Carlinhos Müller
Carlinhos Müller

Ilustrador transforma cenas do cotidiano de Berlim e Viena em obras de arte

Roteiro por duas metrópoles de estilos opostos, mas igualmente inspiradoras, durou sete dias

Carlinhos Müller, O Estado de S.Paulo

26 Março 2012 | 21h10

Duas cidades que respiram arte. Próximas geograficamente, mas distantes no estilo, Berlim e Viena são pura inspiração. A cada esquina, em cada rosto, em cada prédio surge uma cena que merece o registro. O artista em pernas de pau. A ciclista muçulmana. Os estilos de arquitetura.

Intensa e moderna, Berlim está na moda. É cada vez mais uma cidade das artes contemporâneas, repleta de estúdios de design, lojas descoladas, restaurantes gourmets. A apenas uma hora de voo, abre-se o universo clássico de Viena e seus palácios medievais, com trilha sonora embalada por Mozart e outros mestres.

Impossível não se deixar contaminar por tal atmosfera. Munido de pincel e aquarela, registrei o cotidiano das duas capitais durante um roteiro de sete dias. Um caderno de viagens, repleto de impressões pessoais, que você confere nesta e nas próximas páginas.

Berlim

Comecei por Berlim - meu primeiro contato com a cidade, ao entardecer, não podia ser melhor. Me deparei com uma topografia plana e uma riqueza arquitetônica fascinantes. Um horizonte limpo, com prédios quase do mesmo tamanho, o que permite uma visão mais ampla da capital alemã. A grande quantidade de edifícios novos e guindastes chama a atenção - a capital alemã parece estar constantemente em obras, transformando-se sem esquecer de preservar a história.

Pedalar é preciso

O relevo plano, as ciclovias, a familiaridade dos berlinenses com as bicicletas. Berlim convida a pedalar - e esta é, de fato, uma excelente maneira de conhecer a cidade. Com um cartão de crédito, você pode alugar a sua em um dos muitos bicicletários públicos. Ou acompanhar um dos bike tours realizados por várias empresas - foi o que fiz. Na Fat Tire Bikes (fattirebiketours.com/berlin), a diária custa 15 euros. Nossa primeira parada foi no Memorial do Holocausto - um quarteirão formado por 2.711 blocos de concreto que representa os judeus mortos durante a 2ª Guerra Mundial.

 

 

Marco da reunificação

O passeio de bicicleta continuou em direção ao Tiergarten, parque em pleno centro de Berlim. Ali, há um outro memorial, dedicado aos homossexuais perseguidos durante a 2ª Guerra Mundial. Mas, é preciso chegar bem perto da janela lateral do imenso bloco de concreto e focalizar com atenção para ver uma projeção de dois homens se beijando, repetida initerruptamente.

Próxima parada, Pariser Platz. Ali está o Portão de Brandemburgo, inaugurado em 1791. Uma espécie de Arco do Triunfo alemão, que acabou ganhando o status de marco oficial da reunificação. Hoje, é ali que ocorrem os principais eventos culturais da cidade.

O Panorama Punkt (panoramapunkt.de) tem o elevador mais rápido da Europa - chega ao 25º andar em 20 segundos. Lá do alto, a vista de 360° sobre Berlim.

História e tesouros

O Reichstag, o prédio do parlamento alemão, é a parada seguinte. A entrada é gratuita, mas para chegar ao domo e ao terraço é preciso reservar pelo site bundestag.de - ainda assim, você corre o risco de enfrentar longas filas. Construído entre 1884 e 1894, o prédio foi incendiado em 1933, sob circunstâncias misteriosas, e teve o domo destruído. Ganhou formas mais simples entre 1961 e 1971 e, em 1999, um interior moderno e uma bela cúpula de vidro.

De bicicleta, fui também à Museuminsle, a Ilha dos Museus - na verdade, uma península em meio ao Rio Spree. São cinco prédios, todos com acervos espetaculares. Nem tente ver tudo em um só dia.

Sem se cansar

A bicicleta está tão inserida no modo de vida berlinense que é comum ver homens pedalando de terno e gravata e mulheres, de salto. É possível estacioná-las pela cidade ou mesmo entrar com sua magrela no metrô, em vagões específicos. Em todo o trajeto, a Torre de TV, um dos marcos da cidade, a 368 metros de altura, se mantém onipresente no horizonte. E se você não está em sua melhor forma para pedalar, uma boa opção é o velotáxi, espécie de riquixá dos tempos modernos. Geralmente, o guia é um jovem berlinense que vai descrevendo para o passageiro as atrações que surgem pelo caminho.

