Bruna Tiussu/AE
Bruna Tiussu/AE

Joias da província de Limousin

Fabricados segundo a tradição, porcelanas e esmaltes evoluem e retratam a ânsia por modernidade da região. Um panorama que ganha cor e contornos em Limoges, a capital

Bruna Tiussu,

28 Novembro 2011 | 23h00

LIMOGES - Enquanto o tartare de salmão e o filé de Turbot detalhados no menu fazem o senhor da mesa ao lado salivar com os olhos, sua companheira se concentra nas peças diante dela. Repara no formato de cada louça, cores e brilho, passa o dedo nas bordas decoradas do suplá. Depois, vira o prato sem nenhum constrangimento e confere o carimbo do fabricante. Afinal, em um restaurante de Limoges, capital da região francesa de Limousin, é mais que esperado que seu pedido seja servido em uma bela porcelana Bernardaud, Raynaud ou Haviland.

 

Foi somente em 1925 que a cidade se tornou oficialmente capital mundial da porcelana, apesar de o manejo do chamado "ouro branco de Limousin" ser de domínio das famílias locais desde o século 18. Depois que se descobriu a abundância da argila de caulim na região - principal matéria-prima para as peças - as fábricas dali se tornaram referência internacional. Conhecidas, e sobretudo cobiçadas, no mundo inteiro.

 

Cada uma delas se mantém até hoje fiel às técnicas de fabricação desenvolvidas pelas próprias famílias, com segredos centenários que justificam e garantem o status artístico da porcelana. Mas também evoluíram, e agora trabalham para manter vivo este patrimônio, combinando tradição e modernidade.

 

Esforço que se percebe em uma visita às fabricantes - as cinco maiores, Haviland, Raynaud, Bernaudaud, Merdard de Noblat e Royal Limoges recebem turistas. No tour guiado pelo imenso edifício Bernardaud (4,50), por exemplo, o visitante acompanha o passo a passo da confecção de um vaso - cada peça chega a ter 30 manipulações. Assim como vê de perto a destreza do artista que, com mão firme, dá pinceladas coloridas em um pequeno anel.

 

 

Pode ir mais além e se impressionar com objetos decorativos que levam a assinatura de designers internacionais - o Brasil tem seu espaço, representado pelos irmãos Campana -, e outros enfeites delicados, que brincam com formas geométricas, cores, fios de ouro e mal parecem ser essencialmente porcelanas.

 

Ares medievais. Toda a dedicação ao novo salta mais aos olhos quando se conhece Limoges. Estamos falando de uma cidade com mais de 2 mil anos de história, fundada pelos romanos, com clima medieval reinante. Seja nas ruelas do bairro antigo, catedral gótica de 1263, fachadas ora de pedra, ora de madeira dos edifícios do século 14 e 15, e jardins romanticamente franceses.

 

É neste cenário, onde o clássico se sobressai, que toques modernos brigam por espaço. Basta notar os bulevares substituindo as muralhas que antes dividiam a cidade. Ou contar o número de lojas descoladas e restaurantes sofisticados que hoje ocupam a Rua dos Açougueiros. Até mesmo outro orgulho artístico local, o esmalte, entrou na dança: os traços decorativos vistos por lá pouco remetem àqueles exaltados pela nobreza e clero da Idade Média.

 

A ânsia por valorizar essa evolução cultural culminou na mais nova atração da cidade, o Museu de Belas Artes. Inaugurado no fim de 2010, no antigo Palácio de l’Évêché, reúne pinturas, porcelanas e esmaltes produzidos ali desde o século 12 até os últimos anos. Um acervo suficiente para mostrar que os anos passam, mas Limoges se mantém autêntica.

 

Crie a própria peça, como os profissionais

 

Com uma plaquinha de metal em mãos, espátula e uma lista de cores em pó disposta em cima da mesa, você está pronto para brincar de esmaltador. Vale fazer um desenho (ou tentar pelo menos), uma figura abstrata, misturar cores, apostar em espaços vazios. Enquanto arranja e rearranja sua futura obra-prima, na verdade tem apenas uma vaga ideia do resultado final. O glamour da peça esmaltada só vai aparecer depois de submetida ao calor do forno. É lá que a matéria de fato se transforma, liberando todos os seus segredos de textura e cores.

