Felipe Rau/Estadão
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Eu era feliz em julho

Descer para a praia, passar a tarde inteira no PlayCenter ou apenas dormir até mais tarde

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 04h00

Apesar das notas vermelhas do boletim e a promessa de um dezembro turbulento, eu era feliz em julho. 

Não precisava acordar com “o pulo do gato” e me enfiar debaixo de uma ducha fria, eu era feliz em julho.

Um mês para sonhar com a garota que nunca me deu bola em sala de aula, eu era feliz em julho.

A expectativa de descer para a praia, de ir para o interior de Minas Gerais ou de passar uma tarde inteira no Playcenter, eu era feliz em julho.

E quando na praia, pegar jacaré, caçar conchinhas e cavar buracos até o Japão, eu era feliz em julho.

Dormir até mais tarde e assistir Sala Especial escondido, eu era feliz em julho.

Depois das cinco, bolo de fubá com cobertura de chocolate, eu era feliz em julho.

Receber parentes distantes no aeroporto como quem recebe a comitiva papal, eu era feliz em julho.

Ir ao cinema em plena sexta-feira, com balde de pipoca e Coca-Cola, eu era feliz em julho.

Horas jogando War, Banco Imobiliário e Detetive, eu era feliz em julho.

Ralar o joelho durante o futebol (mesmo sendo o pior goleiro que já passou pelo playground do meu antigo prédio), eu era feliz em julho.

Bicicleta na calçada, bem na frente da escola fechada, eu era feliz em julho.

Guerra de mamona no pátio do prédio, campeonato de taco e de xixi à distância, eu era feliz em julho.

Passear com a mãe no centro da cidade, subir o elevador do Mappin e depois comer no McDonald’s, eu era feliz em julho.

O primeiro golinho na cerveja do pai (mesmo sendo ruim, era bom), e eu era feliz em julho.

Jogo de botão sozinho, desenho na TV Manchete e luta livre na Record, eu era feliz em julho.

Tardes na casa da vó que me ensinava a fazer barulho de pum assoprando as costas da mão, eu era feliz em julho.

Fazer fita cassete com músicas gravadas direto da Transamérica, eu era feliz em julho.

Quando eu decidi que jamais teria medo de avião (embora tivesse pavor de carro), eu era feliz em julho.

Horas na banca de jornal namorando os gibis da Marvel (e o sonho secreto de ser jornaleiro), eu era feliz em julho.

Descer por trás, e sem pagar, no ônibus (e se achar o malandrão), eu era feliz em julho.

A primeira vez longe de casa, acampamento, expectativa de beijo que bateu na trave, eu era feliz em julho. 

Ouvir a conversa dos pais sobre falta de grana, aluguel e boletos; e, basicamente, não entender nada sobre aluguel e boletos, e eu era feliz em julho. 

Aquela certeza, vinda de lugar nenhum, de que ainda seriam muitos julhos, e eu era feliz em julho.

Tudo aquilo que eu ainda não sabia, tudo aquilo que eu não sabia que queria, tudo aquilo que nem sequer era projeto, eu era feliz em julho.

E quando o mês chega e eu vejo os meus amigos comemorando as férias das crianças.

E quando o mês chega e eu vejo os meus amigos lamentando as férias das crianças.

Casas cheias, brinquedos pela sala, marcas de mãos sujas nas paredes brancas.

O cheiro de comida, o sofá ocupado, cada um com o seu prato e o seu futuro.

Todo mundo pode ser feliz em julho.

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