Camila Anauate/AE
Camila Anauate/AE

Figurante num jantar black-tie

Nossa repórter estava lá, no banquete anual dos chevaliers

Camila Anauate, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2009 | 02h41

Fui instada a vestir um black-tie. O jantar seria de gala e os convites, quase por milagre, estavam garantidos. Mas só naquela noite de sábado, quando o Château du Clos de Vougeot apareceu iluminado entre os vinhedos, pude entender. Eu seria uma figurante na festa mais exclusiva da Borgonha.

Entre os muros de pedra do castelo, cenas típicas da Idade Média. Os Chevaliers du Tastevin chegavam com suas túnicas vermelhas e douradas, as cores-símbolo dos sublimes tintos e brancos borgonheses. No peito, carregavam como uma medalha o recipiente de metal que comprova sua distinção. Eles são membros da confraria criada em 1934 para celebrar - e divulgar - o art de vivre da região.

Numa sala apertada, o chevalier dos chevaliers nomeava os novos cavaleiros numa cerimônia quase secreta. "Por Noé, pai dos vinhedos; por Baco, deus do vinho; e por São Vicente, protetor dos vinicultores, eu lhe declaro Chevalier du Tastevin."

 

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O banquete deu sequência à celebração. Mesas compridas acomodavam pelo menos 50 pessoas, que mal podiam se mexer dentro dos vestidos longos e dos smokings. Garçons passavam correndo entre as cadeiras e serviam à francesa pratos escolhidos a dedo para acompanhar os melhores vinhos.

Entre um e outro prato, os chevaliers subiam ao palco, entoavam hinos, contavam lendas. O evento mais esperado do ano durou infinitas seis horas.

Mas a manhã de domingo prometia mais festa. O banquete da véspera havia sido apenas o primeiro - e mais pomposo - capítulo da celebração Les Trois Glorieuses, sempre no terceiro fim de semana de novembro.

Enquanto centenas de pessoas se aglomeravam nos janelões do Hôtel-Dieu, em Beaune, lá estava eu participando de mais um evento exclusivo, o leilão anual de vinho, com negociantes do mundo todo, cujos lances servem de base para o preço da safra.

TRADIÇÃO

Beaune é uma cidadezinha de 23 mil habitantes a 40 quilômetros de Dijon, mas grande no negócio do vinho. Sua principal atração, o Hôtel-Dieu, também tem história ligada à bebida.

Depois da Guerra dos Cem Anos, milhares de franceses sofreram com a pobreza e com a fome. O chanceler Nicolas Rolin e sua mulher decidiram fundar, em 1443, um hospital de caridade para atender os necessitados, que funcionou até 1971. Ao longo dos séculos, o Hôtel-Dieu recebeu generosas doações e, hoje, é dono de 60 hectares de vinhedos em parcelas de muito prestígio.

A característica mais marcante dessa impressionante construção medieval são as telhas vitrificadas geométricas e coloridas, inspiradas na arquitetura flamenga. Cada parede da estrutura está intacta desde o século 15.

Entre no grande hall para entender como funcionava o hospital. Debaixo de um teto entalhado e pintado, 28 camas minúsculas abrigavam, às vezes, mais de um paciente. Eles dormiam sentados - a posição horizontal simbolizava a morte. Alguns dos leitos, completamente cobertos com estanho, eram separados para os nobres.

Outro destaque da visita são as obras de arte religiosas, como o painel Juízo Final, de Rogier van de Weyden.

Informações: www.tastevin-bourgogne.com; www.hospices-de-beaune.tm.fr. Entrada no Hôtel-Dieu a 6,50 (R$ 18)

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