Umit Bektas/Reuters
Umit Bektas/Reuters

Estaleiro em Aliaga, aonde os navios de cruzeiro vão para morrer

Por conta dos prejuízos causados pela pandemia do novo coronavírus, empresas estão reduzindo suas frotas e vendendo as embarcações para a sucata

Ceylan Yeginsu, The New York Times

02 de novembro de 2020 | 13h01

Ao longo da sinuosa península industrial de Aliaga, na costa turca do Mar Egeu, as entranhas de navios destruídos se espalhavam pela estrada empoeirada, dispersas entre montes de botes salva-vidas alaranjados que de tão altos obscurecem a cena dramática que se desenrola no estaleiro mais adiante.

Ali, cinco gigantescos navios de cruzeiro se amontoam numa enseada lamacenta, enquanto centenas de trabalhadores lascam seus cascos e proas, expondo a intrincada anatomia de embarcações que transportavam milhares de pessoas ao redor do mundo. Agora, como a pandemia do novo coronavírus continua a devastar a indústria de cruzeiros, as empresas estão reduzindo suas frotas e vendendo os navios para a sucata.

“Nunca vimos nada assim”, disse Kamil Onal, presidente da Associação de Recicladores de Navios da Turquia. “Antes da pandemia, desmontávamos principalmente navios de carga, mas agora este virou o destino dos navios de cruzeiro, depois de meses parados, sem passageiros”.

Entre os navios que estão sendo reciclados em Aliaga estão três navios de cruzeiro da Carnival – Inspiration, Imagination e Fantasy, que acabaram de ser reformados em 2019. A maior empresa de cruzeiros do mundo informou um prejuízo de US $ 2,9 bilhões no trimestre encerrado em 31 de agosto e anunciou que iria aposentar treze dos navios mais antigos e menos eficientes de sua frota global.

A operação de desmantelamento de navios é uma evidência de quão profundamente a covid-19 prejudicou a indústria global de cruzeiros, avaliada em US$ 150 bilhões. Após a ampla divulgação de surtos em navios de todo o mundo, em 14 de março os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) emitiram uma ordem de proibição de embarque para todos os cruzeiros nos Estados Unidos, deixando cerca de 350 embarcações ociosas em águas abertas ou em portos.

A ordem deve expirar no sábado, pois a Casa Branca interveio para impedir que fosse prorrogada até fevereiro. Mas o CDC recomenda que os viajantes adiem todas as viagens de cruzeiro em todo o mundo.

“Os passageiros de cruzeiros correm um risco maior de transmissão de doenças infecciosas de pessoa para pessoa, incluindo a covid-19, e surtos de covid-19 foram relatados em vários navios de cruzeiro”, disse a agência.

Os surtos ocorreram em navios que haviam retomado as operações na Europa, com exigência de exames e protocolos de saúde intensificados. Oito pessoas a bordo do Costa Diadema testaram positivo para o coronavírus no início deste mês.

A Costa Cruises, que faz parte da Carnival Corp., disse que o incidente mostrou como seus protocolos de segurança foram eficazes, permitindo-lhes detectar e gerenciar com segurança os casos positivos antes do embarque e durante o cruzeiro. Todas as grandes empresas de cruzeiros com capacidade para transportar mais de 250 passageiros se comprometeram a exigir um teste negativo antes do embarque, quando a ordem de proibição de embarque for suspensa, de acordo com a Associação Internacional de Cruzeiros, o grupo comercial do setor.

Pedaço a pedaço

Uma cacofonia de batidas, estrondos e chiados metálicos engolfa o estaleiro enquanto os navios são destroçados de convés a convés, com as paredes das cabines arrancadas e as atrações – academias, teatros, boates – desmontadas em pedaços e carregadas fora da embarcação.

Quase 2 mil trabalhadores foram contratados para retirar dos cinco navios de cruzeiro máquinas, equipamentos eletrônicos, vidro, madeira e outros materiais que podem ser reutilizados ou reaproveitados.

