Felipe Mortara
Felipe Mortara

Geórgia do sul: explosão de vida

Não há como prever com exatidão os pontos de desembarque: tudo é definido dia a dia, a partir da previsão meteorológica. A única certeza é ser surpreendido por visuais alucinantes

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 04h29

Quando desembarquei do bote sobre o cascalho preto da praia de Salisbury Plain, foi como se tivesse entrado em outra dimensão. Como se eu não fosse mais um humano com casacão vermelho e câmera fotográfica em punho. Por vezes, o sol até aparecia, mas imperava um frio de temperaturas negativas. Uns 10 pinguins-reis logo se aproximaram, curiosos. Mais atrás, lobos-marinhos-antárticos e elefantes-marinhos despreocupadamente esparramados. Difícil segurar a emoção. 

A Geórgia do Sul causa esse efeito na gente. Considerada a mais pulsante das ilhas subantárticas, reúne a maior concentração de mamíferos e aves do Atlântico Sul. Grandes metrópoles selvagens, Salisbury Plain e Saint Andrews, as duas maiores colônias de pinguins-rei da ilha, concentram cerca de 350 mil indivíduos. “Parece Tóquio”, brincou um dos guias. No mar, é comum avistar baleias jubarte e franca. Pelos ares, desfilam petréis gigantes e albatrozes

“A vida é tão exótica e farta que faz Galápagos parecer uma fazendinha para criança”, exagera o engenheiro Sebastian Coulthard, membro da expedição e especialista em história antártica. Para além dos bichos, a geografia da ilha, com 2,5 vezes o tamanho da cidade de São Paulo, é dramática, repleta de montanhas nevadas de até 3 mil metros de altitude, geleiras, fiordes e baías. E apenas 8 mil visitantes pisaram ali na última temporada.

Outro desembarque ali foi em Gold Harbour, uma enseada compacta, onde quase não descemos em razão da quantidade de elefantes-marinhos ocupando a praia. Pinguins-rei iam e voltavam do mar trazendo alimento para os filhotes, de plumagem marrom. Emoldurando tudo, um dos mais belos glaciares da viagem, que outrora tocava a praia e é uma das provas de que as geleiras estão retraindo. 

Na Antártida, nem todas as belezas estão em terra firme. Ao longo de três horas de navegação pelos quase 11 quilômetros de extensão do Drygalski Fiorde, era impossível deixar o convés do navio, mesmo com as fortes rajadas de vento castigando os cruzeiristas. Parecia que estávamos colados aos blocos, que caíam aos poucos. Montanhas pontiagudas e nevadas, como as dos Andes ou as do Himalaia, brotando do fundo do mar é algo surreal.

Passado. O capitão James Cook aportou na Geórgia do Sul em 1775 e a reclamou como britânica. Depois vieram os caçadores de focas e baleeiros ao longo do século 20. Principalmente noruegueses, receberam licença para abater e processar centenas de milhares de baleias até 1965. Por décadas, a ilha foi a maior produtora mundial. 

Hoje, o foco é a preservação. Desde o fim da cessão do território aos noruegueses nos anos 1960, o Reino Unido mantém na ilha uma estação de pesquisa com cerca de 15 cientistas que se alternam em ciclos de 6 meses a um ano. A base fica em Grytviken, a maior das usinas, e na antiga casa do gerente funciona um museu com a história da ilha e bichos empalhados. É o único momento em que se pode tocar na pele de pinguins e focas e perceber sua textura – nada de encostar nos animais vivos, a regra é clara. Ali há um posto dos correios com cartões-postais (que saem com carimbo da Antártida), além de uma lojinha de souvenirs. 

O homem, a lenda. A Geórgia do Sul ficou famosa também pela história do navegador inglês Ernest Shackleton, que em 1914 pretendia cruzar o continente antártico passando pelo Polo Sul. À frente de 27 homens, o capitão viu seu navio, o Endurance, ficar preso numa banquisa e ser esmagado pela pressão do gelo. A partir dali se consumou, quiçá, a mais impressionante história de sobrevivência da navegação. Durante dois anos os homens ficaram desaparecidos – mas todos saíram com vida. 

Depois de sair da Ilha Elefante numa travessia de 1.500 quilômetros em 16 dias, a bordo de um barco salva-vidas, Shackleton e mais cinco homens chegaram à Geórgia do Sul. Porém, do lado sul da ilha, dividida por uma cordilheira e geleiras com enormes fendas. O Shackleton e mais dois homens, fizeram o percurso em 36 horas – sem mapas. 

Caminhamos pelo último trecho dessa aventura, os 6 quilômetros que ligam as baías de Fortuna e Stromness. Foi emocionante alcançar o exato ponto em que os homens avistaram a estação baleeira, cujas ruínas seguem ali. O apito da fábrica foi a certeza de que estavam a salvo. Era 19 de maio de 1916, mas ao ecoar sua buzina pelo vale 101 anos depois da jornada, o Hebridean Sky nos fez sentir um arrepio extra. 

Shackleton descansa no pequeno cemitério de Grytviken, onde morreu de enfarte em 1922. É tradição jogar um pouco de uísque em sua lápide. Ah, e na saída, fechar o portão para as focas não entrarem. 

Num caiaque, remando entre blocos de gelo

Da coleção de vivências desta viagem gelada, remar um caiaque na Antártida é a que mais causa surpresa. A sensação é de estar muito mais envolto na natureza, sem intermediários, como nos passeios em botes com motor de popa. “Você está consigo mesmo, num mundo de silêncio, que não existe. Essa experiência tem a ver com estar em harmonia com a Antártida, talvez o lugar mais cheio de paz que existe”, explica Ewan Blyth, instrutor de caiaque da Polar Latitudes. 

A atividade é cobrada à parte (custa US$ 695) e é limitada a 16 passageiros, que precisam aderir para a viagem toda – não dá para ir apenas uma vez e pagar avulso. É um contrato peculiar, pois não dá para prever quantas vezes haverá condições propícias de as pequenas embarcações irem para a água. Daí, a cada desembarque em que o mar “está pra caiaque”, os integrantes do grupo são convocados pelo alto-falante e podem optar se irão remando ou de bote. Mas vale muito a pena. 

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