Juan Jaeger / Divulgação
Juan Jaeger / Divulgação

Entre montanhas, os povoados esquecidos pelo tempo no Chile

Ao longo das estradas sinuosas da região, a paisagem em tons terrosos reserva surpresas a cada curva. Codpa, primeira parada a partir de Arica, nos dá as boas-vindas à rota das missões chilenas

Juliana Mezzaroba / Arica, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2016 | 05h00

Às 19h45, o sol se punha no horizonte do Oceano Pacífico enquanto o avião pousava no aeroporto à beira-mar em Arica. O primeiro detalhe que chama a atenção é a ausência da areia fina e a grande quantidade de cascalho marrom por toda a orla da praia. O que apresenta, para quem nunca esteve na região, o clima desértico costeiro. A estrada de pedregulhos cor de café claro nos acompanha pelos pouco mais de 700 quilômetros percorridos em quatro dias de viagem. 

O mapa mostra que estamos em um pontinho no extremo norte do Chile, quase fronteira com o Peru e Bolívia. Apesar de pequena, essa região apresenta uma grande diversidade de experiências. É possível, em apenas 4 horas de carro, sair do nível do mar, com temperaturas na casa dos 19 graus o ano, e subir 4.300 metros até chegar ao altiplano, com temperaturas abaixo de zero nas noites de inverno.

Faça o trajeto sem pressa. Nas curvas do Deserto do Pacífico, quem reina é o sol forte e o céu azul-turquesa contrasta com o marrom das montanhas. Em meio à paz e solitude do deserto, se revelam vales pontuados com o verde das plantações, onde podemos ver sinal de civilização em pequenos povoados. Em Codpa, por exemplo, há energia elétrica por apenas 2 horas durante a noite. E, quando as luzes se apagam, a magia vem do céu, tão estrelado que até parece imagem de planetário. 

A chegada ao altiplano é o ponto alto da viagem, com o perdão do trocadilho. Montanhas com picos nevados, vulcões, salinas que se apresentam como um tapete branco para os delicados flamingos viverem tranquilamente ao lado de lhamas e alpacas que habitam no local. E como se contemplar esse cenário cinematográfico já não fosse suficiente, ainda é possível se banhar e relaxar em termas naturais e praticamente exclusivas, já que a região ainda é pouco visitada por turistas. 

Além do espetáculo natural, há mais de 90 igrejas entre Arica e Parinacota, erguidas pelos colonizadores espanhóis entre os séculos 16 e 17. Elas vêm sendo reformadas aos poucos e têm grande importância para os moradores. Sempre simpático e bem receptivo, o povo andino faz questão de mostrar um pouco de sua cultura para quem visita a região. Abrem suas casas para hospedagem, preparam refeições com carinho e estão sempre prontos para contar uma história, geralmente, lembrando seus antepassados. Confira nosso trajeto nesta reportagem.

ANTES DE IR:

 Aéreo: São Paulo – Arica – São Paulo, com conexão em Santiago, custa desde R$ 1.774,67 na Latam.

 

Operadoras: no site da Ruta de las Misiones, mantido pela Fundación Altiplano, reúne operadoras locais, sugestões de roteiros, hotéis e explicações sobre os projetos de turismo sustentável realizados com as comunidades da região de Arica e Parinacota. Também é possível agendar passeios a partir de Arica.

Onde Ficar: com o turismo ainda em desenvolvimento na região, a maioria das pousadas é simples. Há poucas hospedarias em Belén e, no Parque Nacional de Lauca, é possível acampar. Em Arica, há mais opções de qualidade – há opções de passeios bate-volta para a região com agências locais. Por causa da localização central, Codpa acaba sendo base para alguns bate-voltas. Nos alojamos no Codpa Valley Lodge (diárias a US$ 100 o casal), com chalés charmosos e individuais, piscina, Wi-Fi e café da manhã.

O povoado só tem energia elétrica até às 22h30 – depois desse horário, troque a tela do celular pela iluminação das estrelas. É possível ver até a Via Láctea. Jantamos em outra pousada, a Samkanjama, que significa “como um sonho” (de certa forma, era como nos sentíamos naquele momento). Ali, dona Olga oferece alojamento para 19 pessoas e restaurante com comida caseira e orgânica – todos ali têm um grande quintal, onde podem plantar o que consomem. A diária custa 14 mil pesos (pouco mais de R$ 65).

