Ih, você perdeu a Bélgica!

15 cidades em 13 dias? Talvez você esteja fazendo isso errado, opina Mr. Miles

MR. MILES, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2017 | 04h00

“Não existe academia mais eficiente do que um aeroporto de hub”, afirmou Mr. Miles depois de sua escala no aeroporto de Toronto, no Canadá, onde, segundo ele, pode-se fazer apenas um treino leve. 

“Há aeroportos no mundo, my friends, onde é preciso andar horas seguidas, sempre atento às placas. Noutros, você não chega a seu destino sem, oh, my God!, ter de pegar um trem ou um ônibus. Os burocratas que criam tantos modos de controle e tantos formulários poderiam, in my opinion, ajudar na logística de aproximar um viajante de seu voo de conexão. Felizmente eu sou um velho andarilho e não sofro com isso. Mas outras pessoas de idade provecta esgoelam-se na tarefa. Um conhecedor das entranhas do imenso aeroporto de Madri disse-me recentemente que há um número expressivo de óbitos no trajeto entre uma aeronave e outra. Unfortunately, I can believe.”

A seguir, ele comenta a correspondência da semana.

Caro Mr. Miles: eu e minha mulher queremos aproveitar o câmbio favorável para fazer nossa primeira viagem à Europa. Como não sabemos se teremos outra oportunidade de ir ao Velho Continente, estamos optando por uma excursão de ônibus, com a qual visitaremos 15 cidades em oito países durante 13 dias. O senhor acha que serve para termos uma visão geral? 

Luis Augusto Albertini, por e-mail

“Well, my friend, Fernando Pessoa já dizia que ‘tudo vale a pena se a alma não é pequena’. However, recorrendo a cálculos elementares de aritmética, eu diria que você e sua digníssima esposa gastarão mais tempo transportando malas para dentro e para fora dos hotéis do que apreciando qualquer atração. 

Haverá, of course, algumas compensações. Numa viagem como essa, vocês terão a inenarrável oportunidade de apreciar o excelente sistema viário da Europa, o asseio dos toaletes dos postos de estrada (em alguns deles é até mesmo possível comprar alguns cartões postais) e, conforme o trajeto, até mesmo algumas belas paisagens. 

Eu recomendaria, as well, que vocês praticassem a arte de fotografar em movimento. No ritmo que prevejo, é provável que a Torre Eiffel passe rapidamente ao lado direito do ônibus e o Coliseu surja como uma miragem do lado oposto (informem-se antes com o motorista, just in case). 

Quando houver alguma parada – e eu presumo que sempre haverá 30 minutos para um lugar como Florença –, resista à tentação de comprar um souvenir ou você não terá sequer um registro do Duomo. À Ponte Vecchio só será possível chegar caso sua velocidade alcance níveis olímpicos. 

Quanto à gastronomia, não se preocupe: nesse tipo de excursão, todos os pratos são iguais, representando o que se poderia chamar de cozinha mundial para turistas apressados. Se houver vinho, leve um sal de frutas.

Para conseguir montar um álbum de recordações nesse ritmo alucinante, aproprie-se do que for possível: caixas de fósforo, cartões de visita, tickets de caixa e, of course, guardanapos personalizados. Esteja sempre atento às placas no caminho para ter certeza do país em que está. Na Europa, as you know, essas mudanças podem ser frequentes e abruptas. Um simples cochilo após o almoço e pronto: você perdeu a Bélgica.

Anyway, my friend, ainda que as condições não sejam as ideais, você sempre trará consigo alguma sensação depois de uma viagem dessas. Nem que seja a certeza de ter de voltar um dia, com menos afobação.

Don’t you agree?” 

 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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