Fim de ano sem lentilhas

O homem mais viajado do mundo

Mr. Miles, miles@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2008 | 00h54

Especula-se que mr. Miles esteja chegando ao Brasil nesta semana. A notícia não está confirmada mas, há poucas semanas, nosso correspondente britânico anunciou que viria, com certeza, passar alguns dias em Florianópolis. Outra evidência, que compartilhamos com os leitores, foi uma consulta informal feita pelo bravo viajante sobre as escalas de fim de ano da redação - dando a entender que, finalmente, ele nos concederá a honra de sua visita. A expectativa por aqui não é muito grande. Em suas últimas e fugazes passagens pelo Brasil, Miles frustrou seus companheiros de redação. Alguns jornalistas deste matutino atribuem os diversos forfaits do viajante ao receio de que algum fotógrafo da casa tente capturar retrato mais atualizado da excêntrica figura - hipótese inadmissível para mr. Miles por motivo de superstição, conforme já comentado anteriormente. Ainda assim, há um certo frisson na redação que, desde já, agradece às notícias de qualquer leitor que tenha a oportunidade de encontrá-lo durante o réveillon. A seguir, ele responde à pergunta da semana: Querido mr. Miles: o senhor pratica alguma mandinga de réveillon, como nós? Marcia Bello Solgese, por e-mail "Well, my dear: na verdade só depende de onde eu estou quando um ano se encerra. Cada lugar, as you know, tem os seus próprios hábitos e, como hóspede, costumo respeitá-los e juntar-me às, well, mandingas alheias que, no mais das vezes, são inofensivas, quando não verdadeiramente eficientes. Rituais de passagem mostram, by the way, como estamos próximos dos povos primitivos que nos deram origem e, of course, pelo mesmo medo que nos assola, sempre bajularam descaradamente o desconhecido. Algumas coisas, however, me recuso a fazer. Por muito tempo fui obrigado a ingerir detestáveis porções de lentilha enquanto ainda vivia na casa de meus pais, em Essex. Um dia, arrisquei o ano vindouro e rejeitei minha porção. A expectativa de uma tragédia não se realizou, thanks God. E os meses se passaram felizes, na certeza de que não haveria lentilhas no réveillon seguinte. Os fogos de artifício, as you know, são uma tradição de origem oriental. O objetivo das luzes e ruídos era espantar os maus espíritos. Nowadays, o que era uma inofensiva barulheira tornou-se um longo bombardeio. Os maus espíritos, I presume, é que estão organizando a foguetagem. De todas as superstições da new year?s eve, a que mais me agrada é a que sugere beijar a mulher amada no exato instante das 12 badaladas. Tem poesia - e começar um ano com poesia é mais bonito que berrar, sujar as praias (jogando coisas ao mar, como vocês gostam, isn?t it?) ou mergulhar em fontes geladas como os londrinos embriagados fazem em Trafalgar Square. A mais assustadora das superstições, felizmente não muito repetida no Brasil, é aquela que anuncia morte na família dos que lavarem roupas no primeiro dia do ano nascente. É a chamada praga inócua, isn?t it? Quem haverá de lavar roupas exatamente no dia internacional da ressaca? Happy new year, my friends! Ah, e não esqueçam de abrir as janelas exatamente à meia noite do dia 31. Os sábios garantem que, só assim, o ano novo entra, de fato, na sua casa. E o velho parte para sempre." * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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