Cristiano Dias/Estadão
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Ilhas Malvinas, o refúgio dos pinguins

Pouco acessíveis, as isoladas Ilhas Malvinas (ou Falklands, para os britânicos) tem 1,2 milhão dessas aves e apenas 3 mil pessoas

Cristiano Dias, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2016 | 05h00

STANLEY - O primeiro aceno ao visitante é um vento gelado que invade todas as partes. Bem-vindo às Malvinas (Falklands para os britânicos), pátria dos pinguins. Pelas areias brancas, em praias imaculadas, passeiam focas e sua parentela: leões, elefantes e lobos-marinhos. Na água fria, baleias-azuis, francas e jubartes, orcas e meia dúzia de espécies de golfinhos, incluindo os de Commerson, flagrados surfando na arrebentação. 

O clima imponderável é o terror dos navios. São quase 200 naufrágios ao redor do arquipélago, mas isso não impede que navios que levam turistas à Antártida façam uma parada nas Malvinas – 60 mil passageiros desembarcaram nas ilhas em 2015. 

O sol intermitente se alterna com a chuva tantas vezes no dia que o arco-íris é quase um acessório da paisagem. Os visitantes se concentram no verão, quando a temperatura máxima chega a 15 graus e, a mínima, a 5, um convite para observar animais, pescar ou apenas curtir o cenário. 

 

É estranho que um lugar edênico não esteja constantemente no radar do continente. Mas as Malvinas estão ali, lutando contra o esquecimento. O primeiro desafio de um observador das ilhas é semântico. Em bom português, o arquipélago é conhecido por Malvinas graças à loucura do general Leopoldo Galtieri, cão de guarda da Argentina durante o lusco-fusco da ditadura militar. 

Foi assim que um lugar ignorado despertou a tiros de artilharia em 2 de abril de 1982. De repente, o mundo olhou assustado para o Atlântico Sul e descobriu um novo pedaço de terra. Falklands ou Malvinas? Se por solidariedade com os vizinhos ou parentesco linguístico ninguém sabe, mas o Brasil fez sua escolha.

A questão é importante porque reflete a disputa pela soberania das ilhas. Em 2013, os moradores participaram de um referendo no qual se declararam a favor de continuar sob tutela britânica. Da estátua de Margaret Thatcher ao chá das cinco, tudo – até os humores do clima – remete ao Reino Unido. 

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A guerra com a Argentina foi o ritual de batismo que fez um punhado de criadores de ovelhas perder a inocência. Foi o ponto de inflexão que acendeu uma luz de alerta para o isolamento em que viviam. São mais de 750 ilhas que ficam a 500 quilômetros da costa argentina e a 13 mil de Londres. O lugar é espaçoso, tem o dobro do tamanho do Distrito Federal e um relevo suave onde vivem 700 mil ovelhas, 1,2 milhão de pinguins e apenas 3 mil almas. 

A Real Força Aérea (RAF) britânica mantém uma base em Mount Pleasant, a 50 quilômetros de Stanley, a única cidade. Os 1.200 soldados formam uma população flutuante, são excluídos das estatísticas oficiais e têm supermercado próprio, pubs e cafés. Não há nenhuma ostensiva presença militar fora dali e a interação com a população é incomum. Normalmente, ocorre quando homens em uniforme jogam futebol na capital ou quando um civil decide encarar uma hora de viagem para ir ao cinema – o Phoenix, única sala das ilhas, fica dentro da base e exibe uma sessão por semana. 

Mount Pleasant, no entanto, é ponto de entrada e saída para quem chega às Malvinas pelo ar. Ali está o principal aeroporto, que recebe um voo semanal da Latam, vindo de Punta Arenas, no Chile, e outro da RAF, de Londres. Outras opções para visitar as ilhas são cruzeiros e iates privados.

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TOUR REVIVE A GUERRA PELAS ILHAS

A disparidade entre a leveza de um pinguim e a crueza da guerra está no caráter das Malvinas. O arquipélago guarda lugares marcados pela violência do último conflito convencional entre duas nações ocidentais. Alguns locais foram transformados em santuários por veteranos britânicos e argentinos, que costumam voltar, sozinhos ou com familiares, em busca de conforto.

Mount Longdon, palco de uma das batalhas mais sangrentas da guerra, o cemitério argentino de Darwin ou o memorial de Goose Green. Em Pebble, perto do monumento ao HMS Coventry, estão as asas e o cockpit de um caça Dagger da Força Aérea da Argentina. As visitas podem ser arranjadas em Stanley, com operadoras locais.

