Roberto Castro/MTur
Roberto Castro/MTur

Murilo Busolin, São Luís

22 Maio 2018 | 04h00

Esqueça a paçoca em formato de rolha e a quadrilha com casamento do noivo e da noiva. Substitua o emblemático “olha a cobra/ é mentira” por “foi em uma noite estrelada de São João / que eu encontrei meu boizinho encantado”. Pronto: você chegou à festa junina de São Luís, que este ano ocorre, oficialmente, de 15 de junho a 1.º de julho. A capital maranhense não segue exatamente o roteiro das celebrações que estamos acostumados por aqui. Começando pelo básico: a estrela, ali, é o boi.

Não qualquer boi: o bumba meu boi, cuja lenda, estima-se, venha lá do século 18, repleta de folclore indígena e negro. Conta-se que Catirina, grávida, sentiu desejo de comer a língua do boi mais precioso da fazenda onde trabalhava. Para satisfazer as vontades da amada, Pai Chico matou o boi – causando a ira de seu patrão. Mas, com ajuda de seres mitológicos, o boi ressuscitou, deixando todos felizes.

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As celebrações de bumba meu boi se dividem nos dois principais arraiais da cidade: Ipem e Maria Aragão. Além de ver as apresentações, é uma ótima oportunidade para provar os quitutes locais: bolo de tapioca, tacacá e canjica (que lá é chamada de mingau de milho). A paçoca não vai fazer falta.

A encenação

Entender a encenação não é algo fácil para iniciantes. Começando pelos personagens presentes: Catirina, Pai Chico, o vaqueiro, seres mitológicos (como o caipora). Dependendo do sotaque (ou seja, estilo), há diferença nas danças, nas vestimentas, nos instrumentos musicais. Ao todo, são cinco sotaques: Zabumba, Orquestra, Costa de Mão, Matraca e Baixada.

Com sorte, você ainda pode ver alguma apresentação surpresa, extraoficial, no centro da cidade, encabeçada por grupos folclóricos locais. 

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Aliás, é nas comunidades que se consegue ter noção da importância da cultura do boi para seus moradores. Visitamos o Boi da Floresta, no bairro Liberdade, onde a tradição é repassada de geração em geração. Deu até para aprender uns passinhos. 

Vale lembrar que a época também é boa caso esteja em seus planos conhecer os Lençóis Maranhenses – uma ótima maneira de unir o agradável ao agradabilíssimo. Afinal, o calor é constante (quando desembarquei, percebi que aquele seria meu último momento usando calça jeans pelos próximos dias), a temporada de chuvas já está no fim e as lagoas estão cheias. Dependendo de como se programar, dá para pegar os festejos na ida e na volta. Nada mal, não é mesmo?

VIAGEM A CONVITE DO MINISTÉRIO DO TURISMO E DA PREFEITURA DE SÃO LUÍS 

 

 

ANTES DE IR

Aéreo: SP-São Luís-SP, em junho, a partir de R$ 656,24 na Latam, R$ 739,84 na Azul e R$ 764,70 na Gol.

Praias: Atenção à balneabilidade das praias: neste verão, 8 dos 21 pontos de análise entre a capital e São José do Ribamar estavam impróprios. A Praia do Calhau é famosa – aproveite os quiosques convidativos da Avenida Litorânea.

Curiosidade: Além dos tradicionais santos juninos, São Luís homenageia São Marçal no dia 30. A celebração surgiu com uma antiga lei que proibia os grupos de bumba meu boi no centro da cidade – eles se reuniam no limite da entrada e faziam a própria festa.

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O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h30

As apresentações de bumba meu boi são caprichosas no nível de uma escola de samba do Rio de Janeiro (mas em versão bastante reduzida, é claro). A diferença é que a manifestação cultural de São Luís não envolve qualquer tipo de competição, apenas dedicação por amor à tradição. Fiquei surpreso com a qualidade dos materiais apresentados pelo Boi de Santa Fé durante o arraial da Praça Maria Aragão. 

