Fisgado pelo estômago na Cidade do Cabo

Fisgado pelo estômago na Cidade do Cabo

Com os braços cruzados, olhando para mim com uma sobrancelha levantada, a camaronesa Bebe de Rosa, dona do restaurante Bebe, na Cidade do Cabo, me perguntou, examinando os pratos de comida inacabados diante de mim: "Qual é o problema? Você não gostou da minha comida?"

TODD PITOCK / CIDADE DO CABO , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2012 | 02h06

Mas eu gostei da comida dela: guisados de feijão e quiabo, carne e amidos. Era verdade que um item, o bucho, passou um pouco dos meus limites. Segurei a carne com meu garfo e serrei forte com minha faca. O sabor era rico e robusto, porém borrachento, como se não tivesse decidido ainda se estava apto para ser comido.

O problema, porém, era que esta foi a última parada de uma farra de quatro horas comendo pelo centro da Cidade do Cabo, e meu sistema digestivo já estava extenuado.

No entanto, não era por pura gula. Eu tinha encontrado uma nova maneira de explorar a cidade, a qual visitei várias vezes ao longo de 20 anos: o tour gastronômico pela Cidade do Cabo, organizado pela empresa local Coffeebeans Routes. Ao contrário de outras excursões culinárias, o objetivo não é encontrar a melhor refeição, mas usar a comida como porta de entrada para a vida da cidade, visitando cozinhas domésticas, cafés em becos e mercados que, de outra forma, passariam batido.

Encravada entre o arenito imponente da Table Mountain e o Oceano Atlântico, no extremo sul da África, a Cidade do Cabo é maravilhosamente cênica. Desde que a Companhia Holandesa das Índias Orientais se estabeleceu ali, em 1652, com uma estação de passagem para navios trazendo especiarias da Ásia, a cidade se firmou como um caldeirão de culturas, como a indígena Khoisan, a do norte da África, dos europeus do mar, dos escravos e servos do sudeste da Ásia que se tornariam conhecidos como 'malaios do Cabo'.

Na última década, se uniu a eles um influxo do resto da África - Malawi e Mali, Congo, Etiópia e Zimbábue - em busca de refúgio e oportunidade. Eles têm, por vezes, de suportar um abrasador sentimento anti-imigrante por parte dos locais e dos imigrantes já há muito estabelecidos. No entanto, abriram lojas e bancas de mercado, mudaram o visual de algumas ruas e bairros e trouxeram receitas de casa. O itinerário da Coffeebeans conta a história aos poucos, segundo meu guia, Michael Letlala, de 28 anos. Que me preveniu: "Vamos ter um monte de comida."

Tendo comido muito pouco antes de começarmos, me sentia à altura da tarefa. Da primeira parada, o Escape Caffe (leia mais abaixo), caminhamos até uma loja de especiarias no Bo-Kaap, bairro dos malaios do Cabo, com sua vista de casas coloridas. Como tantas áreas da região, o Bo-Kaap está em transição. Depois de anos sendo exclusivamente muçulmano (em parte por causa das leis de segregação do apartheid), a crescente demanda por imóveis e as taxas de imposto estão mudando o bairro, tornando tudo um pouco descolado demais para os moradores tradicionais.

Entre corredores aromáticos repletos de folhas, raízes e sementes trazidas da Índia, encontramos Naima Fakier, mãe quatro filhos aos 38 anos. Segundo ela, a diferença entre a comida indiana e dos malaios do Cabo é o calor: no Cabo, os pratos são menos menos picantes. Começamos com daltjies, espécie de falafel feito com pó de ervilha, espinafre e coentro fresco. Em seguida, frango malaio com curry, cebola, tomate, alho, gengibre, cardamomo e canela em pau. Para completar, uma sobremesa de koesisters. A versão africâner desta espécie de pastel é dura, trançada e cozida, com calda meio pegajosa, enquanto na versão malaia a massa é frita suavemente com xarope de tangerina na casca, cravo, noz-moscada e gengibre, com flocos de coco.

O pudim de malva, um clássico sul-africano, na versão dos malaios do Cabo é feito com leite evaporado em vez de conhaque, porque muçulmanos não ingerem álcool.

Comemos. Conversamos. Mas ao deixar o Bo-Kaap, percebi que tinha comido num ritmo desmedido. Contei com a caminhada rumo ao centro da cidade para ajudar na digestão até chegarmos ao Little Etiopia, dirigido por Yeshi Mekonnen, na Shortmarket Street. A chegada de dezenas de milhares de etíopes culminou em muitos restaurantes típicos, mas este, aparentemente, se destaca.

O prato chegou coberto por injera, o tradicional pão esponjoso que os africanos do leste costumam usar para enrolar a comida antes de comer. Serviram carne com cebola, alecrim e pimenta fresca. Também havia lentilhas com berbere, mistura de gengibre, cardamomo preto, cravo e outras especiarias.

Provavelmente teria sido suficiente, ou até mesmo saudável, parar de comer neste momento. Talvez eu pudesse ter chamado alguém com um carrinho de mão para me carregar. Me perguntava se a Coffeebeans deveria ter organizado as coisas de forma diferente - talvez um prato em cada lugar efetivamente configurasse uma refeição de um dia todo.

Vou ter de sugerir isso numa próxima vez, pois nesta viagem havia ainda uma última parada. Bebe Rose estava esperando.

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