Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

História à vista na terra de Miguel de Cervantes

Ruínas romanas, mosaicos mudéjar, igrejas medievais. Percorrer as cidades-patrimônio da Espanha é como caminhar pelo passado

Felipe Mortara, O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2015 | 03h00

Bonitas, delicadas e polvilhadas por um sem-fim de construções multicentenárias, lindas igrejas, monumentos e praças paradas no tempo. São, antes de tudo, preservadas com esmero. As cidades-patrimônio, cujos centros históricos foram assim classificados pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), souberam conservar a riqueza arquitetônica deixada por seus antepassados. E a Espanha está cheia delas.

Atualmente, a Unesco considera patrimônios 1.007 sítios espalhados por 161 países. Na Europa, o continente com a maior quantidade deles, a Espanha é um dos países com maior número de tesouros: 44 no total. Destes, 15 são formados por antigos centros históricos e vilas muradas – no continente e nas Ilhas Canárias e Baleares – que pertencem ao Grupo Ciudades Patrimonio de la Humanidad de España (ciudadespatrimonio.org), entidade que reúne 15 das cidades contempladas com o título concedido pela Unesco com intuito de fomentar o turismo e a preservação. A título de comparação, no Brasil, estão nessa categoria os centros históricos de Olinda (PE), Salvador (BA) e Ouro Preto (MG).

Edifícios, cidades, paisagens e até mesmo costumes populares ganham outro sentido ao serem classificados como patrimônio pela Unesco. “Uma cidade-patrimônio é aquela que soube preservar a herança histórica que recebeu e que dispõe de um inegável valor cultural, singularidade e excepcionalidade”, explica Ángel Rosado, gerente da organização.

Trata-se, portanto, de lugares únicos e extraordinários – não necessariamente famosos. Um motivo a mais para criar um roteiro não convencional pelo país ibérico.

Os critérios da Unesco são bastante rígidos para seleção destas cidades – status turístico definitivamente não garante título – e o processo pode levar décadas. “É preciso garantir a proteção e manutenção dos centros históricos, inclusive arcando com restauração. E também integrando o patrimônio com o estilo de vida atual”, pondera Rosado.

Além das conhecidas Córdoba e Santiago de Compostela, a lista contempla cidadezinhas que não costumam aparecer nos pacotes de viagens tradicionais dos brasileiros, como Cuenca e Alcalá de Henares, que você conhecerá melhor nesta e nas próximas páginas. 

TERRA DE CERVANTES RESPIRA LITERATURA

Alcalá de Henares - O mais famoso filho de Alcalá de Henares bem poderia ter imaginado um enredo no qual, ainda bebê, é depositado por uma cegonha na casa de seus pais, que vivem no alto de uma torre centenária. Seria um roteiro plausível para quem escreveu sobre um matuto que se crê cavaleiro andante e enxerga monstros em moinhos. Conhecer a terra natal de Miguel de Cervantes Saavedra é dar novo sentido à história de Dom Quixote de La Mancha e encontrar-se com uma Espanha pouco turística, porém vigorosa e inspiradora. Literalmente.

Majestosas, as cegonhas são o símbolo da cidade que guarda ruínas romanas e muralhas árabes nos arredores de Madri. Brancas, grandes e desengonçadas, as aves reinam absolutas em edifícios e torres no alto dos quais fazem ninhos espalhafatosos. São alvo fácil das câmeras dos turistas, ainda que os cerca de 200 mil habitantes não estejam nem aí.

Deixemos as cegonhas e voltemos a Cervantes, que não foi carregado por ave alguma. Sua certidão de nascimento, de 9 de outubro de 1547, está guardada até hoje, como um tesouro, na prefeitura. Mas a parada obrigatória fica no número 48 da Calle Mayor. É fácil saber que chegou: bem na porta há um banco no qual estátuas de Dom Quixote e Sancho Pança parecem confabular algum plano.

Atravesse o pequeno portão e entre na Casa Natal de Miguel de Cervantes (grátis; museocasanataldecervantes.org), pequeno museu sobre o filho pródigo. Apesar de não ser original, a mobília de época ajuda a compreender a configuração de uma casa do século 16 e conta um pouco sobre a vida do autor, que viveu na cidade só até os 4 anos, e, ainda assim, é o carro-chefe do turismo em Alcalá.

