Imersão em busca do zen interior

Era uma tarde quente e poeirenta, cerca de 30 horas depois de minha chegada à Índia, quando o motorista do ônibus me largou perto do meu destino: Rishikesh, considerada a capital mundial extraoficial da ioga. Apenas uma pequena corrida de riquixá, assim parecia, separava meu corpo fatigado do zen interior. Quase duas semanas com monges num ashram (monastério hinduísta) me esperavam.

MARY PILON / RISHIKESH , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2014 | 02h06

A corrida de riquixá me levou por um labirinto de vacas, vendedores de rua e bicicletas contra uma soberba paisagem himalaia. "Você tem de cruzar a ponte", disse o condutor do riquixá ao parar. Eu podia ver o Parmarth Niketan, o maior ashram da cidade, onde eu havia reservado um quarto, do outro lado do Rio Ganges, mas restava aquela ponte suspensa - ornamentada por macacos. O rio dividia a cidade ao meio e eu estava no lado errado.

Arrastando minha mala do tamanho do corpo pela ponte enquanto me esquivava de bicicletas motorizadas, finalmente cheguei ao portão do ashram.

De Nova Délhi, Rishikesh é acessível por trem, avião e ônibus. Tomei um ônibus por cerca de US$ 8 e embarquei numa viagem de oito horas, cheia de solavancos e placas de "cruzamento de elefantes" no caminho.

Tudo em nome de tentar compreender como era praticar ioga no lugar onde alguns acham que ela nasceu. Em Nova York, eu havia me afeiçoado a meu tapete de ioga e quis aprender mais sobre como a antiga prática espiritual havia virado um passatempo urbano para pessoas abonadas.

Desde que Elizabeth Gilbert publicou, em 2006, o livro de memórias Comer, Rezar, Amar, a viagem de solteira iogue à Índia em busca de sua alma virou uma espécie de alegoria, com incontáveis mulheres fazendo o mesmo.

Rishikesh ganhou fama como o lugar onde os Beatles vieram no início de 1968 e escreveram boa parte de The Beatles, conhecido como O Álbum Branco (hoje, esse ashram está abandonado). De Uma Thurman a Jeremy Piven e de astros de Bollywood ao príncipe Charles circularam pela cidade. É uma "terra onde dominar os próprios sentidos", diz um guia do Parmarth, "dominar o apelo do desejo, tornar-se mestre de si mesmo".

Isso soou bem para mim. Antes de minha partida, um amigo professor rotulou Rishikesh como "paraíso da ioga". Outro amigo, indiano, contrapôs: "É o lugar que os meninos chatos de meu internato frequentam".

Curiosa e sem a menor vergonha, eu me juntei às suas fileiras: Rishikesh seria alguma Disneylândia da ioga moralmente falida ou ainda seria um destino espiritual diferenciado?

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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