“Tudo é retirado, peça por peça, da lâmpada ao piano, da piscina ao campo de golfe”, disse Onal, olhando pela janela de seu escritório para um grupo de trabalhadores que cortava chapas de metal. “É uma tarefa gigantesca, que levará até oito meses para cada navio, e eles continuarão trabalhando até não sobrar mais nada”.

Ele apontou para uma armação de aço boiando para cima e para baixo na água – os restos de uma sala de máquinas de um navio de carga. “No fim, é assim que os navios de cruzeiro vão ficar”, disse ele.

Depois de uma análise intensiva, o grupo Carnival Cruise disse que selecionara duas instalações de reciclagem de navios na Turquia para desmantelar seus navios devido ao histórico de conformidade com os acordos ambientais nacionais e internacionais, entre eles a Convenção Internacional de Hong Kong para a Reciclagem Segura e Ambientalmente Adequada de Navios. Onal disse que também havia um incentivo financeiro, uma vez que as empresas de reciclagem turcas fizeram uma oferta melhor do que outras instalações globais de reciclagem de navios, mas nenhuma das partes revelou quanto o estaleiro pagou.

O estaleiro venderá mais de 1,1 milhões de toneladas de aço que espera retirar dos navios até o final do ano.

O conteúdo dos navios desmantelados é muito procurado por mercadores de antiguidades e colecionadores particulares da região, que têm feito ofertas para os itens mais valiosos.

“Não dê muita atenção à aparência dos navios do lado de fora”, disse Noyan Yurttas, coproprietário da Iskele Marine, uma loja de antiguidades náuticas em frente ao estaleiro. Ele estava se referindo aos cortes gigantes arrancados do casco dos navios. “Lá dentro tem um baú de tesouros”.

Hotéis e empresas compraram a maior parte dos móveis dos navios, como mesas, cadeiras e acessórios para quartos, disse Yurttas, mas os mercadores de antiguidades estão de olho nas luminárias barrocas e nos guarda-roupas que pesam quase 45 quilos.

“Feito um bando de lobos”

Fotos e vídeos do desmantelamento dos navios vêm circulando nas redes sociais e, para os entusiastas dos cruzeiros, é difícil de assistir, mesmo à distância. Aos 30 anos, o Carnival Fantasy é o navio mais antigo da frota da Carnival Cruise e era popular entre os idosos por ser menor e mais aconchegante.

Derek Watson, 69 anos, ávido viajante de cruzeiros de Liverpool, no norte da Inglaterra, fez seu primeiro cruzeiro pelo Caribe a bordo do Fantasy. Ele disse que esses navios icônicos vão ser aposentados em breve, mas que os fãs dos navios deveriam ter permissão para fazer passeios ou reservar excursões finais antes de serem desmantelados.

“É muito triste que esses navios estejam sendo desmontados antes de uma última salva de palmas”, disse Watson. “É difícil ficar otimista e animado com os futuros cruzeiros quando tantos estão sendo aposentados ao mesmo tempo”.

É difícil prever quando exatamente esses futuros cruzeiros vão zarpar. A Royal Caribbean Cruises, outra das maiores empresas do setor e que também enviou dois navios para serem reciclados em Aliaga este ano, uniu-se à Norwegian Cruise Line Holdings e a um painel de especialistas médicos para estabelecer medidas de segurança que permitiriam a retomada das viagens de cruzeiro.

No mês passado, o painel apresentou uma lista de 74 recomendações detalhadas ao CDC, incluindo testes, redução de capacidade, proteções faciais e procedimentos de limpeza aprimorados. Os executivos disseram estar confiantes de que os cruzeiros podem voltar com segurança se todos os protocolos de saúde e segurança forem aplicados.

Mas os casos a bordo do Costa Diadema surgiram apesar dos testes, depois que os passageiros fizeram excursões terrestres nas ilhas gregas. Os viajantes ficaram assintomáticos e os resultados deram positivo quando eles voltaram para a Itália.

O otimismo dos executivos que querem se recuperar da crise está em conflito com o cenário de destruição e destroços no estaleiro Aliaga. Onal disse que espera que mais navios de cruzeiro cheguem nos próximos meses.

“Há muita procura. Temos um ano agitado pela frente”, disse ele. / Tradução de Renato Prelorentzou

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.