Ponto turístico tradicional à beira-mar, próximo ao centro histórico, a praça é um dos quatro polos do circuito junino oficial da cidade. Além da Maria Aragão, o do Ipem é o mais famoso; há ainda o da Praça Nauro Machado e Vila Palmeira. Não é preciso pagar para entrar em nenhum deles. 

Desembarquei ali no meu primeiro dia na cidade. Ver todas aquelas pessoas, de crianças a idosos, se apresentando com trajes coloridos e adereços brilhosos, sendo aplaudidos calorosamente, me fez refletir sobre a riqueza cultural do Brasil – e como conhecemos tão pouco dela. 

O arraial na Maria Aragão tem um apelo mais popular. Ali aprendi que aquilo que chamamos em São Paulo de canjica em São Luís é mingau de milho – e consegue ser muito mais saborosa do que a nossa versão, mesmo sem leite condensado. 

Já o espaço do Ipem é maior, localizado em bairro nobre e com uma grande parte dedicada para a diversão das crianças. O bairro é repleto de bons restaurantes, mas ali há uma área gourmet com barraquinhas bem variadas. É possível provar delícias como o tacacá – caldo típico da Região Norte feito com tucupi, jambu, goma de tapioca e camarão seco – e combinações criativas como o geladinho de Oreo. 

Não deixe de provar

O bolo de tapioca acompanhado de um cafezinho e as tortas de camarão e caranguejo. Os quitutes custam entre R$ 3 e R$ 10.

 

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O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h30

Depois de anos de abandono, o centro histórico de São Luís ganhou fôlego novo, com casarões renovados recentemente e bons museus. Tombado pelo Iphan, tem o típico traçado colonial português, notado em outras cidades históricas preservadas, como Olinda (PE) e Paraty (RJ). Com um característica própria: os tradicionais azulejos azuis. É uma pena que muitos deles se perderam ao longo dos anos – mas seguem firmes e fortes nas lojinhas de souvenir. Dá até para personalizar com seu nome, por um preço médio de R$ 60. 

 Entre os museus de destaque estão o Casa da Festa (Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho; Rua do Giz, 221) que tem um andar inteiro para o bumba meu boi. A Casa de Nhozinho (Rua Portugal, 185) é dedicada ao artesão maranhense (1904-1974) e abriga exposições temporárias. O Museu Histórico e Artístico (Rua do Sol, 302; R$ 5) tem um belo mobiliário e está bem preservado por dentro. Visite ainda o Palácio dos Leões (sede do governo) e a Catedral da Sé (as pinturas internas são magníficas). 

As noites de sexta são animadas no Centro Histórico – sempre há um morador disposto a indicar alguma opção. Também existe a possibilidade de assistir a uma apresentação no Teatro Arthur Azevedo (que também oferece visitas guiadas durante o dia). 

Lembrancinhas

A barraca do Corintiano é famosa por vender diversas variedades de tiquira, a cachaça roxa do Maranhão feita da destilação artesanal da mandioca. A coloração roxa vem da adição das folhas de tangerina. “Tenho a cachaça perfeita para cada tipo de coração”, diz o Corintiano. As doses são baratas e não passam de R$ 8, mas não se empolgue: a tiquira é conhecida por seu sabor forte e alto teor alcoólico.

Não resisti e acabei levando uma garrafa para casa (R$ 10). Caminhando pelas lojinhas do centro comprei ainda um sabonete de argila para esfoliação da pele (R$ 5), 500 gramas de castanha de caju por R$ 11 e uma bandeja com 12 unidades do doce de espécie – doce de coco tradicional que parece um bombocado (R$ 15).

Ainda no centro, as barraquinhas de comida (que se espalham em qualquer direção para onde se ande) vendem coxinhas nada gourmetizadas que fogem do tradicional recheio de frango. Você encontra o salgado com recheio de camarão, caranguejo e carne de sol. A unidade sai por R$ 5 – não exagere na pimenta, para lá de picante.

