Inconvenientes dos banhos termais

Nosso insaciável viajante agradece aos leitores que se divertiram com os lugares estranhos mencionados em seu artigo da semana passada. E manda dizer ao doutor João Mário Mascarenhas Tavares que respeita profundamente o seu interesse e aceita considerar "a relevância científica" do Museu das Parasitas de Tóquio, onde, além de outros vermes, repousa um belo espécime de tênia com 10 metros de comprimento.

Mr. Miles*, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2010 | 02h30

Ainda assim, o correspondente britânico lamenta, mas não tem a menor intenção de visitá-lo. A seguir, a correspondência da semana:

Querido mr. Miles: sou fã de banhos termais e já estive em diversas estações hidrominerais pelo mundo. Será que um dia terei o prazer de encontrá-lo em uma destas piscinas quentes?

Sarita Gonçalves, por e-mail

"Well, my dear: sinto terrivelmente desapontá-la mas, de minha parte, não aprecio nem um pouco esses sempre muito concorridos banhos públicos. Para que fique claro desde já, minhas razões não têm nada em comum com as dos franceses, que, for sure, a prezada leitora jamais encontrou em alguma terma. Como é sobejamente conhecido, os habitantes da Gália não gostam de qualquer tipo de banho por motivos, I presume, ideológicos.

De minha parte, prefiro a solidão de minha própria banheira ou das que me são oferecidas pelos quartos de hotel. Elas não têm enxofre nem outras propriedades balsâmicas mas, como dizia minha querida tia-avó Antonine, "quem precisa disso?".

I'm sorry, dear Sarita, mas tenho, as you know, uma saúde de ferro, exceto pelas recidivas daquela antiga malária que contraí no Congo muitas décadas atrás. E minhas raras experiências em estações hidrominerais foram inegavelmente desagradáveis.

Vou relatá-las para ver se você concorda: muitos anos atrás, ainda durante a vigência do regime comunista, meu amigo Férenc Puskás (N. da R.: célebre futebolista húngaro) convidou-me para um banho nas termas do renomado Hotel Géllert, em Budapeste. Fazia um frio de congelar torneiras e decidi acompanhá-lo. O recinto era - e ainda é - muito bonito. Mas confesso que senti um certo desconforto ao compartilhar as tépidas águas do balneário com cerca de 5 mil camaradas magiares em nítido estado de petição de miséria. Para piorar, oh my God, no imundo vestiário coletivo (hoje, by the way, já reformado) adquiri uma persistente coceira nos dedos, da qual levei meses para me livrar. Isn't it awful?

Em outra ocasião, uma mulher muito bonita (ah, o poder das mulheres) convenceu-me a provar as águas quentes de um enorme balneário que fica justamente em seu país. Prefiro omitir o nome, porque não sei se ele aprimorou suas condições desde então. Eis que, ao lado da piscina, havia uma grande placa com um desenho esquemático sugerindo um homem em vias de urinar. Havia um x sobre a placa, advertindo, probably, de que era proibido urinar no local.

A sutileza da indicação, off course, fez com que eu me sentisse imediatamente mergulhado em uma privada. Tentei, therefore, concentrar-me na beleza de minha acompanhante, mas logo notei uma estranha massa esfarelada flutuando sobre as águas quentes. Guess what? No meio da piscina havia um bar vendendo cerveja e guloseimas. Os tais farelos, como compreendi a seguir, eram pequenos pedaços das empadinhas que se desprendiam das mãos dos meus gulosos pares. Será que agora, darling, você ainda guarda alguma esperança de me encontrar em um lugar desses?"

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

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