Os passeios consistem em uma maratona de sacolejos pelo terreno acidentado, o que dá uma noção da ingratidão da geografia e dos desafios que as forças britânicas e argentinas enfrentaram. Pelo caminho, canhões de artilharia abandonados, buracos causados por explosões, restos de munição, relíquias de combate.

 

Histórico. Os primeiros tambores da guerra tocaram ainda nos anos 70. Argentina e Grã-Bretanha eram dois trens desgovernados em rota de colisão. Em Londres, Margaret Thatcher enfrentava as ruas insufladas pelo desemprego e uma onda de falências sem precedentes que a haviam transformado na primeira-ministra mais impopular da história recente do reino. 

Em Buenos Aires, a autoridade de Leopoldo Galtieri também era consumida pela crise econômica. Foi o general quem ordenou a invasão. De posse das ilhas, os argentinos inverteram a mão do trânsito e fizeram o peso circular em lugar da libra. Tomaram a rádio local, que passou a executar marchinhas militares e o hino nacional da Argentina. 

O espanhol passou a ser a língua oficial e Stanley virou Puerto Argentino. O surrealismo atingiu o clímax quando a ditadura distribuiu panfletos saudando a “libertação” da população do jugo do império britânico. A ocupação durou 74 dias. 

A resposta da Grã-Bretanha foi violenta: 649 argentinos e 255 britânicos morreram. A reconquista custou US$ 8,4 bilhões aos cofres de Thatcher. Para a junta argentina, representou uma saída pela porta dos fundos da história. Quando as cortinas se fecharam, restou a impressão do escritor Jorge Luis Borges: “Foi uma guerra entre dois carecas por um pente”.

SAIBA MAIS

Como chegar: a Latam opera um voo semanal para as Malvinas (Falklands), aos sábados, saindo de Punta Arenas (Chile). Custa R$ 2.491, ida e volta da cidade chilena. Empresas de cruzeiros como Celebrity, Norwegian e Quark Expeditions param nas ilhas a caminho da Antártida.

Língua oficial: inglês

Moeda: libra (é impressa nas próprias Ilhas Malvinas) 

Site: falklandislands.com 

*O repórter viajou a convite da embaixada do Reino Unido.

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Uma 'metrópole' de 2.500 habitantes

Cidade concentra 85% dos habitantes das Malvinas e não tem um homicídio há mais de 30 anos

Cristiano, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2016 | 04h55

Excluindo os militares da base de Mount Pleasant, 85% dos habitantes das Malvinas – 2.500 pessoas – vivem em Stanley, um grupelho de casinhas brancas enfileiradas à beira-mar. O caráter da construção reflete a dureza do clima e o isolamento do lugar. Os telhados coloridos parecem encaixados com os dedos, como pecinhas de Lego. Eles dão forma a um estilo sóbrio que se repete exaustivamente em todos os vilarejos do arquipélago, adequadamente chamados de “camps”.

A baixíssima densidade demográfica amplia a sensação de isolamento, mas aumenta o jeitão de confraria. Se todas as pessoas de Stanley se reunissem em um único lugar ao mesmo tempo, caberiam dentro do Teatro Municipal do Rio e não conseguiriam encher o acanhado estádio do Juventus, em São Paulo. É claro, em um ambiente tão minimalista, todos sabem da vida um do outro. Parece angustiante. E é, em certo sentido. 

Em uma madrugada de sexta-feira, na porta do Deano’s, uma apertada boate da capital, jovens contavam como é namorar dentro de um círculo restrito. Eles até falavam com naturalidade, como se a tarefa fosse fácil, mas as estatísticas não ajudam. Se quase metade da população é casada, de acordo com o último censo, e cerca de 20% têm menos de 15 anos, pelo menos 70% dos habitantes do arquipélago não estão em busca de romance. Isto significa que se Don Juan vivesse em Stanley teria de interagir com um universo de 300 pessoas. 

“É isso ou recorrer a algum estrangeiro”, disse uma jovem, que não quis ser identificada. Mas, entre uma tragada e outra no cigarro, ela não se queixa da falta de gente. “Não suporto viver em um lugar que ninguém me conheça”, disse. “Já vivi fora das Falklands, mas voltei porque senti falta deste ambiente familiar.”

 

Dupla identidade. Um lugar em que o ser humano é raro expõe outras situações inusitadas. Mais de um quinto da mão de obra tem dois ou mais empregos. Ou muitas funções, como Riki Evans. Dono do Pebble Island Lodge, uma hospedaria na ilha de Pebble, no extremo norte das Malvinas, ele arruma os quartos, serve as mesas e traz os turistas do aeroporto – na verdade, uma modesta pista de pouso coberta de grama, onde ovelhas e gansos vagabundeiam o dia todo. 

