Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Hotéis adaptam espaços para cativar pais em home office e filhos estudantes

Pensando em pais sobrecarregados com a rotina de se dividir entre o trabalho e o estudo dos filhos, hotéis criam pacotes para os dias de semana focados em famílias

Nathalia Molina, Especial para o Estado

30 de agosto de 2020 | 05h00

Todo dia tem cama e banheiro arrumados, refeições prontas sem tocar no fogão, recreação para a criançada e lazer para os adultos. Após meses isolados em casa, um cenário assim vira sonho de consumo para muitos. Atentos à demanda, hotéis buscam cativar pais e filhos que precisam seguir trabalhando e estudando, mas estão ávidos por ares além das janelas do apartamento.

“Está sendo revigorante. Minhas filhas assistem às aulas. Aí vamos para piscina e aproveitamos áreas externas. Quando o sol baixa, é hora de elas fazerem as tarefas. Você pode escolher o quarto ou um lugar ao ar livre para estudar ou trabalhar”, diz Flávia Pompei. Profissional de marketing do segmento de seguros e serviços financeiros, ela tirou folga para aproveitar os dias no Royal Palm Plaza, resort em Campinas, no interior paulista. O marido, Marcelo, seguiu trabalhando do hotel, enquanto Pietra, de 11 anos, e Paola, de 8, mantiveram as aulas remotas. Elas fizeram até prova de lá.

Flávia solicitou espaços separados para cada um. “As aulas delas são muito interativas. Funcionou porque o hotel adaptou alguns apartamentos. Ficamos com três deles para trabalho e estudo”, explica. “Quando cheguei ao nosso quarto, recebi um WhatsApp me avisando que tudo o que eu tivesse de dúvida sobre home office e home schooling poderia perguntar por ali.”

Depois do room office – tendência que já apontamos aqui, na qual quartos de hotel viram escritório para trabalho isolado e fora de casa –, a hotelaria vê as famílias cansadas da quarentena como público em potencial. “Muitos fatores colaboraram para a gente criar esse produto. No início da pandemia, era um cenário: todo mundo feliz por pegar menos trânsito, ter comida caseira e ficar mais com a família. Depois de um tempo, as crianças ficaram estressadas e a produtividade dos pais começou a cair”, diz Priscila Souza Domit, diretora de Vendas e Marketing do Grupo Royal. “Quando a gente foi reabrir o hotel, começou a receber ligações de reserva para meio de semana e, em São Paulo, hotéis passaram a disponibilizar quartos para home office.”

A ideia de acrescentar à estrutura do resort os serviços necessários na nova realidade deu origem ao programa Viva Royal. Válido para cinco diárias no mínimo, ele dá direto a montar a alimentação com nutricionista, fazer as refeições em horário alternativo, se exercitar com acompanhamento de professores e receber massagem no spa (uma hora por apartamento a cada cinco diárias). “Lançamos em 27 de julho, e metade do nosso volume já é de cinco diárias. Tenho hospedagens de 15, 20 dias.”

Ricardo Rief Nepomuceno conta que ele e a mulher, Cleide, cogitaram alugar uma casa antes de fechar uma semana no Royal. “O hotel estava com preço mais vantajoso. E tem toda a parte de comodidade, de não precisar cuidar de nada”, diz. “A gente estava meio apreensivo de ter de trabalhar juntos na mesa do quarto. Mas eles reservaram um quarto a mais para gente no período.” Assim, o profissional da área de sistemas, a analista financeira e a filha de 9 anos, Bianca, conseguiram concentração para conciliar estudo e trabalho com lazer.

“Por conta da pandemia, nossas férias desencontraram. Eu tive de tirar logo, depois foi minha filha. Então a gente pensou em poder relaxar juntos sem parar a rotina”, conta. “A gente tem a noção de que está correndo um risco calculado, mas o custo-benefício vale. A gente precisava realmente de um descanso.”

Pedagogas para aulas remotas

Na serra do Rio de Janeiro, o Hotel Village Le Canton também percebeu essa demanda entre seu principal público: as famílias, responsáveis por mais de 90% da ocupação em janeiro e fevereiro de 2020. “Estávamos pensando em como atrair mais os clientes durante a semana porque tínhamos pouca disponibilidade nos fins de semana. Sabíamos que muita gente queria sair de casa para um lugar com natureza, mas estava preso em casa porque tinha as aulas online dos filhos. Então, fomos desenvolvendo o produto para tentar aliviar os pais e deixar as crianças um pouco mais focadas em um lugar em que ambos podem também aproveitar o tempo livre juntos”, explica Mônica Paixão, diretora geral do hotel, sobre a criação do Le Canton Escolar.