Outra opção de hospedagem por ali é o Centro Turístico Vila Vila, onde tomamos café na manhã seguinte. Em meio a um grande pomar, com muitas flores, temperos e o som do riacho, a senhora Haydee Montecinos também oferece alojamentos. Com direito a ofurô, café da manhã no jardim, pão quentinho feito por ela mesma e frutas locais colhidas do pé na hora. A diária com café da manhã custa 40 mil pesos (R$ 190). Ao nosso convite, dona Haydee e seu marido Omar sentam-se à mesa para tomar café conosco para compartilhar algumas de suas histórias e um pouco da cultura da região. 

Precaução:  Não há sinal de celular nas estradas – estude bem o mapa para não ter problemas. Saia cedo, para poder parar em quantos mirantes quiser antes de o sol se pôr. Não faça a rota à noite ou no período de chuvas (de dezembro e março).

Nas alturas: Para diminuir os efeitos da altitude, tome bastante líquido, especialmente sopas e chás. Evite bebidas alcoólicas e procure descansar no dia da chegada. Se possível, aclimate-se aos poucos se não suba ao ponto mais alto de uma só vez.

Ritmo de festa: A tranquilidade dos vilarejos só é interrompida pelas festas tradicionais. Os dias de santos de devoção são celebrados com música, dança e vinhos locais. Uma das maiores festas é o carnaval andino, em fevereiro.

Praias: Arica é conhecida como a “cidade da eterna primavera”, com praias boas para esportes aquáticos. Se quiser esticar a San Pedro de Atacama, vá de avião para Calama (5 horas) – o Viagem esteve lá recentemente; leia aqui

 

 

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VIAGEM A CONVITE DA FUNDACIÓN IMAGEN DE CHILE

 

 

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Juliana Mezzaroba / Arica, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2016 | 04h30

As mais de 90 igrejas – 32 restauradas – fizeram com que a região de Arica e Parinacota ganhasse o nome de Rota das Missões. Construídas durante a catequização espanhola, elas hoje integram um circuito de turismo patrimonial, organizado pela Fundação Altiplano.

A bordo de um 4X4, iniciamos nossa rota cruzando a cidade portuária de Arica rumo ao povoado de Codpa – 5 horas em um trajeto longo e sinuoso, com muitas subidas e descidas. Depois de 1h40 de viagem, chegamos a Caleta Vítor, um vale no meio do deserto, onde o rio subterrâneo faz com que a paisagem de cor café com leite, com muita areia grossa e pedra, ganhe o verde das plantações de locoto (tipo de pimenta vermelha).

 

 Depois de 15 minutos pela plantação, a Praia da Caleta surgiu quase deserta, com apenas dois pescadores. O mar azul estava agitado e a areia, tão abundante na região, ali era substituída por cascalho. Algumas fotos depois, seguimos viagem. 

 

Pela estrada, montículos de pedras empilhadas denuncia que não estamos tão sozinhos quanto imaginamos. Don Vicente, guia e morador da região, explica que são apachetas, altares em honra aos deuses incas, onde os viajantes vão deixando suas pedras empilhadas para pedir e agradecer à Pachamama (Mãe Terra) e aos Apus (deuses das montanhas). Acredita-se que deixar uma pedra protege o viajante que passa por ali – por isso, deixamos as nossas também.

No começo da tarde, chegamos a Codpa, vilarejo de cerca de 200 habitantes, e logo fomos almoçar. Conhecemos Fely, dona do Restoran Doña Fely. Com um sorriso no rosto, ela descreve o menu do dia: cazuela de pollo (sopa com frango e legumes) e pollo asado y ensalada (frango assado, arroz e salada). Com taça de vinho e sobremesa, a refeição custa 5 mil pesos (R$ 25).

 

O vale possui um rico patrimônio natural e cultural. É bom reservar pelo menos duas horas para conhecer a igreja de San Martin de Tours, os petroglifos de Ofragía e a vinícola Pitantani, uma das mais antigas do Chile, com quase 400 anos. Herança dos espanhóis que aproveitaram as condições climáticas ideais: “Um vale e muito sol são um luxo para a produção de vinho", diz Rodrígo Soza produtor e herdeiro da Pitantani. 

A bebida era levada pelas montanhas até o Peru e a Bolívia em mulas, através da Rota da Prata, entre os séculos 16 e 17. Nesse período, tornou-se a principal atividade econômica local. São quatro tipos de vinho, todos com sabor forte e doce, semelhante ao vinho do Porto – garrafas a 7 mil pesos (R$ 35). 

