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Flores, fotos, fogo e facão

Enquanto mais uma foto de árvores floridas surge, o fogo queima, a alguns quilômetros, boa parte de tantas outras espécies

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 06h00

Era um emaranhado de cores vivas o que encontrei outra tarde em São Roque, no interior paulista. O rosa corria sobre o roxo, deixando espaço para um terceiro de tom branco-noiva. Eram três árvores, três nascedouros de flores diferentes, que acabaram por se entrelaçar, formando um gracioso arranjo.

A primavera começou há alguns dias e com ela uma enxurrada engraçada de fotos de árvores, ruas, quintais, carros cobertos por flores de cores diversas. A campeã aqui nas bandas do Sudeste sem dúvida é a da família Bignoniaceae, dos gêneros Handroanthus e Tabebuia. Acha que não conhece? Duvido. Pois estes são os nomes científicos do famoso ipê – amarelo, branco, roxo, rosa, lilás e verde. 

Pois quem diria que na selva de pedra que é São Paulo uma flor ia ser capaz de desbancar as selfies e fotos de comidas no ranking das mais postadas? Pensando bem, talvez seja justamente por isso: diante do cinza de costume, cai bem uma corzinha.

Nativo do Brasil, o ipê está presente sobretudo no Sudeste e Sul do País, apesar de países como Peru, Bolívia e Uruguai também contarem com seus exemplares. Seu nome vem do tupi, como tantos outros que batizam cantos queridos da metrópole. No caso do ipê, significa casca dura, uma de suas características. Graças à sua durabilidade e resistência à umidade, era utilizada por povos indígenas na construção de arcos de caça e outros instrumentos. Até hoje a marcenaria se aproveita dessa qualidade para fabricar objetos. Mas só pode retirá-lo da natureza quem tem autorização para tal. Não é necessário dizer que há quem insista em agir ilegalmente. E quem se cale diante disso.

Em tempos em que a Amazônia e a necessária preservação de nosso (e vale grifar esse pronome, nosso, de todos nós, independentemente de nacionalidades) meio ambiente estão na pauta do dia, parece reconfortante nos depararmos com árvores floridas no caminho de casa ou do trabalho, dando provas de que há vida pulsando e resistindo em meio à fumaça dos escapamentos e à escuridão repentina do céu numa tarde. Não sei como o leitor se sente, mas um ipê amarelo é mesmo capaz de mudar meu humor numa segunda-feira. Contudo, paradoxalmente, enquanto mais uma foto surge, o fogo queima, a alguns quilômetros, boa parte de tantas outras espécies.

Na última sexta-feira, foi a vez da Chapada dos Veadeiros, Goiás, ser atingida por uma faixa de fogo de oito quilômetros. Até a noite de domingo, os bombeiros e o ICMBio ainda não tinham conseguido controlar todo o incêndio. Pior e plausível: não se descarta que tenha sido criminoso. No início de setembro, aconteceu com a Chapada dos Guimarães e a região de Nobres, em Mato Grosso. Esta última teve 10 mil hectares de um parque atingido, além de fazendas. 

É época de seca, queimadas pontuais são previstas. Mas, diante de tanta tecnologia, estudos, discursos, o que explica termos aumentado o número de queimadas este ano? Segundo o Inpe, ultrapassamos o limite de cem mil – e vale grifar esse número – queimadas neste 2019, algo que não ocorria há 7 anos.

Numa recente visita ao museu de uma das mais antigas caves de vinho do Porto do mundo, a Taylor’s, fundada em 1612, refleti sobre a maestria com que a natureza é capaz de operar, mesmo quando nós a manipulamos para extrair dela maravilhas como o vinho. Há o tempo do descanso, da maturação, do florescimento, da colheita. Assim é com os ipês, que daqui a pouco perderão suas flores para reflorescer, se permitirmos, no próximo ano. Assim é com toda a natureza.

Fazer com que esse processo se interrompa para sempre, com fogo e facão, é destruir não só o mundo das gerações futuras, mas o das gerações passadas. Tanto quanto o incêndio que, no ano passado, destruiu boa parte do Museu Nacional, no Rio, é a nossa história, natural e humana, entrelaçada como as árvores que encontrei, que é apagada no corte ilegal de um ipê; no fogo que destrói um paraíso natural ou um fóssil. Ninguém será capaz de negar tudo que está aí quando não houver mais ar para se respirar, mais cores e fotos para confortar, mais memória para se existir. 

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