O governo do arquipélago mantém uma empresa aérea que voa para mais de 30 vilarejos. A frota é pequena. São cinco aviões Britten-Norman Islander. O bimotor vermelho é tão barulhento que parece um jipe de asas, mas pousa em qualquer lugar. Antes da chegada das avionetas, Riki acelera seu Mitsubishi 4x4 e mete a mão na buzina para espantar a bicharada da pista. Depois, estaciona o carro e vira controlador de voo. Com um rádio na mão, transmite instruções sobre o vento para o piloto, que está atrasado. “Cadê você? Rajada fraca vinda do quadrante sul.”

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Após um estranhamento inicial, o visitante se acostuma com a dinâmica da dupla identidade. O Bruce Wayne da segunda-feira vira o Batman no fim de semana, o que faz das Malvinas o berço do déjà vu. Caso de Gavin Short: durante a semana, ele é um pacato deputado na Assembleia local – único colegiado das ilhas, composto por oito membros eleitos. Aos sábados, faz um bico no aeroporto de Mount Pleasant, carimbando passaportes e ajudando a coordenar o embarque.

Ocupar esses espaços é a chance de faturar um trocado, mas também quase uma necessidade cívica. Para manter em funcionamento uma burocracia estatal mínima, com serviços e infraestrutura, o governo local precisa empregar 25% da força de trabalho. Com tudo isso, o desemprego é residual: menos de 1%.

Viver em uma comunidade pequena e isolada tem outras vantagens. Chris Butler provavelmente tem um dos empregos mais monótonos: ele é um dos 18 policiais que se alternam em três turnos de plantão na delegacia de Stanley, a única das ilhas. Ele chegou da Grã-Bretanha em 2014, com mulher e filho, para ganhar a metade do salário que tinha em Londres – e não se arrepende. “Aqui, os impostos são menores e gasto menos.” 

Do trabalho, ele tampouco reclama. Nas ilhas, não há tráfico de drogas e assalto é coisa rara. As pessoas deixam as chaves na ignição do carro e a porta de casa aberta. Os policiais andam desarmados e não há um homicídio há mais de 30 anos. Ao lado da delegacia fica a cadeia, ocupada por cinco meliantes, a maioria detida por arruaça, briga ou bebedeira – há só um preso, condenado por assédio sexual.

 

POUCAS (E BOAS) OPÇÕES DE HOTÉIS

Em Stanley, há dois hotéis: Malvina e Waterfront – os mesmos endereços dos dois melhores restaurantes da cidade, ambos na rua principal. Mas há outras opções para comer e beber, como o Bittersweet e o Shorty’s. Para um drinque, pubs de tradição britânica, como o Victory, ou com cara de boate dos anos 90, como o Deano’s. 

Algumas ilhas do arquipélago têm ótimas pousadas (ou “lodges”). Apesar do isolamento, é surpreendente a qualidade da comida e o conforto desse tipo de hospedagem. Pebble, Bleaker, Sea Lion, Saunders, todas são ligadas a Stanley por uma avioneta do governo local, que operam sob demanda. Além de turistas, levam alfaces, pães e qualquer tipo de alimento fresco. É a melhor opção para ver as Falklands de cima. O pouso é uma aventura, em uma pista de grama disputada por cavalos, gansos e ovelhas. 

OVELHAS, AVES E MINAS TERRESTRES

O mar das Malvinas alterna entre o turquesa e o celeste, como uma fotografia retocada com Photoshop. Fosse 30 graus mais quente, daria inveja ao Caribe. Mas o dono do lugar é o pinguim, profundamente ligado à história local. Até o surgimento do querosene, as noites do século 18 e parte do 19 eram iluminadas com óleo de baleia. Para extraí-lo, era preciso retirar camadas de gordura do animal e aquecê-las em recipientes gigantescos. 

As ilhas eram ponto de encontro de baleeiros, mas sem árvores para queimar, não havia fogo. A solução? Pinguins. Fáceis de capturar, ricos em gordura e altamente inflamáveis, milhões arderam na fogueira da indústria do óleo durante 200 anos. Eram quase 10 milhões. Depois da expulsão dos argentinos, não passavam de 500 mil.

A recuperação passa pelas 25 mil minas terrestres deixadas pela Argentina. Diante da dificuldade em desativá-las, os britânicos cercaram os campos minados. Como o pinguim não tem peso para detonar os explosivos, as praias se tornaram santuários. 

Nos últimos anos, a população de pinguins cresceu e hoje rivaliza com as ovelhas que perambulam pelo arquipélago. Os dois animais têm uma relação harmônica. O peso da ovelha, porém, é capaz de detonar as minas enterradas. Volta e meia, ouve-se um estouro, ao longe, e um pobre animal voa pelos ares.

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