Aryane Cararo/AE
Aryane Cararo/AE

Explorando o sul da Índia

Ainda pouco visado pelo turismo, o Estado de Karnataca exibe a face mais autêntica do país, onde moradores pedem para posar com visitantes e as paisagens têm contornos rurais.

Aryane Cararo,

21 Novembro 2011 | 23h00

BANGALORE - Giro o caleidoscópio de lembranças da viagem ao sul da Índia. Saris coloridos bailam na retina. Delicadas sedas voam nos verdes campos de arroz, turbantes rijos desfilam pastoreando cabras. Há flores nos cabelos, pescoços, calçadas. Suaves jasmins que se misturam à força dos sândalos e do curry. Odores que fisgam os sentidos. Especiarias que queimam a garganta e perfumam os mercados. Bazares multicolores de pétalas, joias e tilaks, o pigmento para o terceiro olho. Visões de templos amarelos, vermelhos, cinzas, e seus dançarinos e deuses de pedra. Há fogo e devoção. Há água, no rio que lava o corpo, a alma e as roupas. Há incenso e música. Os sons dos mantras e das buzinas misturados em franca melodia. E há sorrisos, centenas, que se multiplicam nos espelhos das memórias e me fazem sorrir.

 

Cores, ruídos e sabores. O estado de Karnataka poderia ser definido assim. E nessa imensidão de conceitos ainda seria vago. Porque a Índia são as pessoas. E não entendê-la pelo seu povo é não se conectar com esse mundo antigo, belo e espiritual. É não absorver sua essência, que aparece primeiro nos olhos das crianças - pequenas jabuticabas a fitá-lo, que ora se aproximam tímidas, ora correndo. Algumas com celulares. Perguntam seu nome, sua origem. Querem ter seu retrato. Ao sinal de aprovação, chamam para a foto pais, tios, primos e avós, que logo o convidam para conhecer suas casas.

 

Mesmo que não dominem o inglês, e você não saiba kanadda ou hindi, usarão uma linguagem universal: o sorriso. Vão sorrir um sorriso largo e tão primitivo de quando não havia palavras para separar ou unir. É uma troca, das mais sinceras. Eles saem felizes, com a lembrança do estranho espécime ocidental. Você também, com mais uma imagem para seu caleidoscópio.

 

 

Talvez isso só seja possível numa região não muito globalizada e sem hordas de turistas estrangeiros como o norte, onde estão Nova Délhi e Agra (Taj Mahal). E por mais que Karnataka tenha 50 milhões de habitantes e sua capital, Bangalore, seja o Vale do Silício indiano, basta sair do miolo tecnológico para visualizar uma Índia mais rural, virgem e autêntica. Sem perder a atratividade.

 

Nela estão dois patrimônios da Unesco (Hampi e Pattadakal), templos e palácios ricamente adornados, persistem tradições culturais e religiosas bem peculiares, resistem reservas florestais e perfila-se um litoral de 320 quilômetros quase inexplorado. "Um Estado, muitos mundos", diz o slogan oficial. Faz jus.

 

E eu digo: um destino, duas viagens. Uma de paisagens e cenários, outra de peregrinação interior. Ir para a Índia é transformador. Na terra onde os homens sempre foram atrás de especiarias e joias, a melhor essência para se trazer de volta é a do ser humano, a sua e a do outro. É como dizem os hinduístas: o deus que está em mim reconhece e saúda o deus que está em você. Ou apenas, namaskar!

 

BANGALORE - Sinfonia de buzinas no Vale do Silício indiano

 

Uma placa define bem Bangalore: em obras. A capital de Karnataka, que se orgulha de ter uma das maiores taxas de crescimento econômico da Índia, é o reflexo dessa efervescência. Muitos prédios e viadutos em construção, ruas sendo pavimentadas, areia e brita. A cidade que é considerada o Vale do Silício indiano concentra muitas empresas de TI (tecnologia da informação) e foi berço de gente como Sabeer Bhatia, cocriador do Hotmail. Abriga também quase todas as especialidades médicas do mundo.

