Epopeia canadense

Responsável pela unificação do país, ferrovia liga o território do Atlântico ao Pacífico, em uma rota de 5.600 quilômetros pontuados por campos, coníferas e pelas Montanhas Rochosas

Nathalia Molina / TORONTO ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2010 | 02h31

                               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A fala do guia turístico de Vancouver dá a medida exata do que o trem significa para o Canadá: "Muitos países lutaram, fizeram revoluções para se tornar uma nação. Nós construímos uma ferrovia." Graças aos trilhos, o extenso país, esparramado em 5.600 quilômetros do Atlântico ao Pacífico, se manteve unificado - a construção de uma linha transcontinental foi a exigência de British Columbia para se tornar a sexta província canadense. Atualmente, essa malha ferroviária corta os seis fusos horários existentes no país e conecta as principais cidades. Uma cobiçadíssima viagem.

A bordo de um trem, o caminho de Toronto a Vancouver ganha ares de epopeia: cortar pradarias, percorrer pontes sobre lagos contornados por coníferas, dar a sorte de ver animais típicos e, por fim, atravessar as marcantes Montanhas Rochosas, cordilheira que se estende até os Estados Unidos. O espírito dessa rota, batizada de The Canadian e operada pela VIA Rail durante o ano inteiro, é desbravar o país continental à moda antiga, por terra.

Para se atrasar o relógio em quatro horas, já no Pacífico, um voo de duas horas seria suficiente. Pelos trilhos, são necessários quatro dias. Tudo a seu tempo. Uma hora para trás por dia, assim que mais uma província é vencida.

Os dois primeiros dias atravessam pradarias das Províncias de Manitoba, Saskatchewan e Alberta, entremeadas por fazendas e rios. Apesar do visual chapado, as pradarias têm lá suas surpresas. Rolos de feno parecem ter sido arrumados no horizonte. Montinho aqui, montinho ali, estão dispostos com uma poética displicência. Os campos de trigo nos fazem depreender a intensidade daquele amarelo-Van Gogh, tão vivo nas paisagens europeias pintadas pelo mestre.                

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      

   
          

                                           

Visual. Conforme as Rochosas se aproximam, o cenário vai mudando devagar. O ponto crucial é Edmonton, cidade na região de Alberta onde há uma parada na manhã do terceiro dia. Aí, é inserido no meio do trem um vagão com teto e paredes de vidro, da altura da cintura para cima. Esteja preparado. Limpe seu cartão de memória na véspera e separe bateria extra para a máquina. A paisagem inspira uma quantidade interminável de fotos. Qualquer câmera simples serve.

O serpentear da subida mostra ângulos impressionantes. Nas confortáveis poltronas do vagão de vidro, a visão de 360 graus alucina. Pedras imensas, bem claras, quase encostam na janela. Montanhas escuras de picos nevados contrastam fortemente com os vales de pinheiros e, o mais deslumbrante, com o verde-esmeralda que banha as Rochosas.

O caminho para a bela cidadezinha de Jasper, ainda em Alberta, pode ser tranquilizador, um verdadeiro entorpecente. Ou ter o efeito contrário, dependendo do viajante. A sucessão de cenas maravilhosas tem algo de inquietante, garantindo boas doses daquela adrenalina de criança à espera da próxima surpresa. E ela sempre vem.

Jasper, a parada seguinte, encontra-se na famosa cordilheira. Uma gigante montanha branca serve de pano de fundo para o trem estacionado na estação. Ali, tem-se perto de uma hora e meia para comer e fuçar lojinhas. Nas de souvenir, alces e folhas de maple estampam pijamas e até pacotes de chocolate quente instantâneo.

Borbulhas. Todos de volta ao trem para novo espumante de boas-vindas - no começo da viagem, os passageiros da classe turística também são recebidos com borbulhas. Tonalidades de verde nas montanhas pintam a tarde em degradê: escuro, muito claro, de tom médio. Quilômetros de pinheiros vão escoltá-lo de Alberta até British Columbia, com o sobe-e-desce de um grande tapete. Até a noite, quando o trem começa a descer em direção a Vancouver, os trilhos desenham muitas curvas entre picos, rios e lagos. Nunca é demais se impregnar de beleza.

A ansiedade mal deixa dormir. O nascer do dia traz o restinho da viagem. Diante da fina névoa que envolve a manhã, as panquecas de mirtilo podem esperar. Hora de fechar a mala. No desembarque em Vancouver, desejos de boa viagem, trocas de contatos e amizades que, quem sabe, vão torná-lo mais assíduo às propagadas redes sociais. Após conviver quatro dias com as provocações bem-humoradas entre uma britânica e uma québécoise (canadense da província francesa), você se dá conta de que fez uma imersão metafórica no Canadá. Entre as duas línguas, as duas culturas, não poderia haver melhor forma de conhecer o país.

ROTINA A BORDO

Simples aconchego

Com conforto, mas sem luxo, vagões de aço aguçam o imaginário dos românticos, ávidos pelo frisson da época áurea das ferrovias. Carros panorâmicos - um lounge na parte baixa e, em cima, poltronas cercadas por janelas - garantem drinques, café, lanches e uma vista privilegiada para o cenário ao redor. No trem há ainda uma área dedicada à diversão, com televisão e jogos de tabuleiro. Cada vagão de acomodações tem um chuveiro coletivo. As cabines duplas e triplas dispõem de pia e banheiro (sem ducha) privativos. O espaço é pequeno, suficiente para uma malinha por pessoa. A bagagem grande é despachada diretamente para Vancouver.

Dormir cedo é quase certo. Às 23 horas, o trem está deserto. Todos se recolhem por volta das 22 horas, após muita atividade à luz do sol, quando a paisagem se revela. Para os passageiros de classe turística (com cama), o dia começa no vagão-restaurante. Lá são servidas as três refeições; quem viaja de classe econômica (só com assentos) pode comprar lanches no seu setor. Em geral, o despertar é por volta das 6 horas. Você pode dormir até tarde, o difícil vai ser querer. Tentação irresistível é deixar a cortina aberta para ver o amanhecer.

No café, como ocorre nas outras refeições, o viajante não escolhe onde se sentar. É levado até uma mesa onde haja lugar. A essência do trem está aí: interagir com outros passageiros, descobrir o que os levou até ali, conhecer as histórias que esconde aquela viagem.

Saiba mais

Idiomas: inglês e francês

Visto: custa R$ 125 para uma viagem em seis meses

Clima: o cenário e a temperatura mudam muito dependendo da estação

Taxas: sobre as compras incidem duas - a nacional, de 5%, e a da província, entre 5% e 10%. Valem também sobre a conta do restaurante

Gorjetas: no táxi e no restaurante, 15% sobre o valor. Carregadores de bagagem recebem 1 ou 2 dólares canadenses por item

Sites: Comissão Canadense de Turismo ; e as cidades:Vancouver  , Toronto , Montreal e Quebec

 

 

 

 

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