Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

Évora, um patrimônio para sorver devagar

Uma cidade-museu protegida por muralhas e Patrimônio Mundial da Unesco

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 04h30

ÉVORA - Teve pastel de nata e queijada, dois típicos doces conventuais, logo no primeiro café da manhã em Évora. Muito adequado para o ambiente: o restaurante da Pousada dos Lóios distribui suas mesas pelo claustro do antigo Mosteiro de São João Evangelista, transformado em hotel e elevado à condição de monumento nacional. 

Por esta e outras relíquias do centro histórico, Évora é Patrimônio Mundial da Unesco. Uma cidade-museu protegida por muralhas e por onde passa o Aqueduto da Água da Prata, da primeira metade do século 16. Que preserva, em meio à arquitetura medieval portuguesa, um templo romano do século 1.º, o Templo de Diana. E onde é possível ver diante da principal igreja católica, a Catedral de Nossa Senhora da Assunção, o ramo de oliveira, a cruz e a espada que formam o brasão da Inquisição, esculpido na parede de uma casa.

A Praça do Giraldo é o marco zero de Évora e endereço do centro de informações turísticas. As ruas têm calçamento de pedras, e algumas são tão estreitas que certos modelos de carros não passam. Residências são identificáveis pelos varais de roupas pendurados fora das janelas. Muitos imóveis são ocupados por lojas e restaurantes. 

Na Igreja de São Francisco, a Capela dos Ossos tem 5 mil crânios incrustados nas paredes, fora os demais ossos humanos, formando um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. Os monges que criaram o lugar ainda acharam que a ideia precisava de legenda, e assim, sobre a entrada, colocaram a inscrição “nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Sobra para os guias de turismo tirarem a má impressão, com a informação de que o objetivo da capela é lembrar a fragilidade da vida. É uma tentativa. 

 

Bebe-se. A Adega Ervideira tem uma herdade a 30 quilômetros do centro de Évora. Mas é possível degustar seus vinhos no centro histórico, na loja da marca. A Ervideira foi a primeira adega a fazer espumantes no Alentejo. Tem um vinho branco, o Invisível, que é absolutamente transparente, mas todo feito com uvas tintas. E outro, o Conde d’Ervideira, tinto, cujo envelhecimento em garrafa é feito em uma represa, a uma profundidade de 30 metros, por 8 meses. Duarte Leal da Costa, proprietário, é quem conta as histórias. O povo do vinho pode ser cheio de manias, afinal. 

A 2 quilômetros do centro de Évora fica Quinta de Valbom, extensão do Mosteiro da Cartuxa, onde se produz um dos vinhos portugueses mais conhecidos no Brasil. Trata-se do conceituado Pêra-Manca tinto, feito com as uvas aragonez e trincadeira, apenas nos anos de safra excepcional. No Brasil, uma garrafa de 2011 custa mais de R$ 2 mil.

A Cartuxa é uma marca da Fundação Eugenio de Almeida, organização social que dedica metade dos lucros a projetos de educação e cultura. Além dos vinhos, a fundação produz cortiça, legumes, cereais e azeite.

Uma das etapas da visita turística, feita no prédio de 1580, consiste em treinar o olfato para perceber a complexidade dos aromas do vinho, por meio de essências aplicadas em tiras de papel, como se faz com perfumes. Visitas custam de  5 euros a 30 euros por pessoa e incluem degustação – sem Pêra-Manca tinto, claro. 

Come-se. O restaurante Piparoza (Alcarcova de Baixo, 23; 351-266-709-517) é um salãozinho com menos de dez mesas onde nenhuma entrada custa mais de 7 euros e o prato principal mais caro sai por 20 euros. O cardápio enxuto tem pataniscas de bacalhau, que são uns bolinhos achatados e fritos, e arroz de pato. A carta de vinhos é uma das poucas em Évora que oferecem rótulos de outras nacionalidades. Mas precisa? 

No excelente Fialho, decorado com prêmios, diplomas, pratos, garrafas e várias outras quinquilharias, além de provar a sopa de cação com coentro – cação de coentrada –, foi possível experimentar o tinto Herdade Perdigão Reserva 2014.

MAIS SOBRE VINHOS

1. Nativas

Portugal tem cerca de 300 castas de uvas autóctones, ou seja, nativas – ou indígenas, como são chamadas no país. A touriga nacional, considerada a mais portuguesa das uvas, também é largamente cultivada no Alentejo.

2. Da gema 

Mas as uvas alentejanas da gema são as brancas antão vaz, roupeiro e arinto, e as tintas aragonez, trincadeira e alicante bouschet.

3. DOC 

São oito as Denominações de Origem Controlada (DOC) regulamentadas para o vinho alentejano: Borba, Évora, Granja-Amareleja, Moura, Portalegre, Redondo, Reguengos e Vidigueira.

4.  Preços 

Em Portugal, há vinhos de boa qualidade por 5 euros. Bons vinhos custam até 10 euros, e os excelentes, até 20 euros. A dica é de Isabel Bastos, da Quinta Dona Maria. 

5. Regional 

As garrafas também podem receber o selo de Vinho Regional Alentejano, categoria menos rígida em relação às castas admitidas nos cortes, que permitiu a certificação de produtores além das oito sub-regiões.

6. Consumo 

O Alentejo consome localmente quase metade do vinho que produz: 44,7% são bebidos na própria região. Fora da União Europeia, o Brasil é o segundo maior consumidor de vinhos do Alentejo no mundo, atrás de Angola.

7. Free shop 

Não deixe para comprar vinhos no aeroporto de Lisboa. A falta de variedade é decepcionante; apesar disso, os preços pouco diferem dos das adegas. Vale para presentes de última hora.

 

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