Resultado disso são hotéis de luxo, edifícios modernos e o maior número de voos do sul - ao menos 16 companhias internacionais operam lá. É a mais globalizada cidade, com shopping center, lojas Benetton e Levi’s, McDonald’s, e Coca-Cola e Pepsi até em simplórios armazéns.

 

Mas não se engane: Bangalore não é a Califórnia. Nela, os cartazes dos filmes são de Bollywood e há um trânsito tão poluído e caótico quanto se pode supor, com toda sorte de carros, motos, bicicletas, tuc-tucs, tratores, caminhões, ônibus e animais. As ruas têm duas faixas, mas os motoristas inventam três ou quatro. "Na maior parte do mundo, a mão correta de direção é à direita. Na Inglaterra, é à esquerda. E na Índia, no meio", brincou um guia. Ressalva seja feita: os acidentes são mais raros do que se espera, o que faz crer que os indianos são os melhores e os piores motoristas do mundo.

 

Pendurados nesses veículos, de portas abertas, vão indianos espremidos. E permeando a confusão, desfilam quase 6 milhões de habitantes, muitos pelo meio da rua, já que as calçadas são poucas. Uma bagunça deselegante. Com sinfonia de buzinas para coordenar a confusão. Acredite: lá se encontram placas de "sound horn, please" (buzine, por favor).

 

Porém, nem tudo é bagunça. Bangalore cuida para preservar o que lhe rendeu o apelido de Cidade Jardim. O Lalbagh Gardens, com uma casa de vidro que imita o Crystal Palace de Londres, o Cubbon Park, a sede do poder legislativo (Vidhana Soudha) e o palácio de Tipu Sultan são pontos sugeridos de visitação. Entre os templos, o Bull Temple é o mais antigo e interessante, com seu monólito de Nandi, o touro do deus Shiva - erguido no século 16 a mando do fundador da cidade, Kempegowda.

 

Uma dica é evitar o Palácio de Bangalore, réplica do Castelo de Windsor construída pelo marajá de Mysore, Chamaraja Wodeyar, no século 19. Os preços da entrada mudam de acordo com o rosto do turista e perguntar encarece o tíquete. Não compensa o embaraço. Prefira passear pelas ruas comerciais, que vendem pashminas na calçada (US$ 2 a US$ 5) e lojas com artigos de prata a bons preços (tornozeleira, US$ 30 em média) e batas indianas (US$ 10 a US$ 15).

 

Bate-volta. Uma parada no caminho entre Bangalore e Hospet, onde ficam as ruínas de Hampi, é um alívio após três horas de viagem no tenso trânsito indiano. Melhor se ela envolver história. É exatamente o que ocorre em Chitradurga, cidade a 200 quilômetros de Bangalore que abriga um forte de mesmo nome, também chamado Palácio de Pedra. Uma das joias da arquitetura militar, construída entre os séculos 10 e 18.

 

Suas grossas paredes de pedras, que se mesclam à paisagem do morro em que está, abrigam 18 templos, um palácio, uma mesquita, celeiros, poços de petróleo e tanques para armazenar água da chuva. Tudo isso acessível por um de seus 19 portões e 38 entradas laterais - ou pelas quatro entradas secretas. E vigiado dos telhados pelos macacos de bonnet, espécie endêmica do sul da Índia.

 

O sítio arqueológico tem ainda mais um apelo: o homem-aranha indiano. Jyothi Raj escala paredões de pedras e montanhas usando apenas mãos e pés, sem equipamento de apoio ou segurança. Ele conta que descobriu a habilidade ao escalar andaimes, quando trabalhava na construção civil, e a aperfeiçoou observando os movimentos dos macacos e filmes de ação. É de prender o fôlego ver o rapaz de cabeça para baixo, como se tivesse cola nas mãos.

 

Esteja preparado também para ser a atração. Em nenhum outro lugar tantas câmeras de celulares me foram apontadas como em Chitradurga. É sua chance de tirar uma foto com mais de 50 indianos à volta.