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O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h30

Prepare seu corpo (e o fôlego) para aprender as danças do bumba meu boi com o carismático Mestre Madeira. É possível agendar aulas na Oficina de Percussão Maranhense, também no centro de São Luís, e com 2 horas de aprendizado já dá para ficar com os cinco sotaques na ponta do pé. Ou quase.

Além das danças, Madeira também nos ensinou a tocar os principais instrumentos que formam o enredo das apresentações tradicionais, como as matracas, tambores e pandeiros. Agende: 98-9613-4426; R$ 300 o grupo.

Tudo vira reggae

No Maranhão, o ritmo de Bob Marley tem suingue próprio, mais envolvente e sensual. Durante um passeio de barco no município de Raposa, constatei que é comum ouvir versões reggae de grandes sucessos internacionais. Hits de One Direction e Ariana Grande ganharam ali versões próprias para embalar o banho de mar dos turistas. Quer arriscar uns passos? Imite os locais no Bar do Nelson, na Avenida Litorânea, em frente à praia de Calhau. O público é variado, jovem e adulto, e a entrada é R$ 10. 

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O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h30

Prazer, meu nome é juçara, mas pode me chamar de açaí. Em um dos momentos mais interessantes de toda a viagem, fomos para o bairro de Maracanã, onde fui apresentado à juçara – na verdade, o bom e velho açaí, que no Maranhão tem nome diferente. 

O bairro é conhecido pela produção da frutinha. Fizemos ali uma trilha pelo juçaral, onde o condutor Adriano esbanjou carisma nos mostrando onde são retirados os galhos da fruta, além de nos ensinar a subir em um pé de juçara. Sim, eu fui cobaia desta ação e me tornei um exímio colhedor de juçara.

A fruta é pilada e processada para ficar líquida, servida de diferentes maneiras: mais doce, com o acréscimo de açúcar e farinha d’água, ou salgada, mergulhada em carne de sol ou em uma porção de camarão, o que resulta um gosto bem agridoce. Experimentei de todas as maneiras e preferi a versão mais doce com o acréscimo de açúcar e uma farinha crocante que eles vendem como complemento. O litro de juçara sai por R$ 15 e com os acréscimos, doce ou salgado, o preço varia entre R$ 25 e R$ 30.

A juçara é tradicional e extremamente conhecida por toda a cidade, tanto que se tornou ícone da Festa da Juçara, realizada em meados de outubro. Definitivamente, eu caí de amores por juçara.

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O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h30

Prepare o seu melhor tênis de corrida para entrar em forma novamente, pois vai ser difícil você não sair apaixonado pela culinária local sem ao menos desabotoar os botões da bermuda. Foi no Mercado do Peixe de São Luís que fomos apresentados à chef de cozinha Ana Lula, conhecida como Juja. Enquanto pegava um peixe enorme ou levantava uma lagosta para posar para as fotos, ela abria um sorriso enorme – e nos enriquecia com seus conhecimentos gastronômicos.

Dali, fomos juntos à Casa de Juja, sua própria (e charmosa) casa que foi transformada em ateliê gastronômico, onde o único cômodo que não é utilizado para servir os clientes é seu próprio quarto. 

Uma experiência única. A casa lindamente decorada exalava boas energias – e, logo, um aroma delicioso vindo da cozinha. De entrada, porção de vatapá e paçoca de camarão, bolinhos de macaxeira e bacalhau, pata de caranguejo empanada. 

Ana Lula apresenta seus pratos com a paixão de quem ama o que faz, afirmando que está sempre em busca de mais inspirações e novidades. Antes de partir para os pratos principais, nos mostrou como é preparado o típico arroz de cuxá, que leva uma variedade enorme de temperos, além de camarão e farinha de mandioca. Além dele, tortas de camarão e caranguejo caldeira de camarão e lagosta, salmão com ervilhas. 

