gibara, depois de uma parada para comer um sanduíche de carne de porco. “A maneira de conhecer a música cubana é ouvi-la por você mesmo.” /TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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Rumba: conexão com os orixás

Cidade portuária a 1h30 de Havana é berço do gênero musical, que tem forte influência africana e percussão vigorosa

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

Matanzas fica a 1h30 de Havana, capital cubana, no sentido leste – um porto cercado por um rio ladeado por palmeiras. Os pescadores ali andavam de bicicleta pelas ruas estreitas, com suas varas de pesca, e buggies puxados a cavalo circulavam pela região. Musicalmente, a cidade é conhecida pela rumba, estilo com forte influência africana. 

Durante os séculos 18 e 19, Matanzas foi centro do comércio de escravos vindos da África Ocidental para trabalhar nas plantações de cana de açúcar. Nos portos da cidade, eles encontraram maneiras de continuar com suas práticas religiosas em segredo.

“Eles tocavam com qualquer coisa que tinham à disposição”, disse o músico Diosdado Enier Ramos Aldazábal, 36, o Figurín. “Eles usavam garfos, garrafas de rum, caixas, e tocavam”, disse. “Não sei se a rumba é africana ou cubana, apenas sei que ela vem de dentro de nós.” 

Figurín  fala com propriedade: ele faz parte da banda de rumba mais importante de Matanzas, a Los Muñequitos. Mais que uma banda, Los Muñequitos são uma família: muitos dos membros são parentes e o grupo hoje está na sua terceira geração. O grupo foi formado na década de 1950 com oito membros e hoje são 18. Para a maior parte dos músicos a rumba não é sua principal ocupação, mas é sua paixão.

Essa paixão transparece no uso da clave, instrumento que, para um estrangeiro, parece dois paus de madeira com a largura e comprimento de uma cenoura. Mas, nas mãos de músicos como Los Muñequitos, se torna uma linha direta da África para Cuba e surge quando o maestro estabelece o ritmo e a tonalidade de todos os outros instrumentos, como a maraca e o tambor iorubá chamado “batá drum”. Outros elementos de percussão são comumente adicionados e a música se transforma numa multidão de sons, uma cascata de compassos.

Como a rumba é polirrítmica, com muitos ritmos acontecendo ao mesmo tempo, para um estranho é um som cacofônico e desorganizado. Mas se a sua mente não tentar procurar o ritmo terá uma chance melhor de encontrá-lo.

A percussão da rumba chega ao auge pela música, que é uma chamada e resposta. Para alguns músicos e pessoas que estão ouvindo, é uma experiência religiosa. O público é também formado por praticantes da religião afro-cubana santería, que tem muitas semelhanças com o candomblé praticado no Brasil

As letras das músicas de rumba clamam para os orixás e a vida dos fiéis. “As letras falam de felicidade”, explicou Figurín. O pai do músico, Ramos Cruz, de 73 anos, também é integrante do Los Muñequitos e concorda com o filho. “Esta é uma maneira de, mesmo sem dinheiro, você ser feliz. Tem a ver com superação”, afirma.

Tradições iorubás unem Brasil e Cuba

Tanto no Brasil quanto em Cuba, religiões de matrizes africanas têm bastante importância – e são muito parecidas. Isso porque muitos dos escravos levados aos dois países foram capturados na África Ocidental e pertenciam à nação iorubá (uma região onde hoje se encontram países como Nigéria, Benim e Camarões).

No Brasil, o culto aos orixás, os deuses que controlam forças elementais como o vento, a água e a terra, ficou conhecido como candomblé. Em Cuba, virou santería. O uso de tambores e música em seus rituais é um ponto em comum entre as duas tradições e levou à criação de ritmos como o samba e a rumba.

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Cimafunk: reinvenção moderna da música cubana

Cria do coletivo musical Interactivo, o músico viu sua banda estourar em Havana e ganhar vários prêmios com o álbum de estreia, que começa a ganhar o mundo via streaming

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

O show do Interactivo, nas noites de quarta-feira, em Havana, é obrigatório para conhecer os muitos sons de Cuba. O Interactivo é uma banda, mas também um coletivo exclusivamente cubano de artistas se dedicando aos seus próprios projetos. A adesão teve seus altos e baixos durante duas décadas. Cimafunk é um dos seus alunos. O teto baixo e o palco redondo onde o grupo se reúne regularmente, o Centro Cultural Bertold Brecht, é tão pequeno que você pode chegar a tocar os bongôs se não estiver dançando.

Na noite em que estivemos lá o local estava repleto com uma multidão jovem cheia de energia, os casais se beijavam e balançavam ao som da música, enquanto os turistas dançavam na fila da frente. Os fumantes se reuniam no foyer e a fumaça pairava sobre a multidão.

O Interactivo é um grupo de 12 pessoas, às vezes mais, às vezes menos. Seus membros são jovens e velhos, brancos e pretos, homens e mulheres. O som que fazem desafia qualquer gênero de música particular, mas um rótulo fácil poderia ser “jazz fusion cubano”, com congas, cornetas, bateria e teclado. A história de Cimafunk é típica dos músicos que chegaram a Havana para tentar e vencer. Ele cresceu numa cidade no oeste da ilha, cantava na igreja e tinha intenção de se formar médico.