 

HAMPI - Às margens do Tungabhadra, memórias de um passado glorioso

 

"A cidade é tal que a pupila dos olhos nunca viram um lugar assim, e os ouvidos da inteligência nunca foram informados de que existia alguma coisa igual no mundo." A frase foi dita no século 15 por um embaixador persa sobre Hampi, a capital do poderoso império Vijayanagar, no sul da Índia. Foi dita por muitos outros viajantes e mercadores, europeus inclusive, que nunca haviam visto tanta beleza e riqueza. Tomada, saqueada e destruída por muçulmanos na batalha de Talikota, em 1565, Hampi ficou em ruínas. E ainda que arruinada, é capaz de arrancar frases de assombro hoje. Não é por menos que o sítio arqueológico, a 315 quilômetros de Bangalore e 12 de Hospet, é Patrimônio Mundial da Unesco desde 1986.

 

Propagada como o maior museu ao ar livre do mundo, continua sendo um lugar ativo não só pelo turismo. O Virupaksha, templo de 1442 dedicado a Shiva, deus da destruição, ainda é usado para adoração. Sua torre principal, o gopuram, impressiona à distância: um arranha-céu de 53 metros no meio do nada. Dentro do complexo, sacerdotes realizam o puja diariamente, a cerimônia hindu para pedir bênçãos. É costume, no fim, passar pó de tilak na testa, um ponto (o terceiro olho) ou três linhas horizontais. Esse pó pode ser vermelho, de curcuma ou açafrão, de pasta de sândalo ou de cinzas. Por via das dúvidas, fuja da pasta branca, para não correr o risco de estampar cocô de vaca na testa, como eu fiz inocentemente. Se é verdade, não sei. Na dúvida, me contentei com o lado positivo: ao menos lá a vaca é sagrada.

 

E não só ela goza de boa vida. Macacos têm transito livre no templo. Se quiser fazer graça, compre bananas antes de entrar. Não para eles e sim para Lakshimi, uma elefante esperta que as pega delicadamente de sua mão. Ela também faz carinho com a tromba, mas, para isso, não cobra preço de banana: só aceita moedas! Nas primeiras horas do dia, você a encontra no Rio Tungabhadra, ao lado do templo, lançando jatos de água em que vai lá para tomar banho. Dá para assistir à farra da escadaria que conduz ao rio, não muito limpo. Lá estão homens de saruel branco, que brincam, às vezes de mãos dadas (é costume por lá), mulheres que entram de saris (o tecido de 5 metros que, enrolado, vira vestido) e crianças nadam despidas. Perto dali, outras mulheres lavam roupas vigorosamente. Uma cena que deve acontecer da mesma maneira desde o esplendor de Hampi, entre os séculos 14 a 16.

 

Hoje o Hampi Bazaar, área próxima ao templo, tem um pequeno, mas variado, comércio - com joias de prata, vestidos e batas de seda (a partir de US$ 6), sandálias de couro de camelo (por até US$ 15) e bugigangas. No passado, quando a cidade tinha 500 mil habitantes, atraía negociantes do mundo todo em busca de diamantes, ouro, rubi, pérolas, seda, cavalos, algodão e especiarias. Gente que se impressionava com os templos, palácios e extravagâncias dos Vijayanagar, que incluía estábulo para 11 elefantes e uma casa de banhos só para as rainhas, com piscina com flores.

 

Thirumala Devi, a rainha favorita de Shri Krishna Deva Raya, teve sua prova de amor em vida. O Lotus Mahal, em estilo indo-islâmico, é de uma elegância sem par, com arcos que lembram a lótus desabrochando. A arte e a habilidade arquitetônica se revelam também no complexo do Vittala Temple, com a Stone Chariot e o templo musical. A primeira é a carruagem de pedra de Vishnu, deus da conservação da vida (que também tem no sítio uma estátua de 7 metros, meio homem, meio leão). A outra é uma construção cujas pilastras são compostas por 56 pilares menores que, quando golpeados, ressoam notas musicais.