Mas sempre há espaço para sobremesa. Pequenas porções de creme de bacuri (fruta muito presente na culinária local), creme de cupuaçu, doces de figo, caju e jaca, brigadeiro gourmet, cocada, doce de leite e goiabada. Para ter uma experiência como essa, saiba que é preciso reservar horário com antecedência. O custo é de aproximadamente R$ 100 por pessoa. 

A Casa de Juja é o ponto alto de uma imersão gastronômica na cidade, mas há outros cantinhos saborosos para se fartar no dia a dia. O Cafofinho da Tia Dica, no centro da cidade, oferece caldeirada e uma grande variedade de peixes que harmonizam perfeitamente com a caipirinha de bacuri. Os pratos são muito bem servidos, e custam de R$ 50 a R$ 60.

Beira-mar

O Cabana do Sol tem várias filiais por São Luís. Fomos na unidade em frente à Praia do Calhau, onde fui apresentado a viciantes pasteizinhos de carne com geleia de pimenta. A especialidade ali é a carne de sol, vendida para servir duas pessoas, mas poderia abastecer uma família inteira e mais um vizinho. 

Um pequeno e importante detalhe é que a carne de sol é servida com uma garrafa de manteiga aquecida, que é dosada por você mesmo – tente manter a maturidade, eu não consegui. Os pratos custam de R$ 55 a R$ 85.

Custo-benefício

No segundo dia de viagem almoçamos no Senac Maranhão, opção de alta gastronomia por preço baixo:  come-se à vontade por R$ 42 por pessoa, exceto às sextas e domingos, quando o custo é de R$ 55. Dica: reserve a mesa no fim de semana. 

Entre os pratos de destaque, arroz do mar (com lula, polvo, camarão e lagosta), patinhas de caranguejo, paella, caldeirada de camarão e peixes variados. Prove à vontade e repita o seu favorito. Não esqueça que a sobremesa também está incluída – guarde espaço para  o bolo de chocolate com creme de bacuri.

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O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h30

Sem tempo para percorrer os Lençóis Maranhenses como se deve? São Luís tem sua versão particular conhecida como Fronhas Maranhenses. Para chegar ali, é preciso viajar por 30 quilômetros até o município de Raposa, que abriga uma grande colônia de pescadores. Pode apostar: boa parte dos pescados que você consumir na capital vieram dali.

Aproveite ainda para conhecer o trabalho das rendeiras de bilro. Passando pela avenida principal – conhecida como Corredor das Rendeiras –, você verá o trabalho exposto em frente a casas simples, de palafita.

De Raposa saem os passeios de barco para as Dunas de Carimã (ou Fronhas Maranhenses), por um preço médio de R$ 45. Agências de São Luís vendem o passeio combinado por aproximadamente  R$ 100.

A viagem de barco (aquele, com Ariana Grande em ritmo de reggae) dura cerca de 1 hora. O visual é encantador e você pode se refrescar nas águas calmas e rasas que formam as fronhas. No caminho, uma paradinha na Ilha das Ostras para provar o molusco fresquíssimo – a dúzia custa R$ 10. Fique atento às variações da maré: o tour só sai na alta. 

Alcântara

Outro bate-volta clássico é para Alcântara, a cerca de 1h30 de barco da capital. As embarcações partem do cais da Praia Grande, no centro histórico, mas os horários podem variar bastante, já que tudo depende da maré. Vale a pena se informar no dia anterior para não correr riscos – e confirmar o horário da volta com o barqueiro. No Iate Luzitânia dá para fazer reserva pelo WhatsApp (custa R$ 15 cada trecho).

 Vale lembrar que esse esquema não é de tour fechado de agências. Ou seja, se quiser pernoitar em Alcântara e voltar no dia seguinte, tudo bem. A cidade colonial tem um casario bem preservado e também ruínas no melhor estilo São Miguel das Missões (no Rio Grande do Sul). Dá para pegar uma prainha e, no fim da tarde, fazer um passeio para ver a revoada dos Guarás – um passeio tradicional para quem vai até o Delta do Parnaíba.

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