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Juliana Mezzaroba, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2016 | 04h30

De Codpa a Belén são 81 quilômetros, em uma estrada de terra, com curvas sinuosas. Uma subida em marcha lenta, a cerca de 40 quilômetros por hora, para evitar também o mal-estar ocasionado pelo ar rarefeito. 

Não há postos de gasolina no caminho, por isso é importante estar prevenido. Nosso guia trouxe tudo o que precisaríamos: água, comida e combustível.

Don Vicente preparou um piquenique à sombra de eucaliptos, no povoado de Ticnamar. Ali, mais uma vez, os traços da colonização espanhola são evidentes – até os eucaliptos que nos proporcionaram sombra foram plantados por eles, para que a madeira pudesse ser utilizada na construção de casas. 

De volta à estrada, a paisagem começa a se transformar. O marrom do cascalho vai ganhando o verde da vegetação pré-cordilheira, que recebe água das geleiras do altiplano. Aqui já é possível ver mais vida, plantações, fazendas com criação de vacas, ovelhas, lhamas, que nos observam com curiosidade. As paradas para fotos são inevitáveis. 

No meio da tarde, chegamos a Belén com um sol que já não nos esquentava. Estamos a 3.300 metros de altitude, em um povoado onde vivem apenas oito famílias – pouco mais de 50 pessoas. Ali conhecemos mais sobre o trabalho da Fundação Altiplano, que junto com os moradores restaurou as três igrejas da cidade, afetadas pelo terremoto de magnitude 8,2 que atingiu a região em 2014. 

As capelas são modestas, pequenas, com poucas imagens e alguns bancos de madeira Suas maiores riquezas são a simplicidade e a fé de quem as frequenta. Os moradores que encontramos tentam explicar a necessidade de ter um lugar, mesmo que pequeno, para cultivar sua crença e seguirem passando seus valores de geração para geração. 

Além da reforma nos templos, a população também demonstrou interesse em transformar o lugar, com o objetivo de ser mais atraente e acolhedor para o turismo. Assim fez Adela Cutipa, dona da pousada La Paskana. Nascida em Belén, morou 27 anos em Arica e decidiu voltar à cidade de origem para empreender. “O turismo é uma atividade muito bonita, as pessoas se interessam pelo lugar onde você mora e você pode mostrar o que tem para elas”.

 

Novos amigos. Durante o jantar, conhecemos o único turista da Rota das Missões além do nosso grupo. O alemão Peter, de 73 anos, decidiu vir passar 2 meses na região justamente por não se tratar de uma rota de turismo convencional pelo Chile. Quando perguntado por que não quis ir para um destino mais comum, como San Pedro de Atacama, ele franze a testa e move a cabeça em negativa. Reação parecida com a da dona pousada que está à mesa conosco. Ela conta que o local necessita de turismo, mas nada muito grande, que bagunce a cidade e acabe com a paz local como em San Pedro. 

A hospedagem com jantar e café da manhã custa 22 mil pesos, pouco mais de R$ 100. O bate-papo e a simpatia da dona são de graça. 

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Juliana Mezzaroba, O Estado de S. PAulo

20 Dezembro 2016 | 04h30

No alto do altiplano, o povoado de Guallatiri tem apenas uma igreja e uma pousadinha. Chegar ali é realmente guardar o melhor para o final – afinal, o pequeno povoado é ponto de partida para o Parque Nacional Lauca e para o Salar de Surire, as últimas paradas de nosso roteiro. 

Para chegar a Guallatiri, partimos bem cedo de Belén, antes mesmo de o sol começar a iluminar o vilarejo. O trajeto durou cerca de 3 horas, indo devagar, apreciando o horizonte e nos acostumando com o ar rarefeito das altitudes andinas. A orientação é respirar mais fundo para enganar o corpo, que receberá uma quantidade de oxigênio menor. Quando finalmente alcançamos os 4.300 metros de altitude, foi como um corte bruto em uma de cena de filme: finalmente, chegamos ao grande objetivo da viagem. 

O parque foi nossa primeira parada. Vulcões, lagoas cristalinas, montanhas, sítios arqueológicos, vegetação endêmica, lhamas, flamingos, vicunhas e alpacas compõem a área de preservação de 138 mil hectares na fronteira do Chile com a Bolívia. 

