Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Entre o jongo e a tradição, quilombo se mantém ativo

No terreiro quase vazio naquela tarde morna e luminosa do segundo domingo de junho, apenas três animadas crianças brincavam no chão batido. Não fossem a cerca e a porteira, aquilo passaria fácil por pracinha de alguma cidadela rural como tantas pelo interior brasileiro, sem asfalto, rodeada por escola, salão comunitário, conversa ao pé da janela e barracas de madeira e palha a postos para um São João iminente, se fosse o caso.

Cenário: Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2013 | 02h09

Ali não era. No Quilombo São José da Serra, é em 13 de maio que se celebra a festa mais importante do calendário anual, a dos Pretos Velhos, entidades cultuadas pelas religiões afro-brasileiras. Bem de acordo com a forma que o quilombo encontrou para sobreviver e se manter ativo e relevante, mais de um século e meio depois de ser criado, em 1850: preservando raízes.

Cerca de 150 pessoas moram em casas de barro com telhado de sapê, todas descendentes dos ex-escravos fundadores da comunidade. Cultivam a terra para consumo próprio (milho, batata, feijão, goiaba, banana e mais). Sobretudo, mantêm viva a tradição do jongo, ritmo que veio da África ao Brasil com os bantos. Atuam politicamente: líder local, Antonio Fernandes, o Toninho Canecão, chegou a ser eleito vereador no fim dos anos de 1990 na cidade de Valença.

Naquele domingo, havia um assunto urgente a ser discutido pelos moradores: ajustes na festança anual de 13 de maio, que é a principal vitrine da comunidade. Com mais de 3 mil visitantes, faltou água - "mas não comida", Toninho Canecão fez questão de destacar -, primeira vez em que a infraestrutura deixou a desejar. Há água encanada e eletricidade, e um salão de informática com Wi-Fi estava previsto para ser instalado até agosto.

O quilombo não é uma atração turística para se chegar em qualquer dia e horário. Visitantes são bem-vindos, mas, fora da festa dos Pretos Velhos, quando a fazenda simples é invadida até por estrangeiros, é de bom tom ligar (24-2457-1130) e combinar um dia para passar por lá. Já sabendo que nem sempre será possível ser recebido, mas que a boa vontade dos moradores é enorme.

Guiada por Sebastião Seabra, moço esguio e sorridente que, aos 21 anos, aparenta 14 ou 15, subi e desci barrancos por trilhas marcadas pela força do uso, vi a pedreira com um jequitibá centenário considerada sagrada pelos moradores, ouvi sobre queimadas recentes que tornaram mais difícil cultivar as terras por ali. Para terminar a visita, Sebastião parou diante de uma das 30 casas e chamou, lá dentro, seu pai.

Seu Manoel Seabra saiu da salinha deixando atrás de si um televisor ligado no jogo do Flamengo contra o Criciúma. Nem a aparência, nem a voz ao responder "Flamengo, claro" quando questionado sobre o time do coração denunciam seus 92 anos. É o atual morador mais velho, o que por lá confere o peso da responsabilidade moral. Sorri fácil com dentes muito brancos, o que lhe subtrai mais alguns anos da aparência. Posa para as fotos com elegância, enquanto conta que sim, ainda participa das rodas de jongo e adora um arrasta-pé.

Antes de entrar no carro rumo à RJ-137, a rodovia onde está a placa que indica o quilombo (no km 57), peço a Sebastião para transmitir meu agradecimento a Toninho Canecão. Ele está ocupado no salão, em pleno debate sobre a festa anual. A tradição é prioridade, afinal.

Mais conteúdo sobre:
Viagem Vale do Café quilombo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.