 

A experiência faz parte da visita turística à La Maison de l’Email (9), ou Casa do Esmalte de Limoges. Recém-inaugurada, foi criada como um misto de ateliê para artistas, oficina de cursos para quem se interessa pela técnica, espaço de exposições e loja. Aliás, um rápido tour por ali, duas ou três peças observadas de perto, e você vai querer guardar sua plaquinha de metal no bolso para sempre.

 

Assim como na porcelana, o que se vê na cidade, principalmente ao longo dos últimos cinco anos, é um gigantesco movimento de renovação também quando o assunto é o esmalte. Artistas contemporâneos se libertaram da técnica tradicional. Ou melhor, a reinventaram, variando as plataformas de trabalho. Deixaram de lado as formas artísticas que ganharam fama lá trás, como as imagens sacras, paisagens bucólicas e retratos, para começar a investir no que chamam de ousadias artísticas.

 

O esmalte se tornou, então, material base para criações de obras maiores, modernas, que conversam diretamente com os temas da atualidade. Os jovens artistas foram além, e também testam novos aspectos, aplicando-o em conjunto com outros materiais, como tecido, bambu e mármore. Toda experiência é válida. Exemplo disso é a obra composta de latinhas de sardinhas esmaltadas do artista Laurent Vaury, que ilustra a capa desta edição.

 

Móveis, luminárias, enfeites decorativos e até as pequeníssimas peças da indústria de joias e bijuterias também passaram a receber as cores, texturas e brilho do esmalte. Exibidas nas vitrines da cidade como verdadeiras obras de destaque, atraem o olhar de qualquer um que por ali passe.

 

Patrimônio. Para conferir peças tradicionais, aquelas que reinavam absolutas na Idade Média e eram objeto de desejo da nobreza e clero, vale se deter no último andar do Museu de Belas-Artes. O espaço é totalmente dedicado ao esmalte, com uma das mais ricas e completas coleções. São mais de 600 peças vindas dos ateliês de Limoges desde o século 12, entre relicários, vasos, cálices e demais objetos religiosos que acabaram conferindo certa fama internacional ao museu.

 

Outra opção é simplesmente caminhar pela cidade. Sobretudo no bairro antigo, alguns edifícios históricos exibem detalhes coloridos nas suas fachadas que também são pinturas em esmalte. Às vezes estão em destaque; em outras, porém, são tão discretos que é preciso olhos clínicos para não deixá-los passar despercebidos.

 

Saiba mais

Aéreo: é possível voar diretamente para Limoges; o trecho ida e volta desde São Paulo sai por a partir de R$ 2.720 na Air France. Outra opção é chegar em Paris e dali seguir de trem. Ida e volta desde São Paulo custa a partir de R$ 1.604 na Air France, R$ 1.866 na TAM, R$ 2.162 na Lufthansa, R$ 2.609 na TAP e R$ 2.650 na Iberia

Trem: a viagem de Paris até Limoges dura 3 horas (há dez saídas diárias) e custa a partir de 28 no voyages-sncf.com

Aluguel de carro: automóvel é a melhor opção para percorrer a região. Uma semana de aluguel de carro custa a partir de 274 na Avis e 288 na Hertz. Acesse também o site locationdevoiture.fr, coloque o período desejado e faça uma busca comparativa de preços entre as empresas

Melhor época: Limousin pode ser bem aproveitada durante o ano todo, mas se puder escolher prefira visitar a região no verão ou primavera, quando os campos estão mais verdes e as temperaturas agradáveis

Na web: o site oficial do órgão de turismo da região é o tourismelimousin.com, com versões em inglês e espanhol. Saiba mais sobre a capital Limoges no limoges-tourisme.com, este somente em francês

Pacotes: confira algumas opções no blogs.estadao.com.br/viagem

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