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Futebol, música para os ouvidos

Quem dá o show em uma partida são as torcidas - como na final da Champions League

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2019 | 04h35

Na madrugada de sábado para domingo passado, adormeci acompanhada de uma torcida inteira. Estava sozinha na cama, mas parecia haver ao meu lado milhares de pessoas, homens e mulheres, cantando no meu ouvido uma mesma canção. 

Sí, señor, dê a bola para o Firmino e ele vai marcar gol”, ouvia em looping dentro da minha cabeça. Culpa dos torcedores do Liverpool, que pareciam não se cansar de cantá-la durante os dias em que estiveram em Madri para a final da Liga dos Campeões, decidida no último sábado contra outro inglês, o Tottenham.

Esqueça a cacofonia e o fato de usarem o espanhol, e não o português, para homenagear Roberto Firmino, jogador brasileiro dos mais importantes. Cantada, a música vai bem, é viciante, apaixonante e dá certo orgulho de ser dedicada a um dos nossos, não posso negar. 

Ouvi a canção nas ruas madrilenhas e no Estádio Metropolitano, onde estive para acompanhar a final da mais importante competição europeia, a convite do portal de reservas Expedia. De dimensões olímpicas, a casa do Atlético de Madrid, escolhida para receber a decisão, parecia amplificar as vozes dos torcedores dos dois lados. E, apesar de todo o investimento em sons potentes e efeitos sensoriais, como bolas de fogo explodindo do gramado – e esquentando ainda mais o clima na arquibancada –, o que tornava tudo aquilo um espetáculo era a torcida. 

Cores, escudos e bandeiras diferentes

Mesmo que não houvesse show de abertura (este ano, da banda Imagine Dragons), não importaria. Tivesse faltado um dos lados, dos Reds (Liverpool) ou dos Spurs (Tottenham), onde estaria a graça? Para quem está já acostumada às torcidas únicas, como ocorre de forma controversa em São Paulo desde 2016, assistir a uma decisão com o estádio pintado com cores, escudos e bandeiras distintos é emocionante. E histórico – e, como tal, ficará registrado nos anais do esporte e na memória coletiva.

Isso sem falar nos importantes papéis que cumprem torcidas e clubes em momentos políticos e sociais de um país – lembrem-se da resistência do Barça durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo.

Não há futebol sem dois lados, havemos todos de concordar. E não apenas dois lados de jogadores, de técnicos, de dirigentes, de campo. Pois me responda se haveria sentido um time existir (de qualquer esporte) sem ter quem, um alguém que fosse, torcendo por ele. Está na natureza do futebol ser espetáculo. Não por vender ingressos e render bilhões a seus agentes, mas antes porque mexe com ânimos e sentimentos de forma inexplicável.

São muitos os exemplos de loucuras futebolísticas que fazem os torcedores. Segundo um estudo da Expedia, 74% dos viajantes brasileiros que reservaram viagens ali ou no Hoteis.com planejaram as férias ao menos uma vez de acordo com a data de eventos esportivos.

Tenho certeza de que, mesmo que você não tenha sido o protagonista, conhece alguma história de torcedor. Como essa, com a qual me deparei horas antes da decisão. Encontrei um grupo de belgas, fãs do Ajax (time eliminado nas semifinais pelo Tottenham).

Ansiosos, eles haviam comprado as passagens para a capital madrilenha antes de serem definidos os clubes que iriam para a final. Apostaram no Ajax, claro, e desembolsaram ¤ 500 para estar em Madri. Mesmo sem ingressos e sem a alegria de ver o próprio time em campo, decidiram viajar – e apoiar o Liverpool como uma espécie de prêmio de consolação.

Não encontrei os belgas depois da bonita vitória do Liverpool por 2 a 0 no Metropolitano, mas tenho certeza de que, no meio da festa dos Reds nas ruas vibrantes do centro de Madri, a frustração pelo Ajax ficou esquecida – ou se transformou em esperança para o próximo ano. Eu mesma, são-paulina saudosa de títulos, deixei de lado as derrotas do meu clube do coração. Preferi cantar a canção do Firmino, vivendo a chance única de uma noite histórica. 

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