Hotéis de verdade

Dada a falta de sincronia entre as datas nas quais as colunas são escritas e aquelas em que são publicadas, mr. Miles resolveu não escrever mais sobre a Copa do Mundo "sob o risco de oferecer notícias mais velhas do que jornais que embrulham peixes". É de supor, contudo, que o homem mais viajado do mundo continue acompanhando o English team, embora tenha ficado "yellow" de vergonha e "purple" de raiva com o que chamou de "galináceo antipatriótico engolido pelo goleiro Green ? que, of course, não está maduro para uma empreitada de tamanha grandeza.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2010 | 02h18

A seguir, ele responde à correspondência da semana:

Prezado mr. Miles: quais são as qualidades que o senhor aprecia e quais as que detesta em um hotel?

Angelina Morganti, por e-mail

"Well, my dear, that"s a nice question. É preciso, however, colocá-la na perspectiva correta. Em alguns locais, o simples fato de haver um hotel já é qualidade suficiente. O mundo está repleto de lugares remotos nos quais, não importa quanto dinheiro você possua, a única alternativa é uma pequena hospedaria de cinco dólares. E, nestes casos, quando se chega cansado, você fica até feliz em dividir seu uísque com as baratas.

A pior em que já estive, if I remember, ficava em algum lugar remoto de Bornéu. Os quartos tinham catres e eram divididos por meias paredes, de modo que era absolutamente inevitável ouvir os ruídos produzidos pelos demais hóspedes. Tentei me distrair com o bulício produzido por um casal apaixonado, mas, no cubículo anexo, havia um motorista de caminhão que roncava como um lorry engine. It was really disgusting.

Mas, de volta à sua pergunta, eu diria que o que mais aprecio em um hotel ? além, of course, da variedade de seu bar ?, são a hospitalidade e a cortesia. Você dirá que esses são valores óbvios, mas eu lhe asseguro que, em sua forma genuína, ambos são raros de se encontrar.

Um hotel hospitaleiro é aquele em que você se sente bem recebido assim que chega. Nada de mesuras ou sorrisos premeditados. Os rostos dos serviçais iluminam-se com verdadeira felicidade pela sua presença. O hóspede sente-se como um velho amigo voltando ao lar. No meu caso, devo admitir que isso é mais frequente, porque, in fact, estou quase sempre voltando a hotéis que me produziram tal sensação da primeira vez.

A cortesia é uma extensão natural da hospitalidade. Eu diria, my dear, que é como um dom, uma habilidade inata que não se aprende em escolas e que, usually, tem origem nos antigos valores de um povo.

É mais que justo, for instance, que um hotel seja adequadamente remunerado pela hospitalidade que oferece e pelos equipamentos de que dispõe. However ? e agora chego, de fato, aos valores que me desagradam ?, há, nos hotéis modernos, atitudes de franca hostilidade em relação aos seus hóspedes.

Se não, vejamos: chaves que precisam ser encaixadas em geringonças na parede para fazer funcionar a energia indicam que, na opinião do hotel, o hóspede é um perdulário por definição. Ora, caríssimos: pois que usem suas teses de eficiência para fabricar parafusos! Don"t you agree? E o que dizer dos estabelecimentos que taxam, com preços espantosos, ligações telefônicas ou o uso da internet? Não seria muito mais cortês e agradável incluir esses valores irrisórios na diária? E esses corredores sombrios de hoje em dia que vão se iluminando apenas quando um sensor capta sua presença? Seria tal bobagem realmente necessária para qualquer hóspede que não sonhe ser um(a) top model?

Sorry, my dear, mas a tal moderna e frívola hospitalidade não me cativa. Ainda prefiro o velho charme de hospedagens como o Hotel Baron, em Aleppo, na Síria, onde tomei fartas doses de whisky com Thomas Edward (N. da R.: Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia) e troquei ideias com Agatha (N.da R.: Agatha Christie, escritora), ao tempo em que ela escrevia o primeiro esboço de seu Assassinato no Expresso do Oriente, no quarto 203. E que ninguém duvide de minha relação cavalheiresca com Agatha, by the way, uma mulher pouquíssimo atraente.

Hoje, unfortunately, os quartos do Baron estão ligeiramente arruinados. Mas quando vou a Aleppo para encadernar meus passaportes, ainda fico por lá. E sabe por quê? Porque o bar ainda é excelente?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO

DO MUNDO. ESTEVE EM 132

PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS

ULTRAMARINOS

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