 

Dois dias são ideais para ver as 20 principais atrações (entrada a US$ 7). Com pressa e veículo disponível, dá para visitar as essenciais em um dia. Mas gostoso mesmo é ter tempo para fechar os olhos e imaginar a glória passada de Hampi, ou abri-los para contemplar a vida que segue no eixo do Rio Tungabhadra.

 

NA ESTRADA - Viajar de trem, só se for com padrão cinco-estrelas

 

O trânsito maluco, a relutância em pisar no freio, a preferência pelas buzinas e as estradas secundárias em condições ruins assustam quem viaja de uma cidade a outra de carro. Nesse cenário, o transporte ferroviário parece uma ótima opção na Índia. Ainda mais com distâncias longas e possibilidade de pernoite no trem. Mas nem tudo é o que parece, o ditado já avisa. Se você não faz o tipo aventureiro e não é mochileiro, o Golden Chariot é a única alternativa confiável.

 

Trem de luxo, padrão cinco estrelas, ele tem 44 cabines para até 88 passageiros. Sua intenção é recriar a pompa das viagens dos marajás - talvez não com o luxo de um Orient Express, mas ainda assim com muita ostentação para os padrões indianos.

 

Há dois itinerários possíveis, um para o norte de Karnataka e outro que vai aos Estados de Tamilnadu e Kerala. Ambos têm duração de 7 noites de uma ponta a outra. No primeiro, o trem percorre de Bangalore a Goa, com paradas em Mysore, Hassan, Hospet e Badami - destas cidades, é possível visitar templos, sítios históricos e parques de Hampi, Pattadakal, Halebid, Belur e Kabini. O segundo sai de Bangalore e chega a Kochi.

 

A vantagem é que, além de não enfrentar o trânsito, você não precisa fazer as malas para se deslocar pelas cidades. As cabines têm cama, TV e banheiro, mas são pequenas. Há microssalas de spa e academia, dois restaurantes e um lounge bar (diárias a partir de US$ 400, com refeição).

 

Não chegamos a testar o trem em viagem, apenas almoçamos em uma de suas paradas. O cardápio contempla poucas opções e a salada veio servida com filme plástico, como nos aviões. Mas havia banheiro no estilo "ocidental", com bacia sanitária, o que faz uma grande diferença.

 

Nos trens comuns, mesmo nos que você compra a passagem com direito à cama, os banheiros são coletivos e tratam-se de um buraco aberto no chão, com acesso direto aos trilhos, o que torna o odor nas estações insuportável - e aí está um problema no Golden Chariot: até entrar no trem, com ar-condicionado, você terá de circular por estes mesmos trilhos. Outra vantagem sobre o trem comum é que as cabines são fechadas com portas. Nos outros, há só cortinas para isolá-lo dos corredores e nenhum lugar para guardar as bagagens - e higiene não é um item relevante. Se quiser viajar de trem, não pense duas vezes.

 

MYSORE - A cidade dos marajás é limpa e tem o maior mercado aberto

 

Houve uma época em que Mahishasura, um demônio com cabeça de búfalo, governava Mysore. A população suplicava aos deuses que a salvasse do monstro. Sensibilizada, Parvati, a esposa de Shiva e mãe de Ganesha, renasceu como Chamundeshwari e matou a besta no topo de uma montanha, hoje conhecida como Chamundi.

 

A lenda da vitória do bem sobre o mal deu origem à festa mais popular de Mysore, o Dasara Festival, realizado em outubro e famoso pela procissão de elefantes enfeitados. A festividade é tão importante que Karnataka inteira se enfeita de luzes, flores e festões - até carros e motos.

 

Hoje, a terra do demônio é conhecida como a cidade dos marajás. Feito da família Wodeyar, que assumiu o poder em 1399 e, no século 18, a transformou na joia real que é, sendo a segunda maior em população no Estado (800 mil). E, seguramente, uma das mais agradáveis para visitar, com palácios, jardins, ruas limpas e largas, arborizadas e calçadas com sarjetas. É planejada, resplandecente e organizada a ponto de ver guardas de trânsito nas ruas.