Há um grande número de praias fluviais em Berlim, como as do Lago Mueggelsee, no subúrbio da cidade. Outra opção no verão são os bares praianos às margens do Rio Spree - com direito a areia e espreguiçadeiras

De cicatriz a galeria

A cena da população com martelos e picaretas sobre o paredão que dividiu Berlim em Oriental e Ocidental por quase 30 anos, que vi pela TV em 1989, se repetia em minha mente à medida que me aproximava da East Side Gallery. O trecho de 1,3 quilômetro do muro preservado se transformou em uma galeria ao ar livre, com intervenções de vários artistas. Do outro lado da cidade, na Bernauer Strasse, o Memorial do Muro mantém a aura sombria dos tempos da Guerra Fria. Para completar a viagem no tempo, uma parada no Checkpoint Charlie. No antigo posto de controle entre as Alemanhas, artistas se vestem de guardas, com o antigo uniforme. Agora, só para tirar fotos com os turistas.

Noite adentro

O anoitecer é uma atração à parte em Berlim, com opções para públicos bem distintos. Os points mais descolados se concentram no lado leste, onde prédios antigos deram lugar a clubes alternativos - muitos não têm letreiro ou localização fixa. O guia Henrik Tidefjärd, da Berlinagenten (berlinagenten.com), ajudou na escolha do itinerário noturno. Ele nos levou ao Splindler Klatt (splindlerklatt.de), bar às margens do Rio Spree e, mais tarde, ao Sage (sagerestaurant.de). Fechamos a noite no Cookies (cookies.ch), que parecia apenas uma portinha escondida em um beco. Lá dentro, você pode jantar ao preço fixo de 32 euros, depois, se esbaldar ao som de música eletrônica. Ali, a festa não tem hora para acabar.

Retomada cultural

Bombardeada durante a 2ª Guerra Mundial, cortada pelo Muro de Berlim, a Potsdamer Platz foi totalmente reconstruída depois da reunificação alemã. E retomou a efervescência cultural dos velhos tempos. Ganhou edifícios modernos como o Sony Center (sony.center.de), que reúne cinemas, restaurantes e o Museu dos Filmes (Film Haus). E se tornou símbolo da capacidade de regeneração de Berlim.

Ainda sobre o muro, uma curiosidade: em grande parte de seus 155 quilômetros de extensão, a muralha era dupla. No meio, a chamada "terra de ninguém" - ali estavam o Portão de Brandemburgo, e a área onde foi construído, em 2005, o Memorial do Holocausto.

Viena

Já Viena me recebeu ao som dos violinos dos artistas de rua. Estamos, afinal, na Cidade dos Músicos - ali viveram ícones como Mozart, Schubert e Strauss. Apesar do clima clássico, reforçado por seus 27 castelos e 150 palácios espalhados por toda a cidade, Viena não parou no tempo. Além de museus tradicionais, repletos de tesouros dos Habsburgos, a capital austríaca ganhou, em 2001, o Museum Quartier, espaço cuja essência são as artes contemporâneas. Nos dias de sol, é fácil observar nos bancos de concreto coloridos grupos de jovens conversando, pessoas lendo, descansando... Ócio criativo, talvez.

Viena foi a capital da monarquia dos Habsburgos por mais de quatro séculos, até o fim do Império Austro-Húngaro, em 1918. Dona Leopoldina, que se casou com D. Pedro I, pertencia à dinastia.

 

 

Coração vienense

Da janela do meu quarto no Sofitel Stephansdom, hotel conceito projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel, uma vista privilegiada do coração de Viena. O telhado colorido da catedral dedicada a Santo Estevão, símbolo da cidade (da qual o hotel emprestou o nome), se destaca: são 250 mil azulejos vitrificados. Construída no século 13 e reformada ao longo dos anos, a igreja tem como característica a variedade de estilos: fachada românica, torre gótica, altares barrocos. Dentro dela ocorrem missas e também concertos, Assisti a um quinteto de cordas que apresentou obras de Haydn, Mozart, Bach e Schubert. Informações: stephansdom.at.

