Herança natural

Encarar a sustentabilidade como hábito pode ser a receita para viajar de consciência limpa. E garantir belos cenários para as próximas gerações

Adriana Moreira e Bruna Tiussu

01 Junho 2010 | 01h52

Solução. Região do Jacaré-Pepira, em Brotas, foi salva pelo turismo. Foto: Ju de Francisco/Divulgação

 

SEMANA DO MEIO AMBIENTE - Antes de escolher um hotel, você normalmente avalia se é confortável, tem boa localização e diárias compatíveis com o orçamento da viagem. Até aí nada de novidade. Só que essa lista está sendo ampliada - e com itens que até algum tempo atrás poucos prestavam atenção. Uso de energia solar, ações de reciclagem e atitudes sustentáveis começam a pesar na hora da decisão. Dado animador às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, a ser comemorado no sábado.

 

"O consumidor quer viajar, mas sem sentir culpa por um possível impacto na natureza", explica a coordenadora técnica do Instituto EcoBrasil, Ariane Jáber. Apesar de no Brasil esse "raciocínio sustentável" ser novidade, parte dos turistas estrangeiros já pensam assim, segundo a professora Karin Decker, do curso de Turismo da Anhembi Morumbi.

E o que vale para aquela pousadinha numa região de lindas cachoeiras ou aquele resort perto da área de desova de tartarugas marinhas também precisa ser levado a sério pelos destinos ligados ao ecoturismo. Afinal, eventuais danos causados à natureza hoje podem interromper a chegada de visitantes amanhã.

 

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Ainda há muito o que fazer num país onde as belezas se espalham pelos 8,5 milhões de quilômetros quadrados de território, mas alguns locais já avançaram na questão ambiental a ponto de servirem de exemplo. É o caso de Bonito (MS), onde comunidade, governo e iniciativa privada se uniram em prol do turismo sustentável. Definido por planos de manejo específicos, o número de visitantes em cada passeio tem limite diário rigoroso. "É mais fácil planejar com sustentabilidade que consertar os danos depois. E a cidade se planejou", explica Ariane, do EcoBrasil.

 

 

 

Beleza natural. Em Bonito, limite máximo por atração. Foto: Marcelo Krauser/Divulgação

A ideia, agora, é criar um modelo semelhante para a Amazônia. "Queremos despertar o interesse do brasileiro para a região. É possível aproveitar os 1 milhão de turistas que vão até ali a negócios e oferecer roteiros complementares", diz o coordenador da Agência de Desenvolvimento do Turismo da Macroregião Norte, Aristides Cury. "Até o fim do ano, teremos mais opções a partir de Belém e Manaus."

Ministério do Meio Ambiente e Sebrae montaram programas de capacitação da mão de obra local. "Tudo isso vai criar uma sinergia. O desenvolvimento sustentável ajuda na distribuição de renda e na fiscalização da natureza", acredita Cury.

Bom negócio. Os números mostram que a sustentabilidade também pode ser um bom negócio. Segundo a Organização Mundial do Turismo, o ecoturismo cresce 20% ao ano. No primeiro dia do Salão do Turismo, realizado em São Paulo semana passada, mais da metade dos negócios (em torno de R$ 10 milhões) foram feitos neste setor. Reflexo da crescente demanda nacional.

Para profissionalizar as empresas da área, o Ministério do Turismo criou em 2006 o programa Aventura Segura. Coube à Associação Brasileiras das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta) elaborar normas com princípios de segurança, gestão e qualidade do serviço. A etapa seguinte, iniciada em março, foi fazer o processo de certificação. Quinze empresas foram aprovadas - até o fim do ano, o total deve chegar a 130.

Outras duas já têm o documento: Kango Jango, de Socorro, e Alaya, de Brotas. Em Brotas, aliás, o turismo surgiu para impedir a instalação de um curtume às margens do Jacaré-Pepira, nos anos 1990. Sucesso: o rio continuou intacto. Uma herança e tanto para as próximas gerações.

 

 

 

ATITUDE VERDE

 

1 Não deixe, não leve

Leve de volta todo o lixo que tiver produzido no passeio. As embalagens voltam vazias, ou seja, estão mais leves do que na ida. Não retire plantas, rochas ou fósseis da natureza. Já pensou se todos fizerem o mesmo?

 

2 Valorize a cultura local

Vai comprar uma lembrancinha? Escolha trabalhos de artistas locais e itens típicos. Dessa maneira, você contribui para a autoestima dos moradores, valoriza a cultura regional e ainda leva para casa uma peça única.

 

3 Não alimente os animais

Mesmo que seja para tirar uma foto de perto ou que você fique com pena, não dê comida a bichos silvestres. Isso faz eles desistirem de procurar alimentos na natureza, onde está a dieta que necessitam.

 

4 Seja consciente

Se você não troca de toalha todos os dias em casa, pode fazer o mesmo no hotel e, assim, poupar água. Da mesma forma, evite banhos demorados e economize energia elétrica. O meio ambiente agradece.

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