Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão
Imagem Bruna Toni
Colunista
Bruna Toni
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Fora do Brasil, no meio do carnaval

Pedaços do mundo onde não imaginava que a festa existia. Até dar de cara com ela

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 05h30

Você se lembra da primeira vez que se apaixonou não por alguém, mas por algo? Algo que te fez encontrar uma felicidade arrebatadora, de não querer mais ir embora? Eu não lembro quando foi exatamente que ocorreu essa explosão de sentimentos dentro de mim, mas ela chegou com o samba. E com seu descendente primeiro, o carnaval.

Talvez o leitor que acompanha esta coluna há algum tempo já tenha percebido minha predileção escancarada pelo carnaval – que me perdoem os demais feriados. Sempre estive por ser escrever, porém, sobre outros carnavais, de terras distantes, que a gente até estranha (ao menos eu estranhei) quando ouve alguém dizer “aqui tem carnaval”. Falo especialmente de dois cantinhos do mundo onde nunca esperei por ele, mas ele estava lá.

Descobri ambos no ano passado. O primeiro em Montevidéu. Foi numa tarde fria em que saí para desbravar a região próxima ao hotel e acabei dando de frente com um grupo de cerca de 30 pessoas tocando instrumentos musicais enquanto passistas de diferentes idades dançavam à frente dos músicos com seus trajes vermelhos. Atrás ainda vinham uns foliões de última hora, daqueles que sem nada a perder, seguem atrás dançando descompassados. Eu, por exemplo.

Descobri assim estar no meio do carnaval de 40 dias dos uruguaios, que começa em janeiro e vai até fevereiro todos os anos. Nele, grupos desfilam por ruas de diferentes bairros (com o objetivo mesmo de atrair pessoas ao longo do caminho) e em avenidas. São as murgas, revistas, parodistas e comparsas – o nome da agremiação depende do estilo musical. Comparsas, por exemplo, se movem ao som do candombe, ritmo de origem africana considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.  

Eis que, meses depois, tive a chance de ir às Ilhas Cayman, no Caribe. Pois além da fama de paraíso fiscal e das belezas naturais, o destino reserva uma festa animadíssima entre o fim de abril e início de maio. É o Batabano, com um desfile de blocos formados por moradores e associações comerciais onde o samba, marchinhas e axé dão lugar à música caribenha, sobretudo a soca, uma abreviação de Soul of Calypso, gênero musical nascido em Trinidad e Tobago. Ao fim dos desfiles, um atrás do outro no mesmo dia e local, o mais bonito é eleito campeão.

Apesar de diferentes do nosso – e por isso mesmo tão interessantes -, encontrei neles uma enorme euforia, semelhante a que encontro nessa época do ano no Brasil. Euforia por compreender que o carnaval é um sentimento demasiado grande para caber num só país. Ele está em Cabo Verde, está em Porto Rico. Está em muitas viagens que ainda vou fazer. E em todas elas, eu apostaria, vou acabar encontrando alguém me perguntando, em inglês ou espanhol, se eu tenho glitter para emprestar. Aconteceu, e foi em Cayman. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.