Impávido com sua pena em mãos, o mais icônico escritor espanhol domina a praça principal, que leva seu nome. Ali está a Torre de Santa Maria, de onde se tem uma bela panorâmica da cidade. Para chegar no alto, é preciso enfrentar 109 degraus (entrada 1 euro). Haja fôlego.

Pela proximidade de Madri (são apenas 40 minutos de ônibus), a cidade recebe muitos turistas de um dia só. Contudo, se firmou como polo de congressos – foram mais de 1.300 em 2013. De 1997 a 2014, a cidade passou de 500 para 3,5 mil leitos e tem até ônibus direto para o Aeroporto de Barajas, em Madri.

‘Complutum’. Nos tempos do império romano, Alcalá chamava-se Complutum, ou “cidade no vale onde confluem vários rios”. Dos mouros, foram herdadas torres e muralhas – mesmo que em poucos trechos – e o nome, Alcalá (Fortaleza). Judeus, árabes e cristãos circulam por essas bandas desde o século 9. O patrimônio arqueológico ainda não explorado é enorme. No entanto, os trabalhos de escavação não são prioritários na economia espanhola em recuperação.

Entre as heranças já preservadas, um marco importante é a Universidad de Alcalá, uma das primeiras da Espanha, erguida entre 1499 e 1508. A fachada de Rodrigo Rio tem ares eclesiásticos e o pátio interno, com três andares de arcadas com pés-direitos de diferentes alturas, provoca estranheza à primeira vista.

Não deixe de visitar a Capela de San Idelfonso, onde repousa a cripta do Cardeal Cisneros (um dos idealizadores da universidade) sob um céu de estrelas de madeira estilo mudéjar.

Mas os destaques são os salões, entre os mais belos do país, com quase 500 anos de história. Talvez a mais famosa seja a Sala Paraninfo, onde todo 23 de abril o Rei da Espanha entrega o Prêmio Cervantes, o mais importante da literatura espanhola. No rol de contemplados, autores como Jorge Luis Borges e Mario Vargas Llosa. É compreensível tal honraria ser oferecida em um local de tamanha beleza: o teto de madeira entalhado também em estilo mudéjar e o piso de ladrilhos, encaixados um a um, formam deslumbrantes mosaicos.

Não se espante se sair de lá com aspirações literárias e enredos amalucados. Alcalá é, de fato, inspiradora.

TOLEDO

Medieval e sofisticada são adjetivos que dificilmente estariam na mesma frase. No entanto, Toledo, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1986, conseguiu essa façanha ao longo dos séculos. Baluarte multicultural e de tolerância religiosa, a cidade tem muito a ensinar sobre o convívio entre religiões, já que aqui coexistiram – e ainda convivem – cristãos, árabes e judeus.

As vielas labirínticas bem que tentam confundir os turistas, mas a cidade tem farta sinalização. Por exemplo, achar a Catedral de la Asumpción é moleza, entrar custa 8 euros, mas sair é triste. Síntese do poder da cidade, foi erguida entre 1226 e 1463 sobre a antiga mesquita e a basílica visigoda. Apenas para dimensionar a riqueza das esculturas e vitrais, até 1830 a terceira maior fortuna espanhola era a da Arquidiocese de Toledo.

Convertida em igreja ao longo da história, a Mesquita Cristo de la Luz (2,50 euros; Calle Cristo de la Luz, 22) é um pequenino prédio de estilo mudéjar que evidencia a presença árabe. Já as sinagogas intrigam: a Del Transito, erguida em 1355, tem o teto forrado por mosaicos de pinho em estilo mudéjar e abriga o Museu Sefardi (3 euros; museosefardi.mcu.es), que oferece um panorama sobre a cultura judaica.

Já a de Santa Maria La Blanca (entrada 2,50 euros) desafia ainda mais a lógica. Tem nome de santa cristã, arquitetura em estilo árabe e freiras transitando pelo jardim. Para completar o imbróglio étnico-religioso, uma exposição de peças históricas, patrocinada por uma organização católica que, por sua vez, foi fundada por um judeu convertido. Na Calle de los Reyes Católicos, 4. 

Herança. A mistura arquitetônica e cultural tem origem na história da cidade. Batizada Toletum pelos romanos que ali chegaram em 192 a.C., foi ornada com templos, teatros e aquedutos. E coroada com a Ponte de Alcântara, que cruza o Rio Tajo, ou Tejo – o mesmo que vai desaguar em Portugal. Tudo isso para, em seguida, se transformar em capital do reino visigodo pós-romano, até ser tomada pelos mouros em 711. 