A natureza exuberante é permeada pelos vulcões Parinacota (6.342 metros de altitude) e Pomerape (6.280 metros sobre o nível do mar). Majestosos, se apresentam com formas diferentes, mas com uma camada de gelo que lembram marshmallows derretidos, com o céu espelhado nos lagos ao seu redor. 

O principal deles é o Lago Chungará, que reflete em suas águas verde-esmeralda a imagem cônica perfeita, coberta de neve, do vulcão Parinacota. O lago é um dos mais altos do mundo, a mais de 4.500 metros sobre o nível do mar. 

Os dois gigantes ficam ainda mais bonitos à medida em que se avança pelo parque. O local ainda é pouco visitado – em 2015, foram apenas 150 mil turistas. E nem é preciso pagar para entrar.

Considerado “Reserva Mundial da Biosfera”, o Parque Lauca tem muito a oferecer. É atualmente o lar de mais de 130 espécies de aves que vivem próximas aos lagos e córregos formados pelas águas do Rio Lauca.

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Juliana Mezzaroba, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2016 | 04h30

Saindo do Parque Nacional de Lauca, pegamos a estrada sentido ao povoado de Guallatiri. No caminho está a última atração da nossa viagem: o Salar de Surire, a aproximadamente 160 quilômetros de distância do Lago Chungará. Com apenas 175 quilômetros quadrados, tem uma área muito menor do que os impressionantes 10 mil quilômetros quadrados do famoso Salar de Uyuni, na Bolívia. Ainda assim, é branquinho, extenso e fascinante.

Foram muitos cliques e inúmeras paradas para garantir a recordação da paisagem. Parecia ser impossível pensar em algo ainda melhor no trajeto – e o que era bom ficou ainda mais interessante. Depois de 30 minutos de carro, encontramos um lugar para descansar e recarregar as energias, as Termas de Polloquere. 

É um privilégio ter aquela água azul-turquesa, quentinha, rodeada por um cenário paradisíaco e sem ninguém por perto. Mesmo com o vento forte e temperatura de 16 graus do lado de fora das piscinas naturais, o mergulho é inevitável – vale a pena passar um pouco de frio ao sair da água. 

Para fazer um passeio completo por essa região do altiplano, reserve ao menos dois dias inteiros. É possível acampar nas proximidades do salar, mas saiba que as temperaturas ficam abaixo de zero durante a noite. Outra opção é se hospedar por 15 mil pesos (R$ 76) no albergue Familia Sanchez, uma hospedaria simples em Guallatiri.

Mesmo com o cartão de memória da câmara cheio, as fotos pareciam não traduzir o que os olhos puderam ver ali. Experiência para ser guardada na mente – e no coração.

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Guilherme Mendes, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2016 | 04h30

Argentina 

Capital da província argentina de Misiones, Posadas está a cerca de 4h30 de carro de Puerto Iguazú, vizinha da brasileira Foz de Iguaçu (alugue do lado argentino para evitar problemas). Você pode se hospedar em Posadas, mais distante, ou sem San Ignácio – o sítio principal é o de San Ignácio Miní, que conta com um belo espetáculo de som, luz e holografias noturno. Nosso colunista Ricardo Freire esteve lá ano passado e achou dispensável esticar ao sítio de Nuestra Señora de Loreto. O ingresso custa 150 pesos (R$ 27) – confira as dicas do Turista Profissional.

 

Paraguai

Para quem vai conhecer os sítios de Trinidad e de Jesús, vale também ficar hospedado em Posadas – as missões ficam do outro lado do Rio Paraná, em Encarnación, a menos de 60 km da cidade. A entrada custa 25 mil guaranís (R$ 14,50) e vale para três dias de visita. Assim como as missões argentinas, trata-se de um patrimônio da humanidade da Unesco

 

Brasil

Se quiser fazer as três missões na mesma viagem, a brasileira está a cerca de 4 horas de Posadas, na Argentina. A partir de Porto Alegre, são cerca de cinco horas de viagem por Carazinho, que, segundo Ricardo Freire, tem o asfalto melhor do que pelo caminho mais curto, via Cruz Alta. Fundada em 1632, tem o museu mais rico de todas as missões, embora haja poucas construções de pé. Nas ruínas de São Miguel, o ingresso custa R$ 5 – veja as dicas e o roteiro sugerido por Ricardo Freire para percorrer as três missões.

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