William Widmer|NYT
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Idosos se lançam em aventuras ao ar livre

Depois da aposentadoria, eles decidem se aventurar em trilhas com mochila e barraca nas costas, cruzar grandes extensões de bicicleta ou morar em uma pick-up. Por que não?

Abby Ellin, The New York Times

28 Março 2016 | 05h13

Muitos se referem a ele como “evasivo”, pelo menos nas trilhas. É nesse lugar, trilha, que Dave Roberts passa seus dias hoje, atravessando o país a pé, de bicicleta e mesmo de caiaque.

Roberts, professor aposentado e engenheiro de software, está em uma missão para viajar pelos Estados Unidos usando apenas suas pernas e seus braços. Hotéis e pousadas estão fora do plano. Ele acampa de noite e carrega nas costas 11 quilos de equipamentos, incluindo sua barraca, saco de dormir e comida.

Ah, já dissemos que ele tem 72 anos?

“Espero fazer isso até ficar cansado”, afirma Roberts, que neste momento atravessa 4,8 mil quilômetros no Texas, passando por pelo menos 40 parques nacionais e percorrendo em média 37 quilômetros por dia.

Dos hóspedes que viajam com a Mountain Travel Sobek, por exemplo, 25% têm entre 55 e 64 anos, e 21% têm mais de 65 anos, com o mais velho chegando aos 88 anos, segundo Kevin Callaghan, presidente da empresa de aventura. Nem todos se dedicam a atividades cansativas, mas mesmo as viagens que não demandam muito envolvem uma boa quantidade de caminhadas ou algumas trilhas um pouco mais difíceis.

Cerca de 20% dos negócios da REI Adventures vêm de clientes de mais de 60 anos. A maioria dos usuários da Nomadic Expedition estão entre os 60 e os 65 anos, e cerca de 65% são mulheres. Dos clientes de caminhadas e trilhas da Backroad, 27% têm essa idade.

Christina Shrewsbury, de 68 anos, musicista de East Amherst, em Nova York, e seu marido, Ron, químico aposentado, já fizeram seis viagens com a POMG Bike Tours, empresa especializada em ciclismo de Richmond, em Vermont. “Pedalamos até 160 quilômetros por dia. É muito importante ter objetivos e um plano. E agora é a hora de tocarmos esse”, conta Christina.

Além das alegrias de estar ao ar livre e deixar o vento levá-los para onde quiser, o apelo dessas iniciativas varia. Para Dale Sanders, de 80 anos, que se autodenomina o "Aventureiro da Barba Cinza", o interesse é quebrar recordes. No ano passado, ele se tornou a pessoa mais velha a remar sozinha pelo Rio Mississipi, enquanto conseguia arrecadar cerca de US$ 23 mil para a Fundação de Pesquisas de Diabetes Juvenil.

Para Bernice Ende, de 61 anos, ex-professora de balé que tem o apelido de "Dama das Longas Jornadas" e diz que já andou cerca de 48,2 mil quilômetros a cavalo pelos Estados Unidos, o incentivo é a retomada de uma paixão de infância. Para Janene Bray, de 60 anos, que passou 45 dias seguindo o Caminho de Santiago, uma antiga rota de peregrinos de 805 quilômetros que cruza o norte da Espanha, a inspiração foi fazer algo por ela mesma depois que seus três filhos saíram de casa.

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“Precisava provar para mim que poderia fazer alguma coisa sozinha”, explica Janene, artista de Prescott, no Arizona. “Meus filhos pensaram que eu ia acabar me matando.” Ela se sentiu segura, conta, apesar de uma mulher ter sido morta na estrada na primavera e de relatos de ataques sexuais nos últimos anos. “Você precisa ter bom senso”, afirma.

Sunny Eberhart, de 77 anos, oftalmologista aposentado, que tem o apelido de “Nômade Ligeiro”, vive a maior parte do tempo em sua pick-up porque, bem, por que não?

“Se estiver ao ar livre, principalmente nas montanhas, estarei feliz”, explica Eberhart. Ele usa a casa da sobrinha no Missouri como endereço de correspondência e de vez em quando passa lá para pegar as cartas.

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A maioria desses aventureiros vive de modo barato, usando o seguro social e gastando o mínimo possível. Janene Bray gastou cerca de US$ 3 mil com a passagem para a Espanha. O maior gasto de Dave Roberts tem sido com a reposição do equipamento que perdeu, foi roubado ou estragou no caminho.

Roberts sempre foi aventureiro. Ele se tornou voluntário do Peace Corps na Libéria nos anos 70. Mas depois, a vida seguiu: ele se casou, criou uma filha e se divorciou nos anos 80. No começo dos anos 90, conta, sonhou que São Pedro o confrontou na porta do céu: “Por que você não aproveitou o que havia de bom lá embaixo?”, lembra ele.

Greg Ferris, de 67 anos, economista aposentado e amigo da época da Peace Corps, uniu-se a Roberts no último novembro em uma viagem de bicicleta de Anápolis, em Maryland, até Chapel Hill, na Carolina do Norte, pedalando cerca de 64 quilômetros por dia.

“Foi brutal”, lembra Ferris, que persuadiu Roberts a dormir em hotéis algumas noites. “Uma noite, eu estava provavelmente lamentando nossa sorte com a chuva e as temperaturas baixas quando Dave respondeu: ‘Se nada der errado, não é uma aventura’. Achei aquela ideia perfeita.”

Richard Sojourner concordaria. “Com esse sobrenome, isso é exatamente o que eu deveria estar fazendo!" Sojourner em inglês quer dizer aquele que tem residência temporária. Em maio passado, ele se juntou a Sanders em sua viagem recordista no Mississipi. Mas, 15 dias antes do final, Sojourner, de 71 anos, ex-policial que fez uma operação de ponte de safena em 2004, ficou exausto e precisou abortar a missão.

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“Eu fiquei muito triste, claro. Foi um grande desapontamento”, afirma ele, que voltou em outubro e completou o pedaço da viagem que faltava. Mas é filosófico sobre o assunto: “Estamos lançando um desafio para as pessoas mais velhas. Podem achar que somos malucos. Nós dois temos barbas totalmente brancas. Você vê esses dois velhos de barba branca e imagina: ‘O que eles estão fazendo nesse rio?’”, diz Sojourner.

“Se eu conseguir quebrar um recorde ou não, não importa. É mais para que meus netos digam: ‘Veja o que o vovô fez’.”, afirma.

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