Endereços familiares renovam gastronomia

Era uma agradável noite de janeiro no Vedado, bairro artístico de Havana. Os degraus do Le Chansonnier, seus lustres que brilhavam através das janelas de ferro fundido e a música, cada vez mais próxima, convidavam a entrar. As banquetas simples da sala se espalhavam entre os elegantes arcos elevados e o teto moldado. Lá dentro, bebemos mojitos à espera do prato principal, que incluía caranguejo picante e lombo de porco com berinjela.

VICTORIA BURNETT / HAVANA , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 Março 2012 | 03h09

A cena acima certamente não lembra um típico jantar em Cuba. Décadas de comunismo produziram na ilha uma série de restaurantes estatais, onde turistas lutam por uma costeleta de porco. Mas uma nova safra de restaurantes privados, conhecidos por lá como paladares, traz uma pitada de estilo à cena gastronômica sem brilho da capital.

Os paladares estão florescendo, assim como o fluxo de visitantes em Havana. Pacotes turísticos incluem refeições nos estatais, mas deixam lacunas para você explorar o circuito desses restaurantes familiares, que funcionam na casa de seus proprietários. Surgiram na crise pós-soviética, em meados de 1990, quando o governo permitiu algumas iniciativas privadas. Muitos, porém, não prosperaram. Entre os sobreviventes está o La Guarida, instalado no sótão de um palácio do século 20.

Quando o governo cubano, há 15 meses, abriu de novo as portas para empresas privadas, alguns cubanos logo criaram seu paladar. Hector Martinez Higuera, por exemplo, gastou fortunas para transformar a sala e quartos de sua mansão no Le Chansonnier, aberto em outubro.

Tenha em mente, porém, que se trata de Havana, não Nova York. A cena gastronômica depende de pequena base de clientes: expatriados, turistas e alguns poucos cubanos com acesso a dinheiro estrangeiro. E, em uma cidade onde é possível passar dias brigando por alguns ovos, restaurateurs têm de se limitar a suprimentos básicos - dependem dos visitantes para trazer tudo, de queijo parmesão a foie gras. "É uma dor de cabeça. Você sonha com uma receita, mas não consegue achar os ingredientes. Um dia você sai atrás de sal e não há", diz Higuera.

Outros endereços. Oyaki Curbelo e Cedric Fernando servem um misto de comida indiana e pratos do Sri Lanka no seu Bollywood - Fernando, um inglês com raízes no Sri Lanka, recebe folhas de curry da própria embaixada do país.

Na mesma linha do Le Chansonnier, o Atelier, de cozinha continental, tem terraço com velas e almofadas, ótimo para desfrutar uma taça de vinho sob o céu estrelado de Havana. Para se misturar com artistas, tome um drinque no Madrigal, bar do cineasta Rafael Rosales. "Eu queria um espaço diferente. Se uma pessoa abre um café, logo o vizinho também abre. Aqui, todo mundo faz a mesma coisa", diz.

É no bairro de Havana Velha que se encontra o lugar ideal para provar o autêntico ropa vieja: cordeiro desfiado preparado com alho, tomate, orégano e folhas de louro. O Dona Eutimia, aconchegante e sempre movimentado, fica na praça da Catedral.

Apenas alguns restaurantes estão na orla. Um deles é o Vistamar, paladar de longa data que serve lagosta grelhada com alho e onde você pode escolher uma mesa ao ar livre, à beira-mar. De volta ao Vedado, no terraço do Cafe Laurent há como avistar o mar sobre os telhados, enquanto saboreia almôndegas com sementes de gergelim e molho de mostarda. Ou um prato de arroz com frutos do mar.

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