Fernanda Simas/Estadão
Fernanda Simas/Estadão

Haiti, em busca do recomeço cinco anos após terremoto

Com infraestrutura ainda precária, o país aposta em natureza e mar cristalino para convencer viajantes de que pode ser um bom destino

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2015 | 03h00

PORTO PRÍNCIPE - Caminhar pela capital Porto Príncipe hoje, cinco anos após o terremoto que deixou cerca de 250 mil mortos no Haiti – completados na última segunda-feira – significa encontrar prédios em obra e espaços vazios onde outrora estavam casas e edifícios destruídos pelo tremor. No entanto, o país agora quer deixar de ser destino apenas de visitas humanitárias e lembrar ao mundo que está no Caribe e tem potencial para atrair turistas.

Ainda em reconstrução, o Haiti tenta desvincular sua imagem da tragédia de 2010. O Ministério do Turismo local investe em propaganda e concede incentivos fiscais a empresas e redes hoteleiras. De acordo com o órgão, em 2013 o país recebeu 20% mais turistas, 78% deles vindos do Canadá, Estados Unidos e México. 

Segundo a ministra do Turismo, Stéphanie Balmir Villadrouin, o principal desafio é convencer visitantes a virem ao Haiti. “Podemos gastar muito com propaganda, mas não é o mesmo que ter pequenos grupos de pessoas aqui, visitando.” 

A infraestrutura precária da capital ajuda a explicar a dificuldade. Não há saneamento básico na maioria dos locais e falta energia ao longo de 11 horas por dia. Para compensar, os hotéis se transformam em ilhas, onde a água é tratada de forma particular, a luz, fornecida por geradores e a segurança, garantida por homens armados nas portas.

Hoje, empresários são os principais visitantes, levados pelos negócios ligados à reconstrução do país. Mas não são vistos com frequência pelas ruas, já que, em geral, usam carro e transporte oferecido pelos hotéis para evitar o assédio dos haitianos que pedem dinheiro e buscam trabalho temporário. 

Em Pétion-Ville, região mais rica do país, haitianos vendem roupas, pinturas e comida em barracas improvisadas e nos portões das casas. Outros oferecem o serviço de lavar carros dos empresários e diplomatas. No fim de semana, ruas ficam ocupadas com veículos importados, jipes e SUVs sendo lavados. 

Um pouco de história. Aberto em 1983, o Museu do Pantheón Nacional Haitiano (509- 2222-8337) conta a história local e homenageia os chamados Pais da Nação, cidadãos que morreram lutando pela independência, conquistada em 1804. Exposto está também um dos orgulhos dos haitianos, o sino tocado em 1793, quando a escravidão acabou no país – o Haiti foi o primeiro no mundo a abolir a escravidão. Há outro sino, o da Catedral de Porto Príncipe, destruída no terremoto de 2010.

O bem preservado Fort Jacques, a 12 quilômetros de Porto Príncipe, foi construído após a independência por Alexandre Pétion. Charles Proface, que trabalha ali como guia, mostra com orgulho os canhões e os espaços usados pelos soldados. A vista é da baía de Porto Príncipe. Aos sábados, famílias e grupos fazem piqueniques e dançam ao som de músicas creoles. 

Natureza. Para atrair não só engravatados, mas também turistas atrás de sol e mar, que costumam procurar a vizinha de ilha República Dominicana, o Haiti tenta promover a ideia de aproveitar o Caribe em praias virgens e não dominadas por resorts. 

O canadense Rian comprou a ideia. No Haiti pela quinta vez a trabalho, esperaria a namorada para passar o ano-novo em alguma praia. “Tem muito potencial, mas é desorganizado, precisa de estrutura”, disse.

Durante um passeio de barco até a ilha La Gonâve, o mar varia entre tons de azul, do claro ao mais escuro. Montanhas quase despovoadas compõem o cenário. Na água cristalina é possível avistar peixes e estrelas-do-mar sem máscara. Empresários haitianos costumam passear de barco pelo local nos fins de semana. Para os turistas, um americano abriu a Marina Blue (marinabluehaiti.com) e oferece passeios de barco e mergulho.

NO PRATO, A RIQUEZA DA MARCANTE COZINHA CREOLE

Os temperos creoles da gastronomia local enriquecem os pratos em aroma e sabor e atraem os visitantes. O Restaurante Le Michel (www.lemichelrestaurant.com), em Pétion-Ville, prepara uma das mais tradicionais receitas do Haiti, o poulet djon-djon, frango acompanhado com legumes e arroz feito com uma espécie de cogumelo nativo. Outro clássico da ilha é o picadinho de cabrito com legumes em um molho à base de vinho tinto. Para acompanhar, escolha entre a cerveja local Prestige ou o drink sauer lakay, feito com rum e frutas. 

COTIDIANO NARRADO EM PINTURAS E ESCULTURAS

Penduradas em varais improvisados, perto de pontos turísticos e nos locais onde sabem que serão notados, haitianos exibem sua arte. Coloridas pinturas retratam aspectos da cultura local e do cotidiano dos moradores, reproduzem a vida de crianças e trabalhadores, destacam manifestações religiosas e o animal símbolo do país, o galo, por todo canto de Porto Príncipe. 

Trabalhos de haitianos mais conhecidos no mundo das artes, como Riché Pierre-Louis e Normil André, podem ser encontrados na Galeria Nader (galerienaderhaiti.com). Boa parte do espaço é dedicada às representações religiosas e, assim como na vida da população local, o vodu e o cristianismo estão presentes e misturados. O quadro Possession, de Magloire Stivenson, exibe símbolos do vodu, como a estrela de seis pontas sobre fundo preto.

A maioria das esculturas também reproduz objetos e histórias do vodu, como o pequeno boneco de bronze com roupa roxa, simbolizando o guardião do cemitério. Próximo às imagens, um retrato da visita do papa João Paulo II ao Haiti, em 1983. Na pintura de Semerand Galland, a população que se juntou ao redor da Catedral de Nossa Senhora da Assunção, no centro de Porto Príncipe, recebe a bênção do pontífice.

Antes. Alguns dos quadros mostram a capital do país antes do terremoto de 2010. Um deles, também de Semerand, realça a imponência do palácio presidencial. Segundo empresários haitianos, a enorme casa branca ainda não foi reconstruída porque o presidente Michel Martelly afirmou “ser melhor reconstruir a cidade antes do palácio”.

SAIBA MAIS

Aéreo: Via Panamá, SP– Porto Príncipe–SP desde R$ 3.618 na Copa (copaair.com). Via Estados Unidos (com visto americano), R$ 2.788 na Delta (delta.com)

Documentos: brasileiros não precisam de visto. Vacina contra febre amarela é exigida (oesta.do/anvisavacina

Site: haititourisme.gouv.ht 

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