Gosto apurado: de garfo (e taça) em punho

Numa cidade com tantas opções para comer (e bem) fora, é admirável que 60% da clientela do Pinxo sejam hóspedes do hotel onde ele está instalado, o Renaissance Paris Vendôme. Isso quer dizer que a comida é boa, antes de mais nada. Culinária basca com toques asiáticos, nada esnobe e preparada com ingredientes da estação pelo chef Alain Dutournier, duas estrelas no Guia Michelin. Mas pode querer dizer também que os preços não são um assalto. Por 70 (uma camisa e meia da Lacoste, veja só) você sairá de lá querendo voltar. E ainda pode querer dizer que, por se tratar de um hotel-butique discreto e queridinho do pessoal fashion que lota a cidade nas semanas de moda, não é difícil encontrar uma top model na mesa ao lado. Eu não dei essa sorte. Só vi o futebolista Bixente Lizarazu, lateral-esquerdo da seleção francesa na Copa de 98, aquela que o Zidane acabou com a gente. Apesar disso, fui um homem feliz com garfo e faca nas mãos. Os tartines de presunto curado com tomate e azeite estavam leves, memoráveis. O salmão marinado com ovas de arenque e erva-doce, uma seda. E os camarões com arroz de coco e curry verde... Ai que vida chata...

O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2013 | 02h16

Mas você, homem insaciável das coisas boas da vida, quer sempre mais. Então se dirija aos arredores da Sorbonne, no Quartier Latin. Numa ruazinha aprazível, de frente para a Bibliothèque Sainte-Barbe, está o De Vinis Illustribus. No local, há tempos funciona uma loja de vinhos. Era onde Hemingway se abastecia. Chegou a ser a principal do ramo na Paris dos anos 60. Em 1994, Lionel Michelin, um ex-executivo do setor de telecomunicações, o transformou em algo mais especializado. Ele garimpa vinhos raros, de safras antigas. Roda a França em busca de viúvas que topem vender a tão querida adega do falecido, agora sem serventia. Na clientela, sommeliers de restaurantes famosos e novos ricos em geral querendo se sentir gente diferenciada.

"Um dia entrou um japonês querendo um Château Mouton Rothschild 1945/First Cru Classé of Pauillac, porque era o ano de nascimento dele. Consegui uma garrafa: 6 mil na época; hoje vale 10 mil", dá o tom o Lionel. No meu ano, 1974, ele disse que não houve safra digna de lembrança na França. Eu já desconfiava...

Mas você não precisa ter a conta bancária daquele japonês para provar os vinhos. Pode descer à adega com fundações de 1636 e mergulhar numa degustação inesquecível. Lionel me ofereceu o Tour de France dos Vinhedos, que custa 105. Foram quatro tipos de vinho: um Pouilly Fuissé 2001 (Borgonha) com queijo comté; um Château La Horse 2005 (Bordeaux) com presunto, salame e terrine de foie gras; um Châteauneuf du Pape Ménétrier 1978 (Rhône) com torta de cogumelos e brotos de alface; e, terminando, um Banyuls Coume del Mas 2007 (vinho doce fortificado de Roussillon) com gorgonzola e macarons de chocolate e café.

Bom, eu acho que não consigo descrever o quão bom foi aquilo. Lionel normalmente não participa das degustações, mas se eu fosse você insistiria para que ele se sentasse à mesa também. Tudo fica ainda melhor com as informações, as histórias, a paixão dele pelo Santos do Pelé. É um devoto da causa, diligente e sem uma gota do pedantismo dos homens que tratam vinho por "néctar dos deuses" (ui!). Antes de me despedir e cambalear escada acima perguntei qual o melhor vinho que existe. "O próximo", Lionel respondeu de bate-pronto. Passeio perfeito para um final de tarde ensolarado depois de uma visita à Notre Dame, que fica a nem dez minutos de caminhada.

E que tal um giro por Saint-Germain-des-Prés, o bairro do jazz e das letras nos anos 50 e 60? É verdade que muitos dos bares musicais se foram, livrarias viraram butiques... Mas como dizem os parisienses, se tudo está diferente, nada realmente mudou no pedaço da cidade onde viveram Danton, Marat, Diderot, Rimbaud, Duras, Gainsbourg... onde beberam Fitzgerald, Joyce, Hemingway, Sartre, Beauvoir... onde tocaram Miles, Ellington e Parker... Você pode simplesmente sentar no Café de Flore, quem sabe no Les Deux Magots, e ver a agitação da rua. Ou, se for um homem, digamos, aberto a novas experiências, contratar um passeio a pé da agência Robert Pink para percorrer lojas de chocolate e galerias de arte. A mistura é boa. Custa 80 por pessoa, degustações inclusas, e dura três horas.

Passa pela casa Pierre Hermé, antiga dinastia de confeiteiros da Alsácia, pela Pierre Marcolini, com seus bombons apimentados, La Pistacherie (delícias à base de pistache) e a Grom, o novo melhor sorvete de Paris. A guia Marion Prouteau, fundadora e única funcionária da agência, é uma historiadora da arte com uma queda por arte contemporânea. Mas eu relevei isso quando ela me encaminhou ao Un Dimanche à Paris, misto de salão de chá, restaurante, escola de pâtisserie, e insistiu para que eu provasse o chocolate quente do lugar. A moça sabe das coisas.

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