Depois que se mudou para Havana em 2011 ele rapidamente adotou o estilo de vida de um artista lutando para ter sucesso, lavando carros durante o dia e dormindo na casa de amigos. “Às vezes tocava no parque das 8h da noite até as 6h da manhã e, depois, dormia no Malecón”, disse. Em 2014, finalmente conseguiu um espaço no Interactivo e passou a cantar com o grupo até formar sua banda, também chamada Cimafunk.

A resposta do público foi quase imediata. O álbum Terapia, de 2017, com músicas como Ponte Pa’ Lo Tuyo e Me Voy, recebeu prêmios. Ned Sublette, músico e estudioso de música cubana que comanda turnês musicais pela ilha, diz que Cimafunk “foi o sucesso do ano em Havana com a música Me Voy. É uma música irresistível.”

A banda alcançou um público global por meio do streaming. Assinou contrato com uma gravadora de Miami e a Billboard citou Cimafunk como um dos “10 artistas latinos a serem observados em 2019”. Críticos de música o comparam a James Brown. Mas bebendo um mojito, sentado numa varanda uma noite após o jantar, ele parecia estar vivendo num tempo antes de um artista se tornar celebridade. Deu de ombros quando lhe perguntei sobre seu sucesso vertiginoso. “Acho que sou um sujeito de sorte”, respondeu.

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Conga: o som que embala o carnaval de Santiago de Cuba

Para se preparar para o evento, que ocorre no mês de julho, grupos fantasiados fazem ensaios com percussão pelas ruas durante o ano inteiro

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

De Santa Clara até Santiago de Cuba foi uma viagem de 11h30 de carro. Na estrada deparamos com vacas e buracos e a viagem atrasou por causa dos buggies puxados a cavalo. Dormi no banco de trás, enquanto Todd procurava manter sua câmera parada, mas todas as vezes alguma coisa surgia que ele a erguia de novo: duas senhoras caminhando lado a lado pela estrada; um homem com um galo de briga embaixo do braço próximo ao seu Ford verde fluorescente.

Chegar a Santiago foi como chegar a um outro país. Os brilhantes carros clássicos competiam com milhares de motos que subiam e desciam em alta velocidades as ladeiras da cidade, deixando plumas azuis saindo dos escapamentos. Santiago é conhecida como o lugar de origem do rum Bacardí. Não à toa, é uma cidade festeira – e também tem Carnaval. 

Enquanto o Carnaval no Brasil e em Nova Orleans se realiza em fevereiro ou março, em Santiago ele ocorre no final de julho. Grupos de conga ensaiam o ano todo para o Carnaval, em grandes grupos chamados comparsas, que incluem dançarinos fantasiados. Os grupos representam bairros específicos e o mais famoso hoje, em Santiago, é o Conga Los Hoyos. Pretendíamos ir a um ensaio deles no dia em que chegamos, mas nesse dia não havia energia elétrica, o salão estava às escuras e quente, e o ensaio havia sido adiado.

Desanimados, decidimos ir embora, mas ouvimos o som de tambores à distância. Partimos acelerados enfrentando o trânsito e as motocicletas e tivemos uma agradável surpresa: um grupo de Conga estava ensaiando na rua. E melhor, era formado por crianças. Por sorte, o grupo era o Conga Los Hoyos Infantil, uma banda de nove e dez anos de idade com chaves de pneu e marcando o ritmo nos tambores com a palma da mão. Algumas meninas ensaiavam uma dança coreografada e outras marcavam o ritmo com os sapatos. Os vizinhos nas janelas das casas gritavam e quando o grupo passou por uma rua movimentada o trânsito parou. A banda fazia seus ajustes de último minuto para seu maior evento do ano: o Carnaval infantil.

O som da conga é predominantemente percussivo. Tambores de todos os tipos ali estão reunidos. (“Você pega qualquer coisa e começa a tocar”, alguém me disse), mas há sempre um quinto tambor mais alto no meio. O estrondo ensurdecedor da conga é feito pela batida com baquetas de metal em freios de motocicletas com formato de uma rosquinha.

E há o instrumento mais idiossincrático da conga de Santiago: a corneta chinesa. Fernando Dewar Webster, líder da mais famosa banda de Santiago, El Septeto Santiaguero, disse-me que o instrumento foi adicionado por acaso à Conga. “Uma conga começou a usá-lo durante o Carnaval e, no ano seguinte, outras também o incorporaram.” O instrumento é tocado por uma pessoa que vem atrás da banda e as pessoas a acompanham, balançam os braços no ar, fecham os olhos e dançam.

No dia seguinte, pouco depois do anoitecer, as ruas em torno do porto de Santiago estavam lotadas de grupos de crianças fantasiadas – algumas com roupas azuis, outras vestidas de pescadores. Ambulantes armavam sua barraca ao longo da rua, vendendo algodão doce e sanduíches de carne de porco tirada de um porco que foi trazido por mototáxi, enquanto as bandas se preparavam para o desfile pelo centro, onde grades de proteção foram colocadas dos dois lados das ruas.

