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Isolamento também pode ser bom, mesmo depois da pandemia

Quando viajar a passeio voltar a ser uma opção, destinos com muita natureza e poucas pessoas serão a melhor escolha

Mônica Nobrega, Especial para o Estado

03 de agosto de 2020 | 05h00

Em janeiro deste absurdo 2020, terminado o recesso de fim de ano, comecei a planejar uma Páscoa na praia. O carnaval (saudades, carnaval!) estava decidido que seria em São Paulo mesmo. Mas a Páscoa não me escaparia: eu queria muito experimentar a tranquilidade da Ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo. Tinha uma boa indicação de pousada, sabia que na ilha é possível alugar bicicletas para pedalar por mais de 10 quilômetros de faixa de areia firme sem encontrar quase ninguém, que a comida é caseira. Que as noites são silenciosas, mas que há um forró no Marujá, o centrinho da ilha. 

E aí veio a pandemia, que ainda é presente, mas também já é história.

Todo mundo que produz informações sobre turismo com seriedade, de forma profissional e comprometida com o bem-estar dos viajantes e das populações locais, a essa altura está convencido de três evidências. Primeira, que ainda não é hora de viajar a passeio. Segunda, que quando a covid-19 começar a dar sinais consistentes de queda em novas contaminações e mortes, vamos voltar a viajar de forma gradual.

Um estudo do impacto do novo coronavírus no turismo brasileiro divulgado pela Fundação Getúlio Vargas no começo de junho apontou que, para um período total de crise de cinco meses (ou seja, é onde estamos agora, sem sinais de melhora), as viagens internacionais devem levar até dois anos para voltar ao patamar do começo de 2019. As nacionais, até um ano. 

A terceira evidência é a de que a retomada será por meio do que muita gente está chamando de turismo de isolamento. Sem aglomerações e ao ar livre. Por exemplo, a Ilha do Cardoso que planejei e a pandemia me impediu de realizar este ano. 

Se o feriado de Páscoa deste 2020 foi do isolamento social, por volta da mesma época no ano passado eu chegava a Itacaré para um desejado isolamento individual. Naquele dia do comecinho de abril de 2019, chovia tanto no litoral sul da Bahia que o transfer levou quase três horas para vencer os 75 quilômetros entre o aeroporto de Ilhéus e Itacaré. No hotel pé na areia, com chalés dispostos em um coqueiral, a caminhada da recepção ao meu quarto encharcou o tênis. Este é um dos maiores trechos contínuos de Mata Atlântica preservada do país – e o temporal na Mata Atlântica pode ser bem forte e persistente.

Mas quem está na chuva é mesmo para se molhar. E na praia, também. Mala no quarto, fui direto (e descalça) tomar chuva na beiradinha do mar de água morna. Sozinha, uma delícia. Depois, almocei camarão com leite de coco, sem ninguém à vista, no restaurante pé na areia. Nos dias seguintes viriam escondidinho de carne de sol, purê de abóbora, nhoque de banana-da-terra e acarajé, embora este não seja exatamente um prato típico dessa parte do Estado da Bahia, a chamada Costa do Cacau. No centro turístico de Itacaré não há mais do que três ou quatro baianas do acarajé. 

Itacaré tem umas 15 praias, mais de metade delas acessíveis por trilhas que partem da rodovia, mas são inviáveis para carros. Assim, mesmo no verão, se você escapa do centro da cidade, consegue curtir sol e mar com pouquíssima gente à vista. Às vezes, e dependendo da época do ano, sem ninguém por perto, como foi o meu caso na praia de Itacarezinho, que no geral tem um mar mais batido, com ondas médias a fortes. Talvez você veja uns poucos surfistas.

Em Itacarezinho, é possível ver ninhos de tartarugas-marinhas e o nascimento dos filhotinhos, aproximadamente entre novembro e maio. E pouca coisa mais, além de mata, areia e mar. Não surgem vendedores. Caminhando para o sul, chega-se à foz do Rio Tijuípe. Entre ida e volta, anda-se mais de 10 quilômetros.

Naquela estadia de mais de um ano atrás, em uma noite particularmente clara e calorenta (a chuva durou só o primeiro dia mesmo), deitada na varanda externa do meu quarto depois do jantar, olhando estrelas, tive vontade de um banho noturno de mar. Caminhei até a beirada, cuidei de não ir além da água na altura do joelho para não correr um risco desnecessário. Me refresquei e me diverti, tomada por uma sensação ótima de liberdade.

Toda essa quietude agora dá agonia diante da vontade de aglomerar (né, minha filha?, diz o meme mais famoso da pandemia), de encontrar amigos, abraçar a família, conhecer gente nova. Mas também dá segurança sanitária. O isolamento vai continuar sendo nosso amigo por algum tempo ainda, e o que estou aqui tentando fazer é lembrar você de que ele pode ser muito gostoso. 

Já dá para visitar Itacaré?

Ainda não. Itacaré permanece fechada ao turismo ao menos até 14 de agosto quando, de acordo com anúncio da prefeitura, começa uma reabertura orientada por protocolos sanitários. Os estabelecimentos devem solicitar uma certificação, chamada de Selo Turismo Seguro Itacaré, que demanda uma vistoria prévia. O aeroporto mais próximo é o de Ilhéus. 

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