Felipe Mortara|Estadão
Felipe Mortara|Estadão

Explosão de vida entre igarapés

"Se os brasileiros conhecessem a Amazônia, passariam a se preocupar com o desmatamento, a contaminação dos rios e o etnocídio dos povos tradicionais", Eliane Brum, jornalista

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 05h00

IRANDUBA - Sem refinar o olhar, tudo ao redor pode parecer uma massa verde homogênea. Mas apenas até que você chegue bem perto, navegando de voadeira pelos igarapés e seus estreitos igapós. De vários tamanhos e formatos, vermelhas, amarelas e alaranjadas, as folhas imprimem a aura amazônica. Frutos de aspectos múltiplos e nomes sem fim. Lapidar a visão demanda algum tempo, mas logo se distinguem jacarés espiando sob os galhos ou um casal de araras-canindé vigiando a morada, do alto de um imenso tronco morto.

Percorrer trilhas aquáticas, eis o grande barato dos passeios de barco pela floresta. Desligado o motor da voadeira, apenas o barulho da água ecoa pelos canais que envolvem as mais de 400 ilhas de Anavilhanas, segundo maior arquipélago fluvial do mundo. Quebrado por um bando de papagaios, o quase silêncio logo se restabelece. A região das Três Bocas concentra um sem-número de espécies e de cores.

O passeio dura hora e meia. O céu nubla-se sobre a beleza vegetal ao entardecer, o cinza-chumbo rivaliza com o verde berrante das folhas. Em poucos instantes, a dúvida de chuva vira certeza de tempestade. Encharcados, os urbanos visitantes nas voadeiras agora pertencem à paisagem. Água por todos os lados e todos sob efeito dela. Implacável e literal, esse exemplar feroz de chuva amazônica evoca outra dimensão de intensidade e vida. Ninguém disfarça o sorriso.

Todos atentos. No penúltimo dia de cruzeiro, estamos já bem perto de voltar ao mundo urbano, em Iranduba, a 22 quilômetros de Manaus. Em volta só há selva e o Rio Negro – miúdo nesse trecho, com 100 metros de largura, o que é nada diante dos 5 quilômetros entre margens nas porções mais vultosas. E bastou a voadeira entrar pelo primeiro igarapé para brotarem animais nas árvores.

“Olha uma preguiça.” “Tem duas cores, que fofa, está olhando para nós.” Reproduzido inúmeras vezes na pequenina embarcação, diálogos como esse revelavam o nascimento de observadores com olhar afiado. Aprendemos rápido: logo era só um de nós cobrar para os demais encontrarem o tucano de bico destoante, o casal de araras, o boto cercando um cardume.

Famoso hotel de selva perto de Manaus, o Ariaú Towers Lodge surge na paisagem. Não desembarcamos, mas pudemos perceber que muitos dos bichos que ficam nos arredores são, de alguma maneira, alimentados e cuidados pelo hotel. Talvez por isso, a cerca de 500 metros da hospedagem, sofremos um muito bem-vindo ataque. Um bando com mais de 15 micos-de-cheiro, fofos de dar raiva, invadiu nosso barco. Leves e curiosos, quicavam nas cabeças dos turistas, que precisam sempre estar atentos aos óculos e celulares, alvos fáceis para serem levados por curiosidade.

As fotos? Ah, essas ficaram incríveis. 

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