Imersão musical

O Rio Danúbio corta várias cidades, mas de alguma forma parece pertencer mais a Viena do que a qualquer outra. Talvez por obra de Johann Strauss II, que, em 1867, apresentou ao público a valsa Danúbio Azul. Em Viena, as referências aos grandes mestres da música estão por toda a parte. O primeiro espetáculo apresentado na Casa de Ópera de Viena, em 1869, foi a ópera Don Giovanni, de Mozart. No Teatro de Viena, o compositor estreou A Flauta Mágica (1791). Mas você não precisa se limitar aos clássicos. DJs dominam as picapes de bares e casas noturnas como o exclusivíssimo Klub im Palais Kinsky. Outro point, próximo ao Ringerstrasse, é o Albertina Passage.

Palácios e tesouros

Há 150 palácios espalhados por Viena - muitos abertos à visitação. Caso do Hofburg (hofburg-wien.at), residência de inverno dos imperadores de Habsburgo do século 13 a 1918. No conjunto arquitetônico onde viveram a imperatriz Sissi e Franz Joseph I há biblioteca, teatro e museus, que expõem joias, porcelanas, mobiliário. No verão, a família se mudava para o Schönbrunn (schoenbrunn.at), no 13º distrito - destaque para os jardins de estilo francês. A realeza tinha outro palácio de verão, o Belvedere (belvedere.at), do século 18. Além do acervo, composto por quadros (como O Beijo, de Klimt) e esculturas, um de seus principais atrativos é o Terraço dos Oberes, que oferece uma bela vista da cidade.

Em círculos

Explorar Viena a pé é uma delícia. Os pés reclamam, mas há tanto para ver que seguir caminhando é irresistível. A cidade é composta por 23 distritos - o primeiro, no centro, tem como limite o Ringstrasse, onde ficava a antiga muralha, demolida no século 19 a mando do imperador Franz Joseph I para dar lugar a uma avenida. No entorno, foram construídos teatros, palácios e jardins. Uma dica é tomar o bonde que circula o Ring e fazer paradas pontuais. O centro, contudo, é mesmo para caminhar. Ali se concentram lojas, cafés, estátuas vivas, tocadores de realejo e o Hass-Haus, centro comercial cuja fachada espelhada contrasta com a arquitetura da catedral, logo em frente.

À sombra das parreiras

Pode parecer estranho, mas a apenas 6 quilômetros do centro, no distrito 21, é possível visitar vinícolas - e, claro, provar o vinho feito ali. Em nossa primeira parada, na Weingut Wieninger (wieninger.at), fomos recebidos pelo enólogo português Luís Teixeira. Descobri, por exemplo, que o tempo de fabricação do vinho branco é de 3 semanas e o do tinto, 4. Por 15 euros, experimenta-se 7 rótulos - reserve antes. A parada seguinte foi no distrito 19, na aldeia Grinzinger, de produção familiar. No agradável jardim nos fundos, provamos o vinho Lenikus. Em Viena, há cerca de 230 vinícolas - as uvas brancas representam 80% da produção.

Comer, comer

Comer é um programa à parte. Em busca de um café? O Café Museum (cafemuseum.at), frequentado no século 19 por Klimt, Schiele e outros intelectuais, tem 20 opções da bebida. Outro ponto tradicional é a confeitaria Demel (demel.at), existente desde o século 18. faça uma pausa no Naschmarkt. O mercado de rua mais famoso de Viena, localizado ao longo da Wienzeile, vende frutas e verduras frescas, queijos, doces, pães... Se quiser algo com mais, digamos, sustância, pare em um ótimos restaurantes e bares, frequentados também pelos locais. Aos sábados, um mercado de pulgas completa o clima descontraído da região.

Como ir:

A Berlim: voo SP-Berlim-SP desde US$ 945 na Air France (airfrance.com.br); US$ 1.000 na KLM (klm.com); US$ 1.053 na TAM (tam.com.br); US$ 1.124 na Swiss (swiss.com); e US$ 1.174 na Lufthansa (lufthansa.com). Com conexão

A Viena: ida e volta desde SP por US$ 903 na Alitalia (alitalia.com); US$ 1.086 na TAP (flytap.com); US$ 1.093 na Swiss; US$ 1.129 na Air France; e US$ 1.151 na TAM. Com conexão

SP-Berlim-Viena-SP: desde US$ 1.267 na Lufthansa; US$ 1.543 na Swiss; e US$ 1.611 na Air France

Berlim a Viena: US$ 83 (trecho) na Air Berlin (airberlin.com) e US$ 103 na German Wings (germanwings.com)

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