Renato Jakitas/Estadão
Renato Jakitas/Estadão

De motorhome por Portugal, uma experiência no meio do furacão

Viagem a bordo de veículo enfrentou o furacão Leslie em Gaia, na região do Porto

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 04h30

Quando voltei para “resgatar” a bike presa à roda gigante em Gaia, estava apreensivo. Já estava sabendo que o furacão Leslie, o maior em Portugal desde 1842, havia alcançado o continente exatamente naquele dia, o primeiro em que estava com o motorhome. Segundo o motorista do Uber com quem conversei, o furacão chegaria na madrugada, um pouco mais ao sul, mas as chuvas começariam umas 23h no Porto. 

Seria preciso pedalar uns quatro quilômetros até o carro, mas ventava e a magrela quase não saía do lugar. Foram 15 longos minutos até avistar o motorhome. Dentro do trailer, com o aquecedor ligado, veio a dúvida: ir para onde? O aplicativo indicava o próximo estacionamento a uns 30 quilômetros, na praia. Não sei por que achei a ideia boa e fui para lá.  

No caminho, alguns pedaços de árvores já estavam no chão. Mandei uma mensagem para a dona do motorhome sobre o perigo daquilo que estava acontecendo e ela respondeu que estava tudo bem, era só não ir para a beira do mar. Quando disse que era justamente o que estava fazendo e inclusive já estava chegando, ela me mostrou toda a sua sagacidade perguntando se tinham outras autocaravanas por lá. "Duas", avisei. "Então está bem", ela respondeu, tranquila. 

Parei na frente da maior delas, um baita de um motorhome branco com duas janelas de cada lado. Avistei um casal simpático de senhores jogando baralho; ele sem camisa, ela com carinha de quem fazia bolo de vó. "Então está bem", eu pensei. Desliguei tudo e fui dormir. 

Durante a madrugada o motorhome balançava, fazia barulho, mas eu me lembrava dos dois senhores jogando baralho e me sentia seguro. Quando acordei no dia seguinte, me deparei com árvores caídas, um céu azul e nenhum sinal daquele casal que me transmitiu tanta segurança.

VENEZA PORTUGUESA

Saí dali em direção a Aveiro, a 77 quilômetros do centro de Porto. Na noite anterior, soube que o furacão tinha entrado no continente por ali. Quem não vai dirigindo, como eu, pode ir de trem a partir do Porto, em um bate-volta. 

Estacionei o trailer em uma rua contígua à Praça Humberto Delgado, coração do lugar. A praça fica em cima do Canal Central, de onde saem gôndolas, lá chamadas de moliceiros, para um passeio bucólico. 

Cada moliceiro – o nome remete ao uso da embarcação para apanhar moliços, uma espécie de alga – tem pintura exclusiva que retrata cenas do cotidiano. O tour pela Ria de Aveiro dura 45 minutos e custa 10 euros (R$ 44) por pessoa. 

Foi lá que comi o primeiro de muitos travesseiros de Sintra, originário da cidade homônima. Trata-se de um doce feito de massa folhada recheado com creme de amêndoas. Polêmica: achei melhor do que o tradicional pastel de nata. Outro doce típico são os famosos ovos moles de Aveiro, feitos apenas com gemas, água e açúcar. A parte externa é crocante e branca, como um suspiro, e por dentro um recheio macio, da cor da gema. 

As doçarias costumam vender caixas fechadas e garantem que os doces duram por 15 dias, sem refrigeração. Uma boa opção de presente para quem está no fim da viagem. Se estiver no começo dela, outra boa compra é a flor de sal: a cidade é conhecida por sua produção salina.

NOITE NO MONUMENTO

O dia terminou nas ruínas romanas de Conimbriga, localizada na freguesia de Condeixa-a-Velha, a 1 hora do Porto e a 20 minutos da nossa próxima parada, Coimbra. Trata-se de uma das maiores e mais importantes ruínas romanas do país, habitadas ente os séculos 9º a.C. e 8º d.C.. Os romanos teriam chegado ali entre os séculos 2º e 1º a.C..

A maior parte da visita se dá ao ar livre, percorrendo áreas com amplas colunas e belos mosaicos. O auge da visita é a Casa dos Repuxos, um exemplo de residência romana aristocrática. 

O ingresso para entrar nas ruínas custa 4,50 euros (R$ 20), mas o estacionamento é gratuito. Foi ali que parei o motorhome e dormi tranquilamente, em meio a um sítio histórico.

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