Arte/Estadão
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'Eu só queria formar uma família'

Você está acostumado a ler aqui minhas histórias de viagens. Hoje, peço licença para contar a história da Tatiane*

Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

08 Março 2018 | 03h00

Geralmente você lê sobre minhas histórias de viagem aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Tatiane*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida - se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos - homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Foi tudo muito rápido. Era pra ser algo sem compromisso, um caso de uma noite, mas acabei me deixando envolver e logo ele veio morar na minha casa. Eu já tinha um filho do primeiro casamento - casei muito nova, aos 17 anos, e meu primeiro marido não era muito carinhoso. Eu queria mais. 

André* era muito atencioso no começo, me tratava bem. Às vezes, do nada, tinha um rompante de ciúmes. Ele se transformava completamente, mas eu achava que tinha controle da situação e quando quisesse daria um basta nisso. Afinal, eu queria ter um segundo filho - fui filha única e tinha apenas minha mãe como família. Quando ela morreu eu estava com 25 anos e não tinha mais ninguém. Queria dar um irmão ao meu filho para que ele não ficasse sozinho, como eu. 

A primeira vez que os insultos verbais se transformaram em violência física foi durante uma discussão. Estávamos brigando no quarto, eu deixei ele falando sozinho e sentei no sofá da sala. Foi então que ele me pegou pelos cabelos, me arrastou de volta para o quarto e me jogou na cama, dizendo: “Você vai ficar aqui e ouvir o que tenho para falar”.

O tempo foi passando e a violência, aumentando. Se eu desviasse o olhar quando ele falava, já era motivo para um tapa. André tinha ciúmes até do meu filho, achava que ele passava recados do meu ex-marido e que eu queria voltar com ele.

A primeira denúncia. Foram muitas idas e vindas, muitas promessas de que ele iria mudar, e, em uma dessas voltas, acabei engravidando. Achei que seria uma prova do meu amor, que assim André perceberia que eu não queria voltar com meu ex-marido e seríamos felizes. Não percebi que assim dava ainda mais poder a ele sobre mim.

Durante a gravidez, as agressões diminuíram. Mas, depois que minha filha nasceu, ficou ainda pior. Eu ia trabalhar toda roxa, com vergonha dos meus colegas e dos meus vizinhos. Todo mundo sabia o que estava acontecendo.

A primeira denúncia que fiz contra ele na delegacia foi quando minha menina tinha 11 meses, em 2014. Ele me bateu, jogou meu celular no chão. Peguei então o celular do meu filho pra ligar pra polícia, e a partir daí ele ficou com ainda mais raiva do meu filho.

A polícia veio e fomos nós dois para a delegacia, juntos. Ele ficou o tempo todo com minha filha no colo, me ameaçando. Contei minha versão para o delegado, mas na hora de assinar o Boletim de Ocorrência, a versão que estava escrita era a dele. O B.O. foi registrado como “violência mútua”, e não com base na Lei Maria da Penha. André contou que eu estava descontrolada, arranhei ele, e, para se defender, ele me atirou contra a parede. Eu estava lá com um galo enorme na cabeça, toda machucada, e quando vi aquilo me desesperei, comecei a gritar e a xingar. O delegado apoiou meu marido: “Realmente, sua mulher é descontrolada. Pegue a guarda da sua filha”.

Levou a filha. Esse episódio deu ainda mais força a ele. Ele levou minha filha para a casa da mãe dele, e eu fiquei em casa sem nada. Ele ficava com o meu cartão do banco e com todo o dinheiro do meu trabalho. Faltava pouco para minha filha fazer um ano, e eu não queria estar longe dela. Me humilhei, fui até lá, e ele disse que voltaria com ela para casa se eu concordasse com uma série de coisas. Concordei para não ficar longe dela. A partir daí, cada vez que ele me batia, dizia: “Liga lá pros ‘coxinhas’ (policiais), você já viu que não vai adiantar nada”.

Perdi completamente o controle da minha vida. Na hora do almoço, ele ia me buscar no trabalho para comer com ele em casa, e depois me levava de volta - eu não podia ver, falar com ninguém. Meu filho acabou saindo de casa para morar com a família do meu ex-marido. Fiquei totalmente nas mãos do André.

Sentia que estava presa num labirinto, e cada vez que tentava sair me perdia ainda mais.

Círculo vicioso. Entrei num círculo vicioso. Quanto mais ele me batia, mais fria eu ficava com ele, e ele me batia ainda mais porque dizia que eu estava fria porque tinha outro homem. Fui ficando sem forças.

Só tive coragem para voltar a denunciá-lo no ano passado. Ele me batia cada vez mais, sem se preocupar em deixar marcas. A violência psicológica também era grande. André  passou a me mostrar vídeos de espancamento de mulheres no celular. Dizia que era muito fácil matar alguém, e sempre que passava algum caso na TV de violência contra alguma mulher, fazia questão de dizer que o marido estava com a razão. 

O problema é que minha filha estava presenciando tudo aquilo, e isso afetou o comportamento dela. Ela hoje tem 4 anos, e ele a estimulava a me xingar: “Fala que a sua mãe é p…”. Isso acabava comigo, me deixava ainda pior. 

Decidi fazer outra denúncia quando, em uma das brigas, ele deu um pau para minha filha bater em mim. Ele já tinha me batido com vários objetos, mas foi nesse momento que percebi: tinha chegado ao fundo do poço e preferiria morrer a continuar naquela situação.

Nesse dia, fui três vezes à delegacia - os policiais não queriam me acompanhar até em casa. Faziam a ocorrência e me mandavam embora. Cada vez que eu voltava para casa, apanhava mais, e ia novamente na delegacia mostrar o que tinha acontecido comigo. Na última vez, estava com um corte na cabeça que sangrava muito, e daí os policiais se assustaram. Finalmente me acompanharam até em casa e levaram o André preso. 

Final feliz? Ainda não tenho um final para essa história, e não sei se ele pode vir a ser feliz. Meu marido foi solto em menos de 24 horas, voltou para casa, tirou minha filha de mim e levou para a casa da mãe dele. Neste momento, estou nas mãos da Justiça: espero que o oficial vá até lá para me devolver a guarda da menina. Mas tenho medo que, antes disso, ele desapareça com ela.

Não consegui alcançar meu sonho de formar uma família. No fim das contas, tenho dois filhos únicos. Meu filho hoje tem 17 anos, e nossa relação ficou muito estremecida, ele se afastou de mim por causa da violência do André.

Aos poucos, começo a tentar retomar minha vida. Não sabia mais conversar, nem olhar direito para as pessoas. Tinha medo, vergonha, tudo. Agora, quero me reencontrar.

Às vezes me pergunto como deixei as coisas chegarem a esse ponto. Eu tinha uma vida tão boa, tinha um emprego, estudei, tinha um carro, uma casa que minha mãe deixou pra mim.

Resolvi contar minha história para servir de exemplo. Para que as mulheres sejam ouvidas nas delegacias, para que elas sejam ouvidas na Justiça. Às vezes, parece que ninguém quer prestar atenção, ninguém quer ouvir, ninguém dá importância. Mesmo na Delegacia da Mulher.

Resolvi falar também para que todas as mulheres prestem atenção aos sinais, às pequenas violências  do dia a dia que, muitas vezes, não queremos enxergar. Aos gritos excessivos, às mudanças de humor, às palavras duras, à raiva desproporcional. Pode parecer pouco no começo, mas, acredite: é um sinal que as coisas podem piorar. Dê um basta enquanto há tempo.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*Os nomes foram trocados para proteção da vítima

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