Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Fofura concentrada na colônia de pinguins

Uma plantação de pinguins, caro leitor. Claro que soa esquisito, mas, se fosse possível, certamente a Fazenda San Lorenzo, no noroeste da Península Valdés, seria uma das maiores produtoras do planeta. As cabecinhas escuras com manchas brancas das pequenas e desengonçadas aves pontilham o horizonte de arbustos baixos - parecem brotar deles, como frutos. São mais de 400 mil pinguins-de-magalhães em uma área de quatro quilômetros quadrados.

PUERTO MADRYN , O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h14

Uma trilha delimitada por algumas pedras marca o caminho pela pinguinera sobre o piso de cascalho. De asas abertas, cabeças erguidas e olhos fechados, a maioria deles parece tomar sol. E pedir cliques. Alguns se locomovem mais cômica do que graciosamente. São esquisitamente fofos. Observam atentos o visitante, olham fundo nas lentes, inclinando a cabeça para um lado de cada vez - é assim que conseguem focar. Essa quebradinha de pescoço os deixa irresistíveis.

Mas não vá se entusiasmando. Apesar de os mais altos não passarem da altura dos joelhos, isso não impede certa valentia. Qualquer turista sabichão que se meter além do limite demarcado toma advertência: primeiro com gritos dos pinguins - que sabem exatamente onde você pode ou não pisar - e, na sequência, dos guias. A questão territorial é irracional e universal, estamos entendidos?

Moitas pequenas se espalham próximas ao mar. Sob elas, os pinguins-de-magalhães cavam seus ninhos e ali permanecem entre setembro e abril. Macho e fêmea - sempre monogâmicos - alternam-se, tanto na tarefa de chocar os ovos, como na de se alimentar e buscar comida para a cria. O cheiro, até para quem tem rinite alérgica, é forte.

Na praia, alguns bravos e desengonçados da espécie voltam da refeição, subindo o leve aclive com dificuldade. Fazem barulho, mas não acordam um leão-marinho solitário e dorminhoco. Bípedes, porém nada desenvoltos, parecem presa fácil. Presenciei uma raposa (zorro, em espanhol) e um tatu (ou armadillo, como queira) espreitando os ninhos. No entanto, ninguém na colônia parecia se sentir ameaçado.

Caminho. Chegar até a Fazenda San Lorenzo não está entre as coisas mais triviais do mundo. A partir de Puerto Madryn, viaja-se cerca de 3 horas em van ou carro até a sede. A entrada na fazenda - e, portanto, o acesso à pinguinera - custa 70 pesos (R$ 28). Após deixar o carro ali, leva-se mais 30 minutos em um caminhão adaptado à área onde estão os pinguins.

A sede não tem nada de pomposa ou imponente, como as velhas e prósperas fazendas de café do Sudeste brasileiro. A Patagônia é visceral: a estrutura se resume a um galpão de ferro rudimentar, com mesas longas e paralelas, e uma bem feita churrasqueira com ares de lareira.

A diferença é a enorme peça de carne que, abatida na véspera e recém-temperada com sal grosso e chimichurri (tempero à base de ervas típicas da Argentina), em algumas horas se transformará num autêntico e saborosíssimo cordeiro patagônico. O menu completo, com entrada e empanadas, custa 220 pesos (R$ 88). A volta da visita ao território dos pinguins termina com rusticidade, mas em grande estilo.

/ FELIPE MORTARA

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