Pelos idos de 1085, a chegada das tropas cristãs de Alfonso VI transformou o pluralismo em debandada. Os ultimatos dados a muçulmanos e judeus para que se convertessem ou partissem impuseram um fim temporário à coexistência religiosa. O tempo se encarregou do rearranjo.

Toledo foi ainda capital do reino da Espanha e, no fim do século 15, fundou sua Escola de Tradutores. Posteriormente, se converteu em um dos grandes centros de ensino e arte do país.

CUENCA

O principal cartão-postal de Cuenca se debruça perigosamente sobre as gargantas dos Rios Júcar e Hécar, que circundam a cidade. É de espantar: as chamadas Casas Colgadas, seu principal cartão-postal, desafiam a gravidade e exibem ali sua audácia desde o século 14. Medieval e encravada no alto de uma falésia, Cuenca tem jeitão de cenário de filme, com escadarias, ruelas estreitas e misteriosos túneis. Por outro lado, surpreende ao se revelar um polo de museus, especialmente de arte abstrata, com um dos mais impressionantes acervos do tipo no país.

De onde quer que se olhe, a vista nunca desaponta. Moderna, ainda que “apenas” centenária, a ponte de San Pablo liga o convento homônimo, onde hoje funciona um Parador (mais informações ao lado), à parte principal da cidadezinha. Também é dela que se tem a melhor vista das Casas Colgadas.

Embora várias casas tenham sido construídas no passado, apenas três resistiram ao tempo. Dentro de duas delas funciona o Museu de Arte Abstrata Espanhola (3 euros; march.es/arte/cuenca), impressionante acervo que passou a ser agrupado em 1966 pelo artista Fernando Zóbel. No local, estão reunidos trabalhos da chamada Geração Abstrata, que viveu em Cuenca nos anos 1950 e 1960. São pinturas e esculturas modernas, transgressoras e pesadas, concebidas especialmente durante os anos de ditadura franquista.

Inusitado por estar onde está, do improvável conjunto de obras se destacam o retrato amalucado da francesa Brigitte Bardot e o esquisito Geraldine En Su Sillón, de Antonio Saura. Do provocador Antoni Tápies, a tela Blau i Taronja questiona a estética pobre atribuída aos pintores vanguardistas da época, com uma ausência proposital de traços, evocando a importância do ato de questionar, ainda mais em um momento político tão delicado quanto o que viviam à época.

Outros ângulos. Cuenca, que já foi Kunka durante os séculos de conquista árabe, é uma cidade para pedestres. Um par de tênis fazem maravilhas na função de caçar seus cantinhos e mirantes. Basta desviar por qualquer transversal à rua principal para alcançar muretas com vistas panorâmicas do relevo dramático que cerca a cidade de encostas pedregosas, com esguios pinheiros e ciprestes.

Coração do centro antigo, a Plaza Mayor é dominada pela Catedral, onde, como em outras cidades espanholas, um dia existiu uma mesquita. De suntuosidade quase desproporcional ao diminuto tamanho da cidade de 43 mil habitantes, a obra teve início no século 12. O tempo castigou uma parte dos vitrais, que em 1994 foram substituídos por novos, elaborados pelo modernista Gustavo Torner. Apesar de bem geométrica, a vidraria ornou com o edifício medieval.

Único a ter obras em museus e na catedral, o artista também é o destaque do Espacio Torner (3 euros; espaciotorner.com), com pinturas e esculturas abstratas espalhados por uma antiga igreja gótica. Os tetos abobadados formam uma simbiose harmoniosa com as artes – sem contar a bela vista do centro histórico. Também ocupando um antigo espaço religioso, a Fundación Antonio Pérez (grátis; oesta.do/fundacionperez) exibe as peças abstratas reunidas ao longo da vida do colecionador. Obras de Andy Warhol e Manuel Millares estão espalhadas pelo antigo Convento das Carmelitas. 

Além de arte abstrata, a história também ganha protagonismo. No Museu de Cuenca (3 euros; oesta.do/museucuenca), preciosidades arqueológicas da Era do Bronze ao século 18 se espalham por três pisos. Fique atento à sala 7, onde conservadíssimas estátuas romanas – como a do imperador Augusto – chamam a atenção. Preservação é também o mote do Arsnatura (3 euros; centroarsnatura.es), museu ambiental com exibições interativas da fauna e flora da região, mas que propõe reflexões amplas sobre o aquecimento global.