 

Mas a herança mais evidente dos marajás está no Amba Vilas, o Palácio de Mysore, principal ponto turístico, lotado de ambulantes (os mais insistentes do mundo, capazes de segui-lo por quarteirões). Imponente por fora, o palácio é extravagante de tão suntuoso por dentro. Em estilo indo-sarraceno, ele foi projetado pelo inglês Henry Irwin após o fogo consumir o antigo palácio de madeira, em 1897, e concluído em 1912. O guia turístico conta que o príncipe ainda mora nos fundos. A população tem acesso a alguns salões, com vitrais e espelhos, abóbadas e arcos islâmicos em tons de azul, marrom e dourado, chão de mosaicos floridos, portas de madeira esculpidas e objetos em ouro que impressionam. Aos domingos e feriados, o Palácio se enche de luz à noite.

 

Mysore também está no mapa internacional da yoga e de tratamentos ayurvédicos. E é famosa por sua seda, sândalo e incensos, encontrados dentro ou nos arredores do vibrante Devaraja Market, um dos maiores e mais antigos mercados ao ar livre da Índia. Há de tudo, em todas as cores e odores: flores, pó para tilak ou tatuagem, frutas, legumes, pimentas, ervas, especiarias, incensos, óleos aromáticos, panelas, pulseiras e quinquilharias.

 

Ande sem pressa, perca-se por entre as barracas, explore os sentidos. Converse. Você pode descobrir, com os meninos, como se faz um incenso. Ou pode ganhar um colar de flores de presente. Talvez lhe peçam para traduzir uma carta escrita em português. Vai ter de repetir inúmeras vezes seu nome e seu país. Você é uma atração para eles, e esta troca, sem dúvida, é a melhor atração para você também.

 

BELUR E HALEBID - Duas estrelas do império Hoysala esculpidas por quase um século

 

Foi preciso tempo e paciência para arquitetar duas estrelas da dinastia Hoysala nas cidades de Belur e Halebid. Hoje, é preciso o mesmo para contemplá-las. Seus templos são os melhores representantes desse império que floresceu entre os séculos 10 e 14 e deixou nas paredes a história de deuses, sábios e governantes hindus. Trata-se de um trabalho minucioso lapidado em pedra-sabão. Um dia vai parecer pouco, mas dá para absorver essa dedicação de artesãos que trabalharam por quase um século.

 

Separados por 17 quilômetros, os templos são semelhantes: suas bases têm forma de estrela e seus interiores, estátuas e pilares em pedra negra. Belur foi capital dos Hoysalas e tem mais para ver, mas, por uma questão de energia, comece por Halebid.

 

É que o Hoysaleswara, seu templo, é dedicado a Shiva, deus da destruição, e dá para sentir tal energia. Mas isso não estraga o passeio. Ele começou a ser erguido em 1121 e levou 80 anos para chegar à atual forma. Pronto para mudar de energia? Vá a Belur ver o Channakeshava, templo dedicado a Vishnu, deus da conservação. Lá, há um gopuram de sete andares (torres de entrada, comuns por lá) e ninfas esculpidas em ângulos em negativo no beiral. Um trabalho de perseverança que levou mais de um século - a construção começou em 1117 - e ainda atrai turistas e fiéis, com cerimônias de puja que os enchem de boas energias.

 

KABINI - Apesar dos apelos aos deuses, o tigre não apareceu

 

A caçada começou animada. Um tigre indiano havia sido visto nas primeiras horas da manhã. Eram quatro da tarde e a temperatura começava a baixar. Tigres não gostam de calor, preferem se esconder no frescor da floresta. Tínhamos duas horas de sol para tentar um encontro. Rapidamente, nos armamos de máquinas fotográficas e embarcamos para um safári pelo Nagarhole National Park, em Kabini, a 80 quilômetros de Mysore, sul de Karnataka.

 

O parque faz parte da Nilgiri Biosphere Reserve, uma reserva de 5 mil quilômetros quadrados que se estende ainda pelos Estados de Kerala e Tamil Nadu. Apenas 6% dela é aberta ao turismo e Nagarhole, área extremamente verde ao longo do Rio Kabini, é uma das portas de entrada.

