Especial para habitués: segredos de uma Buenos Aires escondida

Mesmo quem já esteve lá muitas vezes vai poder admirar a cidade de outros ângulos. Leia e tire a dúvida

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2009 | 03h12

Mil e uma fotos você fez na frente da Casa Rosada. Mas alguma vez rodou o quarteirão e reparou nos fundos do palácio presidencial, de arquitetura mais elaborada e harmônica que a fachada? O bife de chorizo esteve em boa parte de suas refeições em Buenos Aires. Só que também poderia ter provado um suculento medalhão de nhandu, espécie de avestruz dos pampas. E dançado numa milonga, em vez de apenas acompanhar os megashows de tango.   Veja também: O amado e odiado circuito Rodin Raridades e itens curiosos à venda Cinco dicas gastronômicas para fugir do bife de chorizo Tango com alma nas tradicionais milongas   Ausências mais que suficientes para que você volte sem demora à capital portenha e possa descobrir a Buenos Aires escondida. Escondida de muitos moradores e de quase a totalidade dos turistas. Pessoas que se encantam - algo amplamente justificável - com a arquitetura e a variedade da Grand Ateneu. E ainda não passaram pela algo insólita El Rufián Melancólico (O Vilão Melancólico), livraria-sebo com raridades e ácaros. Que percorrem a rota Evita várias vezes, mas desconhecem a existência de uma rota Rodin. Segredinhos que você lerá nesta série de matérias.   Fotos: Alberto Haliasz/AE Quantas vezes você reparou na parte de trás da Casa Rosada, mais bela que a fachada? As menos conhecidas jóias arquitetônicas da capital são o ponto de partida de nossa rota. Edifícios que mostram a obsessão de Buenos Aires pela estética. A começar pela Casa Rosada. A parte de trás, pouco vista pelos turistas, é considerada mais bela, por não ter os balcões e as colunatas que deixam a frente assimétrica. Também fica nos fundos do prédio o conjunto escultórico As Artes e o Trabalho Coroando a República, de Aquiles Sergio Bianchi. Outra curiosidade: vieram do Rio as oito palmeiras Phoenix canariensis que enfeitam a frente da Casa Rosada, na Plaza de Mayo. Ali estão como silenciosas - e altas (cada uma tem 20 metros) - presenças brasileiras no principal cenário da política argentina desde 1888. 'Capitólio' A seqüência lógica é seguir até a sede do Banco de la Nación Argentina, rodeado pelas Avenidas Rivadavia, Reconquista, 25 de Mayo e Bartolomé Mitre. Os portenhos se gabam do edifício, que dizem ter a terceira maior cúpula do mundo em tamanho, perdendo apenas para a do Capitólio, em Washington, e para a da londrina Catedral de Saint Paul. São 50 metros de diâmetro e 36 metros de altura. No outro lado da Casa Rosada, na Rua Hipólito Irigoyen, fica o prédio do Ministério da Economia (1939), metralhado por aviões em 1955, no levante militar para derrubar Perón. Esse golpe fracassou, mas o presidente caiu poucos meses depois. As marcas da destruição foram deixadas como registro da tentativa de golpe. E saciam a curiosidade de quem se interessa pela história argentina. Na Avenida Córdoba, na esquina com a Rua Riobamba, encontra-se o Palácio das Águas. Argentinos e alguns poucos estrangeiros que reparam em sua arquitetura costumam exclamar: "Esse prédio merecia ser o palácio presidencial!" E todos ficam surpresos ao ouvir que o edifício é apenas uma "casca". O palácio foi construído em 1887 só para camuflar os tanques de abastecimento de água. Mas os portenhos não aceitariam uma "casca" qualquer. Por isso, o governo importou da Inglaterra 170 mil peças decorativas, além de 130 mil tijolos. O teto foi trazido da França. O escritor espanhol Blasco Ibáñez não conseguiu deixar de comentar: "Este palácio não é tal palácio. Tem arcos, grandes portas e janelas. Mas é tudo fingido." Sissi, a imperatriz Edifício mais alto de Buenos Aires na época de sua construção (1912), o Otto Wulff, a poucos quarteirões da Plaza de Mayo, foi erguido para servir de embaixada do Império Austro-Húngaro. Pelo projeto, Áustria e Hungria foram representadas por duas cúpulas verdes. Uma recebeu como adorno uma coroa, símbolo do poder do imperador Franz Josef, e a outra acabou sendo enfeitada com um sol, em homenagem à imperatriz Sissi. Adeptos de teorias conspiratórias dizem que dali espiões alemães passavam, por meio de fachos de luz, informações sobre os navios ancorados no porto. Se quiser conferir o prédio em estilo Jugendstil - o art nouveau alemão -, vá de dia. A fachada está escurecida pela fuligem, dificultando a observação. Dante Qualquer história sobre o Otto Wulff fica meio comum quando comparada com a do Pasaje Barolo. Com design inspirado na Divina Comédia, o prédio foi idealizado pelo rico italiano Luigi Barolo, que queria colocar ali as cinzas do poeta Dante Alighieri (1265-1321).     Imigrante construiu o Pasaje Barolo para abrigar as cinzas de Dante Alighieri O edifício é puro simbolismo. Foi construído no décimo terceiro quarteirão da Avenida de Mayo, onde estão os imóveis com números a partir do 1.300, para representar a época em que Dante viveu. O teto do hall, que parece uma catedral, está dividido em nove partes, tal como os nove passos da iniciação e as nove hierarquias infernais. As relações não param por aí. A estrutura tem 100 metros de altura, para corresponder aos 100 cantos da obra de Dante (o Pasaje Barolo foi inaugurado em 1923 e nunca recebeu as cinzas do poeta). Último detalhe: a abertura ocorreu em 7 de junho, aniversário de Dante. Chame a polícia O antigo Ministério de Obras Públicas (Av. 9 de Julio, 1.925) tem o único monumento à propina do planeta, dizem os argentinos. Repare: a estátua parece pedir um dinheirinho.  

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