REUTERS/Edgar Su
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Grívnias, meticais e outras moedas

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2017 | 03h04

Nosso viajante prepara-se para o verão no Hemisfério Sul. Consta que, mais uma vez, virá ao Brasil. Breve confirmaremos. A seguir, a correspondência da semana:

Caro Mr. Miles: como faz um viajante para usar tantas moedas diferentes em lugares extravagantes? O senhor sempre troca suas libras por dinheiro local? E qual é o dinheiro mais bonito, na sua opinião? 

Gunter Kaisenberg, por e-mail

Well, my friend, pergunta interessante a sua. Nos tempos em que ainda era um homem de posses (antes de torrar a fortuna que herdei de uma desconhecida contraparente), dava-me ao luxo de colecionar moedas. This was not brilliant. Com a inflação, as mudanças econômicas locais e alguns arroubos autoritários, muitas das moedas tornaram-se pó. Tenho, for instance, alguns maços de marcos alemães dos tempos da República de Weimar. Se o valor de face existisse, eu compraria um luxuoso automóvel germânico. À época, porém, nem a soma de todos marcos que colecionei eram capazes de adquirir uma única caixa de fósforos.

Hoje ando apenas com pequenos valores. O suficiente, let’s say, para garantir o whisky 12 anos de Trashie e meu single malt. Uso moedas locais que troco com meus amigos, compadres e afilhados ao redor do mundo. As taxas, I must say, são bem mais generosas quando você tem um amigo de confiança no destino. (Mais um ótimo motivo para viajar, isn’t it?). Quando sobra um valor razoável, fazemos a retroca. Mas quase sempre fico com algumas moedas de pequeno valor e uma ou outra nota irrelevante. 

Tenho dois baús cheios de dinheiro de todo o planeta. Um ladrão mal informado que entrasse em minha casa no Condado de Essex julgaria ter encontrado a fortuna de sua vida. Unfortunately, o único valor que esse dinheiro tem é o de me ajudar com carregadores de malas quando desembarco em algum lugar. Robert Growald, my old friend, precisa aparecer com mais frequência em casa, para ampliar sua coleção numismática.

As moedas ao redor do mundo têm nomes recorrentes: muitos países usam dólares, libras, francos, rupias e pesos. Outros, however, batizam seus valores de troca com nomes peculiares. Vejam só: na Ucrânia, aonde vou frequentemente para rever a doce Yulia, a moeda chama-se grívnia. Soa-me como uma espécie de psoríase... ‘Ah, pobre Ulyana: está cheia de grívnias’.

Pois se na Ucrânia a moeda tem um nome que lembra doença, a cura talvez esteja em Moçambique, país onde circula o metical. Quem sabe um metical a cada seis horas não cure a grívnia de Ulyana?

Em Botsuana, lugar em que pratico birdwatching de primeira qualidade, o dinheiro chama-se pula. Pula significa chuva. E sua fração, o thebe, quer dizer ‘gota’. Nomes adequados a uma nação que é ocupada por grandes desertos. No Panamá, é bom ter um punhado de balboas no bolso. Não: o nome não vem do pugilista interpretado por Sylvester Stallone, mas do conquistador espanhol Vasco Nuñes de Balboa. O tema é extenso, fascinante e quase infinito. Moedas são suvenires que se pode trazer de uma longa viagem – e, nesse caso, não se pode usar o termo vil metal. Don’t you agree?

Quanto a notas bonitas, my dear Gunter, é claro que vai de gosto. Países tropicais costumam imprimir notas alegres. Não conheço nenhuma tão bela quanto a dobra de São Tomé e Príncipe. A nota de 50 mil dobras (o equivalente a pouco menos de dois euros) é um delírio ornitológico, com uma bela conobia (ave local) a ilustrá-la. Os antigos francos franceses eram bonitos – I’m sorry to say. Mas os da Polinésia são ainda mais perturbadores. E é bom ter muitos deles se você quiser passar alguns dias por lá. Gosto muito, também, do rial iemenita. Para colecionadores, I recommend. Notas cheias de vida em um país, unfortunately, cheio de mortes.”

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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