A história racial, a dinâmica do poder e o simbolismo político das Congas de Santiago são explorados eternamente por acadêmicos, muitos deles interpretando a conga como uma revolta contra o poder. Mas para as bandas naquela noite ela tinha a ver com alegria.

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Trova: nostalgia, violão e poesia

Gênero é expressão da tradição cancioneira do país e canta a tristeza e o sofrimento em músicas que falam de amor e das agruras dos nativos que deixaram a ilha

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

Quando Yaíma Orozco subiu no palco, no salão central do El Mejunje, em Santa Clara,  umas 20 pessoas numa arquibancada fumavam tanto que a fumaça se transformou numa capa de nuvem. Atrás de Orozco, o baterista e o baixista se acomodaram, mas todos os olhos estavam concentrados nela e seu vestido vermelho brilhante.

Se a rumba tem a ver com superação dos tempos difíceis, a trova explora a tristeza e o sofrimento. A trova é também a mais pura forma da tradição cancioneira cubana. É uma música despojada, intensamente passional e nostálgica, que se torna comovente com harmonias que poderiam ser descritas como um cruzamento do fado português e os lados-B de músicas de Lennon e McCartney.

Sobre o som tirado das cordas do violão e o alvoroço da plateia no saguão, ela levanta o queixo e canta: “Eu quero estar à sombra de uma amendoeira em flor, na água da sua cachoeira”, ela canta antes de mergulhar num solo de guitarra.

Por toda Cuba, muitos músicos profissionais são homens e isso vale também para a trova. Orozco, 38 anos, é uma exceção. Ela descreveu sua entrada no campo como quase involuntária. “Fui atingida por um tiro no coração quando ouvi este tipo de música”, disse ela. Para ela a trova é uma “narrativa” que pode ser pessoal ou pontual: as músicas falam de amor da vida e também do drama de cubanos que deixam a ilha. Embora as músicas se baseiem em ritmos como o cha cha cha ou a bossa nova, no final “têm a ver sempre com uma pessoa, uma guitarra e uma história”, disse ela. E há uma estreita relação entre a trova e a poesia, com letras densas e jogos de palavras muito similares aos versos de Bob Dylan ou Leonard Cohen.

Orozco faz parte de um coletivo chamado La Trovontivitis (descrito às vezes na imprensa como movimento) que serve de vitrine e workshop dos melhores artistas de trova do país, incluindo trovadores como Roly Berrio e Migue de la Rosa, que passam a maior parte do tempo longe de Santa Clara, mas quanto retornam se apresentam às quintas-feiras no El Menjunje.

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Changüí: gênero diferentão que vem do leste

Gênero musical típico do leste de Cuba é predecessor distante da salsa e tem sua espinha dorsal nos graves da marímbula

Shannon Sims, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 08h50

Ao contrário de outros gêneros de música cubana, o changüí se destaca por si mesmo, tanto do ponto de vista estilístico como geográfico. “Você só ouve o changüí no leste do país”, disse Ned Sublette. De maneira que nos aventuramos a passar por pastos secos de gado do centro de Cuba para chegar ao calor tropical e montanhoso do sudeste e acabar num minúsculo estúdio de gravação.

O som é fundamentalmente diferente e não usa o padrão de ritmo chave que marca outros gêneros de música cubana. Portanto, ele soa “não cubano” para quem ouve. “Sinceramente, muitas pessoas não gostam de como o changüí soa, não conseguem captar”, disse-me Benjamin Lapidus, que escreveu o primeiro livro sobre o gênero. O gênero é considerado predecessor do son montuno que é também considerado predecessor da salsa. “O changüí é para Cuba o que o blues é para a música americana”, disse ele.

Entre os instrumentos do estilo estão o tres (parecido com uma guitarra), os tambores da conga e um tipo de reco-reco parecido com um ralador de queijo – soavam como pingos de chuva em diferentes tonalidades e velocidades, mas no final num crescendo se transformou numa tempestade.

O instrumento que torna o changüí único, porém, é a marímbula. Ela parece uma caixa grande. Na frente há uma fileira de lâminas de metal sobre buracos cavados na madeira. O músico encaixa e coloca as pernas de modo a percurtir as lâminas de metal, cuja vibração acontece dentro da caixa e sai pelos buracos com uma nota de um grave profundo. A marímbula fornece a linha de baixo e atua como um som de base, mas um som também efêmero e distante, conferindo ao changüí uma atmosfera onírica. 

No curso da nossa viagem pela ilha, nossa compreensão da música cubana se aprofundou, incluindo instrumentos e gêneros sobre os quais nunca tínhamos ouvido. E me fez pensar nos shows de fins de noite e festas nas ruas que perdemos, todos os sons que ainda desconhecemos nessa ilha que explode de sonoridade. Uma frase de Cimafunk veio à minha mente quando meu avião decolou: “Quanto mais você procura sempre terá uma compreensão maior da música cubana.”

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