Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Fazenda do Vale do Café faz acordo com MPF para encerrar encenações consideradas racistas

Fazenda Santa Eufrásia deverá atender a uma série de medidas para 'reparar a comunidade negra' da região

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Maio 2017 | 16h30

SÃO PAULO - A Fazenda Santa Eufrásia, no Vale do Café, interior do Rio de Janeiro, assinou um acordo com o Ministério Público Federal de Volta Redonda nessa terça-feira, 2, que prevê, entre outras ações reparadoras, o encerramento imediato das encenações teatrais que ocorriam no local e retratavam a época da escravidão no Brasil. 

O inquérito civil público foi instaurado pelo procurador da República Julio José Araujo após a repercussão de um artigo do The Intercept Brasil, veiculado no dia 6 de dezembro do ano passado, questionando a encenação da fazenda, onde a dona, Elizabeth Dolson, veste-se de baronesa, enquanto seus funcionários vestiam-se como escravos, reproduzindo cenário e comportamentos da época da escravidão nas fazendas de café.

A prática, longe de ser exclusividade da Santa Eufrásia, única fazenda tombada pelo Iphan no roteiro histórico e turístico, é bastante comum em praticamente todas as fazendas da região, onde proprietários ou guias contratados por eles interpretam barões e baronesas, e pessoas negras, em geral mulheres, vivem o papel de mucamas e servem os turistas.  

"Esse tema não é novo. De fato, a gente se depara com uma realidade que não é só da Santa Eufrásia, mas de outras fazendas da região. Uma realidade que, em alguns aspectos, é muito naturalizada e, em outros, causa indignação", explica o procurador Julio José.

Elizabeth Dolson afirma não reconhecer ações racistas nas encenações, mas diz que vai tentar cumprir as determinações da Justiça. "Olha, todas as fazendas têm pessoas vestidas de mucamas. Eu me sinto terrível, mas muito mal mesmo. Porque eu nunca tratei mal ninguém, não tenho escravo, não tenho senzala, não tenho pousada. Eu sou mais escrava do que sinhá. O café, eu tenho galinhas, eu tenho os cavalos, os cachorros. Tudo eu trato, eu cuido do jardim. Eu faço o trabalho de todo mundo. Era um teatro, uma encenação", explicou Beth, como é conhecida, ao Estado na manhã desta quarta. 

O Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado na terça-feira pela proprietária da fazenda foi pensado e escrito pelo MPF em conjunto com comunidades quilombolas e jongueiras do Vale do Paraíba (ou Vale do Café) e com o departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF).

 

 

O TAC exige da Santa Eufrásia, entre outras cláusulas, um pedido de desculpas público (por meio de vídeo e nota) à comunidade negra; o encerramento imediato de qualquer encenação ou uso de vestimentas que caracterizem as pessoas como mucamas (sendo elas negras ou brancas); a troca da palavra "escravo" por "pessoa escravizada" na narrativa oral e escrita; a capacitação, em 60 dias, de todos os funcionários da fazenda - e a transmissão do conhecimento adquirido aos visitantes; e a presença de materiais produzidos pelos movimentos negros.

Além disso, duas placas deverão ser instaladas na fazenda. "Com a nossa especialização como historiadores, assessoramos (o TAC) para (a criação de) duas placas, uma para contar a história no Vale do Paraíba, mostrando que ali não é lugar só de barões, mas de negros também; e a segunda placa, com o nome de todas as pessoas que trabalharam como escravos na fazenda", explica a professora titular do departamento de História da UFF, Martha Abreu, que participou do processo de produção do TAC. Segundo ela, serão mais de 100 nomes de trabalhadores homenageados, recuperados por meio do inventário da fazenda, erguida por volta de 1830.

"Em vez de partir para um embate de responsabilização, primeiro queremos fazer cessar esse tipo de encenação e, por outro lado, fazer aflorar e enfrentar esse silenciamento das versões das histórias da região. Dando voz aos negros para que as versões não sejam apenas as dos barões", argumenta o procurador Julio José. 

Para o líder da comunidade quilombola São José, Toninho Canecão, trata-se de não deixar a memória dos negros escravizados morrer. "O que eu vejo é que eles (donos das fazendas) estão forçando a barra para transformar nossa região como Vale dos Barões, só se fala em barões, parece que tudo foi feito por eles. E onde estão os negros escravizados que fizeram tanto por essa região? Esse pessoal está sendo esquecido." A professora Martha Abreu concorda com ele: “Não é todo mundo que é racista, as pessoas são mal assessoradas, não entendem que isso é ruim. Você tem de entrar nessas fazendas e sair diferente. Quem tem essas fazendas tem de ter noção da responsabilidade, desse patrimônio”. 

Caso cumpra todas as cláusulas do termo, Elizabeth ganhará um inédito selo de Fazenda sem Racismo. “Vou ter de tomar muitas medidas que vão me custar cerca de R$ 7 mil, que eu não tenho agora, vou devagar fazendo as coisas. Mas estou meio perdida. Ainda estou na fase de respirar”, diz.  

Agora, Dolson aguarda o procurador Julio José no ato público que será realizado em sua fazenda neste sábado para uma assinatura simbólica do acordo. Além disso, o MPF convocou uma audiência pública para discutir o tema no dia 23 de maio, na Câmara Municipal de Vassouras, onde está localizada a Santa Eufrásia.

Procurado pela reportagem, o grupo Vale do Café Rio, que representa 15 empreendimentos da região, entre as fazendas históricas, hotéis e produtores, disse “não poder responder pela região ou mesmo pelas demais fazendas de Vassouras e outros municípios”. Já o Instituto Preservale (Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraíba) não respondeu à nossa tentativa de contato. 

Reforma. Única fazenda tombada da região histórica do Vale do Café, a Santa Eufrásia deverá passar por mudanças também em sua estrutura física nos próximos meses. Segundo Elizabeth Dolson, a reforma, que precisa ser autorizada pelo Iphan, está prometida para julho deste ano, sem previsão para acabar.

Fundada em 1830, a fazenda pertence à família de Elizabeth Dolson desde 1905. Foi ela quem nos recepcionou durante nossa viagem ao Vale do Café no ano passado. Como não era dia de visita, não houve encenações, mas ela nos levou para conhecer as dependências do casarão onde morou a vida inteira e que já pedia com certa urgência a reforma prometida.

Entre seus três salões e sete quartos, mobília original e paredes de pau a pique. Do lado de fora, um amplo jardim onde dá para fazer piquenique e uma plantação de café, xodó de Elizabeth e uma raridade no vale onde o grão que o batiza é, hoje em dia, bastante raro.

Durante o período da reforma, Elizabeth vai suspender as visitas ao local e também tirar o site do ar. Por enquanto, porém, ela continua recebendo turistas - mas, agora, sem pessoas vestidas de mucamas.

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