João Tavares/Divulgação
João Tavares/Divulgação

Espetáculo 'Paixão de Cristo' completa 50 anos

Peça pernambucana recebe milhares de pessoas na Páscoa

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

21 Março 2017 | 04h50

É no meio do sertão semiárido que um Jesus ocidentalizado caminha pelo Palácio de Herodes, rei de Israel, ao lado de seus sacerdotes. Sob um clima de tensão, recusa-se a irromper um milagre conforme o pedido do rei, que, irritado com a desobediência, manda o profeta de volta a Pôncio Pilatos, procurador de Roma. Nesse momento, o público se levanta e segue até o quinto dos nove palcos onde é encenada a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. É a hora do tão aguardado julgamento do protagonista, cujo final já é, sem dúvida, o maior spoiler de que se tem notícia.

Há 50 anos, essa mesma história, fruto de um conjunto de escritos bíblicos conhecidos como Novo Testamento, é contada sobre os palcos do Teatro Nova Jerusalém, na peculiar cidade de Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco. A cada edição, são cerca de 70 mil espectadores ao longo da curtíssima temporada – este ano, de 8 a 15 de abril.

“O que comemora 50 anos no Brasil?”, questiona, com orgulho, Robinson Pacheco, coordenador geral da Paixão de Cristo e presidente da Sociedade Teatral de Fazenda Nova. Apesar da temática, Robinson afirma que não se trata de um espetáculo religioso. “É um evento teatral, de cultura”, diz. 

Como tal, patrocínios – entre eles o da TV Globo, que transmite o espetáculo no Sábado de Aleluia –, nomes conhecidos no elenco, efeitos especiais, mudanças de figurinos e cenários e investimento em novas mídias estão na conta do sucesso. 

Seguindo uma constante, os principais personagens continuam sendo interpretados por rostos midiáticos. Este ano, Rômulo Neto será Jesus; Letícia Birkheuer, Maria; Adriana Biroli viverá Maria Madalena; Joaquim Lopes, Pilatos; Raphael Viana faz o vilão Herodes; Aline Riscado, Herodiades; e Jesus Luz, o apóstolo João. 

À frente da empresa que, sem fins lucrativos, monta o espetáculo móvel em nove palcos diferentes, espalhados pelos nada modestos 100 mil metros quadrados de área do Teatro Nova Jerusalém, o maior ao ar livre do mundo, Robinson Pacheco ajuda a coordenar uma equipe de 50 atores, 400 figurantes e centenas de outros profissionais responsáveis por contar, por 2h30, os últimos dias na vida de Jesus Cristo. 

Nas ruas. Antes de tomar as atuais dimensões, a Paixão de Cristo era encenada nas ruas de terra da vila de Fazenda Nova, em Brejo da Madre de Deus, sob o nome de Drama do Calvário. Epaminondas e Sebastiana Mendonça, avós de Robinson Pacheco, foram os mentores da peça. “Minha avó gostava muito de teatro, de arte”, diz, enquanto o avô, comerciante, viu na ideia uma chance de atrair gente à cidade e, com isso, movimentar o comércio.

E não é só na coordenação do espetáculo que estão os traços da veia artística da família de Robinson. Para além de novos cenários e figurinos, as novidades de 2017 incluem a inauguração de dois monumentos logo na entrada do teatro. Um deles homenageia Plínio Pacheco, pai do diretor e mentor da Paixão de Cristo e do Teatro Nova Jerusalém; e seu fiel companheiro, o operário Cazé, que por 40 anos trabalhou e ensinou a arte de transformar pedra bruta em angular para erguer o espaço. O outro é uma réplica de Pietà, da obra-prima de Michelangelo. mas com os rostos de Diva e Luiz Mendonça, mãe e tio de Robinson, que viveram por anos os papéis de Maria e Jesus na época da Fazenda Nova.

Além do espetáculo. A 200 quilômetros do Recife, Brejo da Madre de Deus ganhou fama por causa da visibilidade da Paixão de Cristo, é verdade. Mas a pequena cidade no agreste nordestino, de aproximadamente 48.500 habitantes, reserva outras peculiaridades e atrações que podem valer a passagem por ela, mesmo fora da Páscoa, a começar pelo próprio Teatro Nova Jerusalém, aberto à visitação durante o ano inteiro.

No centro histórico, além de casarios do século 19 e igrejas que remontam ao século 18, quando Brejo da Madre de Deus foi povoado por portugueses, encontra-se ainda o Museu Histórico da cidade, com acervos arqueológicos e paleontológicos. O espaço está em reforma, mas, segundo a irmã de sua fundadora e atual responsável pelo atendimento do espaço, Dona Margarida, a previsão é reabrir em junho deste ano – mas ela pede, por via das dúvidas, para confirmar no 81-3747-1259.

NÃO PERCA:

1. Teatro Nova Jerusalém. O local onde o espetáculo é encenado em nove palcos está aberto à visitação o ano todo. Fora da época das encenações, é possível percorrer todo  o espaço, uma verdadeira cidade murada e cheia de colunas.

2. Caruaru. A cidade que se intitula dona do “maior São João do mundo” está a apenas uma hora dali. Durante a época dos festejos juninos, é possível juntar os dois programas em uma mesma viagem.

3. Sítio arqueológico Furna do Estrago. Na necrópole pré-histórica foram encontrados, na década de 1970, objetos cerâmicos e de madeira, joias e ossos humanos de povos primitivos que viveram na região. 

4. Em meio à natureza. Tanto a Serra do Ponto, que serviu de cenário para O Auto da Compadecida (2000), quanto a Mata do Bitury são ideais para praticar rapel ou trekking, fazer trilhas e até acampar.

SAIBA MAIS

Ingresso. De R$ 100 a R$ 140; novajerusalem.com.br.

 

Onde ficar. Destaque para a Pousada da Paixão, dentro da cidade-teatro. Ela é toda temática: na Arena dos Centuriões funciona o salão de jogos; na Arena dos Gladiadores, os campos esportivos; a área da piscina e da sauna funciona na Termas de Herodes; e o restaurante Recanto da Ceia serve o jantar da Santa Ceia e coquetéis batizados – porque ninguém é de ferro - de Prazeres de Herodes e Pura Paixão. Há pacotes especiais para a Páscoa e São João, por exemplo. O da Páscoa inclui ingresso para um dia de espetáculo e, no segundo dia, o hóspede pode participar como figurante da peça – para as datas que ainda restam, a diária mais em conta sai por R$ 3.300 duas diárias para o casal, incluindo traslado desde o aeroporto e pensão completa.

 

Como ir. Para abril, o trecho direto SP – Recife – SP sai por R$ 600 na Gol e R$ 889 na Avianca. A cidade-teatro está a 200 km do Recife. De lá, as opções são alugar um carro ou contratar um receptivo, como a Lucky, que de 8 a 15 de abril terá saídas diárias para o teatro partindo do Recife e de Porto de Galinhas por R$ 88 por pessoa.

Pacotes. CVC é parceira oficial do espetáculo e oferece um pacote de 4 noites com saída em 12 de abril e hospedagem no Recife. A partir de R$ 1.658 por pessoa, em apartamento duplo, com café, traslado, ingresso e city tour.

Site. novajerusalem.com.br.

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