Roque Prado
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Ir, vir e ficar

Nascer em um país nos faz donos dele? A história me diz que não - e a alma viajante também

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2019 | 03h00

Nonna Nunziata acaba de completar 80 anos com a energia que qualquer um de nós espera ter quando essa idade nos der – se nos der – a chance de vivê-la. Destas oito décadas, quase sete foram vividas num país que não o de sua origem. Nunziata nasceu em Bitritto, em Bari, na Itália. Por necessidades impostas pela guerra, se viu obrigada a tomar o rumo de outros 1,5 milhão de italianos emigrados para o Brasil. Era novembro de 1952 quando, ao lado dos dois irmãos e dos pais, pisou aqui pela primeira vez. Tinha 13 anos.  

Nathalia, Aline, Renata e Wilson estão na faixa dos 30. Por escolha e com muito mais conforto, perspectivas e liberdades, fizeram o caminho inverso: há dois anos moram na Europa e nos Estados Unidos. Lidam, porém, com desgastados preconceitos de quem se acha “dono” de um lugar pelo simples fato de ter nascido nele.  

Nonna havia me surpreendido, no ano passado, com um pedido de biografia sobre sua vida, uma aventura e tanto por sinal. Aceitei o desafio e dei início às pesquisas na ocasião de seu octogésimo aniversário. Enquanto pesquisava documentos de sua trajetória pelo Atlântico no acervo do Museu do Imigrante (em São Paulo, aberto à visitação), piscou o alerta de notícias: o Brasil está fora do Pacto Global de Migração

Viajar x migrar

Há quem possa dizer que viajar e migrar são assuntos diferentes. Eu diria que são indissociáveis, ainda que existam particularidades. Quem migra por necessidade acaba por realizar, talvez, a maior viagem de sua vida, aquela que mais deixará marcas, positivas e negativas. Descobrirá, como qualquer outro viajante an passant, lugares, pessoas e costumes do povo que o recebe. E este povo também poderá aproveitar, se for sábio, a oportunidade de conhecer a cultura de seus visitantes e seus talentos profissionais.  

Nem preciso dizer que isso é ainda mais válido, por ser de antemão desejado, para o migrante por escolha pessoal, que saiu de suas fronteiras para estudar, mudar de vida, trabalhar. Hoje, segundo a Conectas Direitos Humanos, 3 milhões de brasileiros vivem no exterior, número superior aos 700 mil estrangeiros que atualmente residem em nosso País – para recordar as proporções, somos 200 milhões de brasileiros. 

O Pacto Global de Migração, acordado em dezembro último por 164 países, incluindo o Brasil, foi rejeitado pelo novo governo na última semana, em nova conferência da ONU. Segundo nossos representantes federais, o acordo ameaçaria a soberania e autonomia do Brasil para decidir sobre os migrantes que aqui chegam. O pacto, no entanto, não é jurídico e não coloca em xeque o poder de decisão de um Estado sobre suas políticas. É uma carta de recomendações – grifo essa palavra – para que haja, formalmente, um esforço de coordenação segura dos fluxos migratórios que sempre existiram e que vão continuar existindo com ou sem acordo.  

Costuma haver, por parte dos descendentes brasileiros de italianos, portugueses, japoneses, espanhóis, orgulho de suas origens e da trajetória de seus antepassados – as homenagens da festa de aniversário da nonna não me deixaram outra conclusão. Perco horas em museus e casas de culturas de migrantes espalhadas pelo mundo e me encanto com meus avós contando de onde vieram. Choro e sorrio pensando como era a Bitritto da jovem Nunziata e como ela está hoje. Todos na minha família sonham em um dia poder visitar Itália e Portugal, entre muitos motivos, porque sabem que ali estão suas raízes.

Sou incapaz de compreender, assim, toda e qualquer política que vá contra a entrada regulada e segura de pessoas no país que não é meu. É apenas onde nasci, e justamente porque houve migração – o acaso tem mais explicações históricas e viajantes do que imaginamos. Importa pouco se a entrada é para passar uma semana, dois anos ou a vida inteira. Como viajante que sou e pretendo continuar sendo, quero, afinal, ter o mesmo direito quando, por necessidade ou vontade, romper as linhas imaginárias e arbitrárias que dividem o mundo. 

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