Isadora Pamplona/Estadão
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Bruna Toni
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Entrevistando o pastel de Belém

A origem do doce mais procurado pelos turistas que visitam Lisboa se confunde com a própria história de Portugal

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 03h30

Lembro de ter pronunciado a seguinte frase muito recentemente, durante uma estada em Portugal: “Nunca fiz uma viagem de férias com foco gastronômico”. Disse isso para explicar a uma amiga que não sou exatamente uma conhecedora de restaurantes e bares mundo afora. Nunca sei quais são os lugares estrelados, do momento, com chefs famosos. Em geral, o que procuro em todos os cantos deste mundo é sempre o mesmo: comida típica, boa e barata, tanto quanto possível for.

Dias depois de as convictas palavras saírem da minha boca, mordi a língua. Não porque me vi num restaurante badalado, apesar de ter entrado sem saber numa casa portuguesa indicada pelo Guia Michelin. Mas porque, depois de uma dezena de salgados e doces portugueses experimentados e repetidos com louvor, percebi que, na busca por comidas tradicionais, acabo sempre fazendo um tour gastronômico – mesmo que o foco não seja esse. 

O que orienta esse tour não são as estrelas atribuídas a um local, mas os pratos que os destinos me oferecem de forma singular. Porque deles é possível desfrutar não só o sabor, mas suas histórias. Quando surgiram, em quais contextos, quem os comia, como se popularizaram, porque receberam o nome que receberam, por quais mudanças passaram, onde são encontrados, quem disputa suas origens. São tantas as perguntas que eu gostaria de fazer às receitas tradicionais que daria uma entrevista por semana. 

Poderíamos começar entrevistando os pratos portugueses mais simbólicos. Começaria pelo pastel de nata – em Portugal, nata é creme de leite e pastel é tudo o que é doce, menos o nosso pastel –, cuja ampla variedade no mercado é capaz de provocar polêmicas infindáveis. Em Lisboa, há até um concurso anual para eleger o Melhor Pastel de Nata da cidade. Sua origem, de séculos, está nas cozinhas de antigos conventos religiosos, como o Mosteiro dos Jerônimos, onde nasceu sua versão mais famosa: o Pastel de Belém.

Sim, pastel de nata e pastel de Belém são a mesma coisa e também não são. São porque o doce é o mesmo. Contudo, se você pedir por um Pastel de Belém numa cafeteria ou padaria portuguesa que não a casa do século 19 fincada no bairro de Belém, bem próxima ao Mosteiro dos Jerônimos, será corrigido no ato – às vezes de uma forma até grosseira. Pastel de Belém tem selo de denominação de origem, que garante a um produto a exclusividade do nome por conta do espaço geográfico onde é produzido e das características que esse espaço lhe confere. Como ocorre com o Vinho do Porto, para não sair de Portugal.

E há justiça na exclusividade. Afinal, a história do Pastel de Belém se confunde com a de seu país de origem. Foi no início do século 19, durante a Revolução Liberal portuguesa que colocou fim às ordens religiosas – e que fez com que D. Pedro I saísse do Brasil e retornasse à Portugal –, que os pastéis doces e cremosos, até então produzidos dentro do mosteiro, passaram a ser vendidos pelos monges como forma de sustento e manutenção da ordem. 

Como Belém ainda não fazia parte de Lisboa, os viajantes que lá iam para visitar o Mosteiro e a Torre (de Belém, outro ponto turístico) paravam para comer os divinos pastéis (com perdão do trocadilho espiritual). Assim, desde 1837 o mesmo pastel, cuja receita é secreta, é vendido naquelas bandas lisboetas. E os turistas continuam indo ao bairro visitar seus edifícios do século 16 e entrar na fila para comer um legítimo Pastel de Belém. 

Eu também comi. Não apenas um, mas três, quentinhos, com canela, impressionada pela receita sobreviver por tanto tempo e ainda se manter no topo. Perguntaria o segredo do sucesso. Talvez a resposta fosse modesta a ponto de reconhecer a contribuição de outras muitas receitas de pastéis de nata deliciosas que se espalharam pelo mundo, fazendo valer, quem sabe, um tour gastronômico específico de pastéis de nata. Olhem eu mordendo a língua de novo.

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