A estrutura no hotel em Teresópolis tem até pedagogas para auxiliar as crianças. “Fiquei sabendo do espaço no check-in. Agradeci ao gerente depois”, diz Ticiana Gregoris. A organizadora de festas foi para o Le Canton com o marido, Luciano, que trabalha em uma multinacional, e a filha de 8 anos, Maria Clara. “Ela ficou animada de mudar de ares. Foi excelente saber que ela teve atenção extra de pessoas capacitadas. As pedagogas possuem postura de professora. Ficamos muito satisfeitos.” De acordo com a diretora do hotel, a aceitação tem sido boa. “Íamos fazer só em agosto. Estendemos para setembro também e talvez até o fim do ano”, diz Mônica.

Antes da covid-19, muitos hotéis mantinham a ocupação alta com as convenções. Com o segmento corporativo parado, perceberam que proporcionar uma forma de pais e filhos manterem suas rotinas a distância garante o movimento de segunda a sexta. “Com certeza, esse é o nicho para se investir, pois sabemos que o setor de eventos retornará provavelmente em 2021 e que a maior necessidade do momento é gerar uma experiência segura para as pessoas poderem sair de suas casas”, afirma Felipe de Castro, diretor corporativo de Operações do Grupo Tauá.

Quando resorts da marca voltaram a funcionar – Atibaia, no interior paulista, no início de junho; e Araxá, no Triângulo Mineiro, no meio de agosto –, o foco estava nos novos protocolos para passar aos hóspedes credibilidade e segurança. “É óbvio que continuam sendo fatores principais, porém no decorrer dos dias sentimos a necessidade de criar experiências para nossos clientes, como salas para homeschooling e home office”, diz Castro. “Montamos espaços com distanciamento e toda a estrutura, com café, água, frutas e, duas vezes ao dia, pão de queijo e sanduíches.” Afinal, todo trabalho tem coffee break e toda aula tem recreio.

Para criar condições de oferecer esse novo serviço, empreendimentos adaptaram suas áreas de eventos. “Dois salões de convenções com bastante espaço e internet de alta velocidade foram transformados: um em sala de estudos para a criançada acompanhar as aulas e outro para os pais trabalharem com toda a tranquilidade”, diz Bruno Korn, diretor do Hotel Estância Atibainha Resort & Convention.

No hotel em Nazaré Paulista, no interior do Estado, o Atibainha Schooling e Office são incluídos tanto para hóspedes quanto para quem opta apenas pelo day use (a R$ 119 por pessoa).

Diversão e segurança com protocolo

Contar com estrutura de lazer e atividades de recreação fez a diferença na viagem para o Tauá Resort Atibaia, diz a empresária Amanda Gadanha. A filha, Manuella, de 11 anos, e a enteada Pietra, de 12, puderam gastar energia. “A gente já ficou esse tempo de quarentena. Como ela está tendo aulas online, pensamos em fazer algo diferente à tarde. Foi muito bom. As crianças se divertem mais quando o hotel está cheio. Você sente uma pequena diferença, mas, mesmo assim, valeu muito.” No prédio onde a família mora em Santos, no litoral paulista, as áreas coletivas estão fechadas por precaução.

No resort em Atibaia, uma das principais opções de lazer é o Aquapark. O ar-condicionado do parque aquárico indoor é tratado com ultravioleta. “A recreação teve de se reinventar para trazer de forma lúdica e segura o entretenimento para as crianças e o grande foco das atividades estão sendo em áreas externas”, diz o diretor de Operações.

O Estância Atibainha também mantém sua recreação ao ar livre. “Nas piscinas abertas, há um número limitado de pessoas para evitar aglomerações. Mas nada que diminua a diversão. Tem atividades com biólogo na mata, trilhas, passeios de trenzçinho e a cavalo, ordenha, tirolesa e atrações musicais ao vivo”, diz Korn.

Na retomada do setor, hotéis desenvolveram protocolos de segurança e treinaram os funcionários sobre procedimentos e equipamentos de proteção. A ocupação também vem sendo menor, conforme a cidade e o hotel.

“Lá é todo mundo de máscara. E o lugar é bem aberto. Quando a gente saia da academia, via a funcionária higienizando tudo”, conta Ticiana sobre a experiência no Le Canton. “Passamos uma semana e voltamos para outra. Foi maravilhoso depois de 145 dias isolados em casa. No Rio, algumas pessoas estão fazendo quarentena, e outras, não. Me senti mais segura no hotel do que no meu condomínio.”

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