 

Pedimos aos deuses que nos abençoassem com muitas aparições de animais. E parece que estávamos com sorte nesse contato: em menos de 5 minutos, dois elefantes cruzaram nossa estrada. Eram fêmeas, bem menores que as africanas, e ficaram irritadas com o assédio. Gritaram alto e as deixamos em paz, em busca de outros dos 150 a 200 elefantes que vivem no parque.

 

Somente um trechinho de seus 643 quilômetros quadrados pode ser percorrido pelos turistas, em trilhas predefinidas, duas vezes ao dia. Ainda assim, os muntjacs (um tipo de cervo) parecem não ter se acostumado: a maioria corre assustada ao ver os carros. Eles estão lá às centenas e logo você ficará enjoado de fotografá-los.

 

Seguimos ansiosos pelos tigres. São 65 no parque. Mas a noite cai, a floresta gela. Não vimos sequer um leopardo, dos 80 que existem ali. Tudo bem, são animais solitários, que não gostam de se expor sem necessidade - na seca, de abril a maio, acabam se mostrando mais.

 

Contento-me com gauros (bisões indianos), gaviões, macacos, javalis, pavões, um lindo pássaro azul e até mesmo um desengonçado mangusto. Era hora de voltar ao hotel de selva, pois às 6 horas da manhã tentaríamos mais uma vez encurralar um tigre com nossas objetivas. O frio não espantou o sono, mas parece ter deixado os tigres confortáveis onde quer que estivessem. Saí da Índia sem bengalas, mas ganhei um presente dos deuses pela tentativa: uma linda foto da flor de lótus, símbolo, entre outras coisas, da resistência.

 

Na hora de escolher o hotel, não economize

 

Escolher bem o hotel é pré-requisito de qualquer boa viagem. Mas no sul da Índia isso adquire importância maior. Como se trata de uma região muito pobre e bastante rural, onde poucos imóveis têm água encanada e ducha quente, é aconselhável não economizar (há ótimas opções com diárias médias de US$ 100 o casal). Até porque é provável que você queira fazer algumas refeições nos restaurantes dos hotéis - são os poucos que oferecem pratos ocidentais para fugir do excesso de pimenta e curry.

 

Entre os hotéis que me hospedei durante a viagem, o Orange County, em Kabini, se destaca (desde US$ 500). Ele segue o conceito de ecoresort de selva, com decoração rústico-chique e cabanas com jacuzzi interna. Em Bangalore, o Fortune Park JP Celestial é um confortável business hotel (a partir de US$ 110 o casal). Já em Hampi, o Royal Orchid Central Kireeti, em Hospet, é uma opção sofisticada (US$ 150 o casal). Para Belur e Halebid, o melhor é dormir em Hassan - o Hassan Ashhok (hassanashok.com) é simples, mas com boa comida (US$ 85 o casal). Já em Mysore, o The Windflower Spa & Resorts tem o melhor spa (US$ 110).

 

SAIBA MAIS

 

Passagem aérea: não há voos diretos do Brasil para a Índia. A South African oferece voos desde São Paulo para Mumbai, mais próximo do Estado de Karnataka, com conexão em Johannesburgo a partir de R$ 2.838,66. Via Nova Délhi, custa desde R$ 3.154,18 na British, R$ 3.737 na Air France, R$ 4.195,86 na Emirates e R$ 4.494 na Qatar

 

Aeroportos: não perca tempo para fazer o check-in e passar pela alfândega. A burocracia é gigantesca e as filas não costumam ser respeitadas. Deixe as compras no free shop para depois

 

Vacinas: a vacina contra febre amarela é a única exigida para entrar na Índia. No entanto, médicos também recomendam a imunização contra febre tifoide, hepatite A e B, varicela, tétano, difteria e poliomielite

 

Cuidados: não beba água da torneira. Evite também sucos frescos e gelo

 

Visto: é exigido para brasileiros. O de turismo tem validade de três meses e custa R$ 145. Informações: indiaconsulate.org.br

 

Moeda: 1 rupia vale R$ 0,03

 

Pacotes: veja no blog do Viagem

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