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Faço seu celular voltar a funcionar em 7 minutos

Na sala de espera na Santa Ifigênia, uma clientela fiel procura o autodeclarado Pai de Santo e técnico em informática para ajudar aparelhos desesperançados

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 06h00

“Faço o seu celular funcionar em apenas 7 minutos” – garante a mensagem impressa naquele panfleto distribuído na região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo. 

O anúncio, assinado por um tal de Abelardo de Ogum, autodeclarado Pai de Santo e TI (Técnico em Informática), é mesmo eficiente. Por volta das 15h, uma pequena sala comercial com ares de assistência técnica e centro espírita já está apinhada de gente.

São homens e mulheres ninando seus aparelhos, seus smartphones moribundos ou totalmente desenganados pela ciência. Vez ou outra, ouve-se um soluço, uma oração ou uma tentativa de reavivamento de bateria.

A vida inteira daquela (e de toda) gente cabe nesses celulares. Angústias, frustrações, amores, pecados e segredos são guardados nessas pequenas caixinhas de Pandora.

Seguidores de Abelardo tentam organizar os clientes, acalmá-los – ao mesmo tempo em que passam sacolinhas para a arrecadação de donativos.

De repente, Abelardo surge na sala, veste uma túnica encardida (que deve ter sido branca em uma vida passada) e um turbante com o desenho de uma maçã mordida. Ele pede silêncio e diz “sentir” aquele que deve ser chamado para o primeiro atendimento da tarde.

– Você... – sussurra para um homenzinho atarracado com uns 200 graus de miopia.

O homenzinho entrega o celular para Abelardo – que se retira para os fundos da loja, um local reservado e à prova de som. Em 5 minutos, um ajudante de Abelardo surge com o celular ligado: “Pai Abelardo conseguiu. Eis o seu celular funcionando outra vez!”

Ao redor do contemplado pelo milagre, forma-se uma roda de curiosos, um pessoal honestamente emocionado com a fato do aparelhinho voltar a receber e enviar mensagens de WhatsApp.

A partir daí, os atendimentos vão se sucedendo. E a maioria consegue reaver o seu celular em pleno funcionamento – após os tais sete minutos. Os menos afortunados são chamados ao pé do ouvido para um aconselhamento frio e calculado. “O seu aparelho foi possuído por uma força maligna. Infelizmente, Pai Abelardo vai precisar de mais tempo e recursos para consertá-lo".

No fim do dia, quando está a sós com os seus auxiliares, Abelardo se desfaz do personagem.

Trata-se de um golpista com talento para o drama. Sim, de fato, ele é capaz de consertar a maioria dos celulares. Em 80% dos casos, são problemas simples de resolver, bastando reiniciar o aparelho ou tirar e recolocar o chip.

Ao mesmo tempo que faz essas pequenas manobras, rouba os dados de seus fiéis, como senhas de banco, de cartão de crédito e informações confidenciais do histórico de conversas do WhatsApp. Com isso, consegue aplicar golpes convincentes, travestir-se de amigo ou parente, gerente ou patrão.

Depois de uma jornada bem-sucedida, Abelardo pega o carro no estacionamento. Não vê a hora de chegar em casa, tomar um banho e pedir e jantar dignamente. Ao entrar no carro, percebe o seu celular vibrando. Trata-se de uma ligação de um número que não conhece. Pensa em não atender, mas é vencido pela insistência.

- Alô?

Do outro lado, um silêncio profundo. Abelardo se irrita e desliga. Não quer perder tempo, liga o Waze no celular para cortar caminho e evitar o trânsito.

Meio no automático, vai sendo guiado pela voz monocórdica que diz: “vire à esquerda”, “vire à direita”, “a 200 metros faça uma curva suave à direita” e “siga em frente por 300 metros”.

Abelardo vai se deixando levar, não conhece mais as ruas, confia cegamente na voz que pede para ele fazer outra curva acentuada à esquerda. Acorda ao quase atropelar um menino, um entregador de aplicativo que estava de bicicleta. Buzina. Ganha um dedo do meio em retribuição. E percebe que recebeu centenas de mensagens em seu celular.

Sem deixar de dirigir, pega o aparelho e entende que “enviou” nudes para todos os seus contatos de WhatsApp. São  fotos que ele tirou há três meses e que nem sequer tinham sido encaminhadas para a namorada. Abelardo também começa a receber avisos do banco e do cartão de crédito – parece que alguém está fazendo compras no lugar dele.

Abelardo não consegue parar de dirigir. Suas mãos estão suadas no volante. Volta a ouvir a voz do Waze e a seguir os seus comandos.

Ele não vê o tempo passar, ele não sabe mais onde está. Parece madrugada. No céu, nenhuma estrela. Quando se dá conta, está sozinho no meio de uma estrada deserta. Apesar do horário avançado, ele sente calor, muito calor, um calor incomum.

O Waze para de funcionar. Ele continua dirigindo até encontrar um posto de gasolina. O lugar parece abandonado. Mas, ao se aproximar, consegue enxergar um homem, um homenzinho atarracado, talvez um funcionário. Abre as janelas do carro e pergunta: “Onde eu estou?”.

O homenzinho tira seus óculos grossos de grau e diz: “Existem muitas maneiras de se chegar ao mesmo lugar.”

- Que inferno! Você pode responder onde eu estou? - gritou Abelardo.

- Pra quê? Você já sabe onde está - respondeu o homem de voz monocórdica.

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