Para fugir do forte calor no verão e da neve que costuma cair no inverno, o túnel Alfonso VIII, localizado na rua de mesmo nome, é sempre fresquinho. Construída como esconderijo na Idade Média, a rede subterrânea da cidade foi muito utilizada como refúgio durante a guerra civil. O trecho de 90 metros, iluminado e preparado para receber os turistas, revela mais sobre os mistérios da cidade que não estão debruçados sobre as falésias, à vista de todos. 

Mapa de tesouros. Elas têm, de fato, características similares. Mas, além de Alcalá, Toledo e Cuenca, as outras 12 cidades que receberam o título de patrimônio da Unesco na Espanha possuem personalidade própria e tesouros particulares que só podem conhecidos por quem passa por elas. Visitar todas de uma só vez é impossível. Aqui, uma pincelada em cada uma para você compor seu roteiro.

l. Salamanca - Iluminada, a Plaza Mayor é um espetáculo da cidade, que fez fama por sua prestigiada universidade, fundada em 1218. Dizem os estudantes que encontrar o sapo esculpido na fachada traz boa sorte.

2. Santiago de Compostela - Oásis derradeiro para os que peregrinam pelo célebre caminho até a Galícia. Sua catedral, que abrigaria os restos do apóstolo Tiago, é ponto de oração e contemplação.

3. Mérida - Capital de Extremadura, perto de Portugal, abriga as mais bem conservadas e extensas ruínas romanas da Espanha. Um único bilhete (12 euros) dá acesso a Anfiteatro, Columbarios e Circo Romano.

4. Ibiza - Séculos antes das raves chacoalharem a ilha mediterrânea, sua capital homônima foi murada pelos romanos e as regiões de D’Alt Vila e Sa Penya, em especial o Portal de ses Taules, são joias históricas.

5. Segóvia - O mito de que a cidade foi fundada por Hércules pode ter contribuído para o reconhecimento como patrimônio, mas foi seu aqueduto romano (foto), com 894 metros de extensão, que a alçou à fama. 

6. Cáceres - Apelidada com o autoexplicativo nome de Ciudad Monumental, seu centro histórico tem muralhas que cumpriram bem a função de protegê-la desde o apogeu, no século 16. 

7. San Cristóbal de la Laguna A cidade, nas Ilhas Canárias, é dividida em parte alta e baixa, com ruas amplas e charmosos edifícios dos séculos 16 a 18, espalhados por um centro histórico bem cuidado.

8. Ávila - As 88 torres de observação que se estendem pela imensa muralha de 2,5 km ganham dramaticidade com a iluminação noturna. Excelente passeio de um dia a partir de Madri, a 1h30 de distância.

9. Tarragona - Banhada pelo sol e pelo Mar Mediterrâneo, a cidade catalã mescla ruas medievais e passado romano, como provam o anfiteatro e o fórum, além da Ponte do Diabo.

10. Ùbeda - Além de ostentar o título de ter os exemplares de arquitetura renascentista mais relevantes da Espanha, a andaluz Ùbeda tem espírito boêmio, que se revela nas dezenas de bares e na força do flamenco.

l1. Baeza - Irmã gêmea de Ùbeda e polo de produção de azeitonas e azeites, a cidade de 17 mil habitantes mostra na Plaza del Pópulo e nos traços do Palácio de Jabalquinto o porquê do título da Unesco.

12. Córdoba - O tempo não conseguiu apagar as marcas de um dos califados islâmicos mais influentes de todos os tempos, do qual se destaca a Mesquita, do ano 785.

SAIBA MAIS

Aéreo: SP – Madri – SP: desde R$ 1.945,08 na Iberia (iberia.com), R$ 2.031,59 na TAP (flytap.com) e R$ 2.492 na TAM (tam.com.br).

Entre cidades: Alcalá de Henares está a uma hora de carro ou ônibus desde Toledo, que, por sua vez, está a 30 minutos de trem de Madri. Para outros trajetos, opte pelo AVE, o trem rápido, que liga Madri a Cuenca em uma hora. Mais: renfe.com.

Sites: ciudadespatrimonio.org; turismoalcala.es; toledo-turismo.com; turismo.cuenca.es

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