Russ Juskalian/NYT
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Esquis nos pés para ver a aurora boreal

"Senhoras e senhores, as luzes do norte estão acesas", anunciou um dos integrantes do nosso grupo, quebrando a preguiça de fim de tarde. Havia sido um longo dia de esqui, mas a mensagem nos estimulou. Em um segundo, o barulho das roupas de neve sendo vestidas tomou conta do chalé e, em seguida, o ar do Ártico já batia em nossos rostos.

RUSS JUSKALIAN / AKASLOMPOLO , NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2013 | 02h07

Caminhando pela neve, estiquei minha cabeça para o céu. Linhas verdes brilhantes se arqueavam para além das silhuetas dos esguios pinheiros. O efeito era algo como redemoinhos de plânctons fosforescentes ampliados um bilhão de vezes. Horas mais tarde, voltando para o chalé - depois de encontrar caçadores de aurora boreal -, quase tropecei em uma rena. Acho que ainda estava atordoada com a magia da Lapônia, essa região finlandesa composta por densas florestas, lagos e montanhas.

Éramos sete na viagem, cuja base seria a pequena cidade de Akaslompolo, 150 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. A sugestão de uma amiga finlandesa era alugar um chalé de madeira com saunas quentinhas, para sermos logo infectados com a loucura da Lapônia, "que fará você voltar de novo e de novo".

A loucura começou, de fato, no trajeto até lá: 13 horas em um trem noturno de Helsinque até Kolari, estação mais ao norte da Finlândia. Pela janela, um borrão de branco puro tomava conta da paisagem. De Kolari, menos de uma hora de ônibus nos levou a Akaslompolo.

As primeiras escavações sugerem que esta parte da Lapônia foi habitada há mais de 11 mil anos por ancestrais do povo indígena sami, que ainda vive nas regiões nórdicas do país. Hoje, Yllas é paraíso de inverno de esquiadores cross-country, com 320 quilômetros de pistas.

Multicolorido. A primeira coisa que notei na Lapônia foi a luz, em tons pastéis de verdes, azuis, rosas e roxos. O sol, que nunca se aventura acima do horizonte na primavera, consegue lançar longa luz durante a manhã e à tarde. Diz a lenda finlandesa que as luzes são formadas por uma gigante raposa do Ártico que corre tão rápido que sua cauda bagunça as plumas de neve das colinas, fazendo-as brilhar no céu noturno. Uma explicação inacreditável para um fenômeno inacreditável que, de alguma forma, é real.

Em nossa primeira tarde ali, deixamos o chalé já com esquis nos pés. Ainda não eram 16 horas e o amarelo do meio-dia já havia dado lugar aos roxos. Tivemos lições básicas do esqui cross-country, mas nos maravilhamos é com a paisagem. A beleza perturbadora do lugar era um perigo recreativo. Fiquei esperando Papai Noel (ou o Abominável Homem das Neves) emergir da neve. Talvez fosse minha falta de foco na aula de esqui, ou meu olhar à deriva nas transações das cores do céu. O fato é que, após subir até uma iluminada pista, rumei ladeira abaixo e "beijei" um morro. A dolorosa queda se tornou o primeiro souvenir da Lapônia.

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